𝚃𝚑𝚎 𝚗𝚊𝚖𝚎 𝚘𝚏 𝚊𝚗 𝚎𝚡𝚝𝚒𝚗𝚌𝚝 𝚜𝚝𝚊𝚛 𝚎𝚌𝚑𝚘𝚎𝚜, 𝚌𝚛𝚎𝚊𝚝𝚎𝚜 𝚠𝚒𝚝𝚑 𝚜𝚒𝚕𝚎𝚗𝚌𝚎, 𝚜𝚑𝚊𝚍𝚘𝚠, 𝚊𝚗𝚍 𝚋𝚛𝚒𝚐𝚑𝚝𝚗𝚎𝚜𝚜.

sábado, 1 de agosto de 2026

BEDA | Criando - pt.1

E no clima de balanço de meio do ano e BEDA, sobre atualização e planos futuros...

Desde que migrei do Bear Blog pra cá que fico: eu preciso voltar as postar meus desenhos, preciso voltar a postar os desenhos e aí a vida VRAU e sigo sem postar. 

Mas VAI, AGORA VAI.

Porque pra pessoas que nem eu que tem a cabeça avoadinha, esquecer o que se produziu é fácil, fácil demais. E nesse processo o tumblr me salvou quando eu tinha paciência de, de fato, correr e postar as coisas lá. Por registrar o tempo, por me não me fazer esquecer, pra conseguir ver em uma linha reta a quantas anda o meu traço (se ninguém nunca te contou, eu te conto: desenhistas às vezes esquece o próprio estilo). Já que o Mega me fodeu quando foi lá e apagou to-dos os meus arquivos originais, poder entrar no Tumblr e saber que ainda existia algum mínimo registro foi um alívio.

O que me desanima do blogger, porque nada nesta vida de adulta é perfeito, é que postar imagem aqui é horrível. A eu-designer, criadora de imagem, se contorce todinha em como fica tudo absurdamente desorganizado. As imagens não se alinham, não se encaixam; Aparecem diferente no editor e na visualização. Começo a pensar que, talvez, talveeeez, eu precise reformar o layout geral do blog e, suspira...Aí lembro que lá no Bear Blog eu tinha que hospedar as imagens fora e anexar os links e suspira, aqui pelo menos eu tenho botão. 

Difícil a vida da pessoa leiga&cansada em blambers (termo cunhado pelo Mastodon/Fediverso pra essas pessoas inteligentes metidas com "essas coisas de computador").

E sobre o BEDA, termo totalmente novo pra mim mesmo sendo velha entre blogs, que conheci quando entrei no ENTREBLOGS e que significa Blog Every Day August parece condizer por onde o universo anda levando os meus interesses ultimamente. Parece que minha garrafa, antes à deriva, encontrou uma terra firme, o que me deixa feliz e animada.

Vai ser um grande desafio, sem dúvidas, escrever todos os dias nos próximos 31 que vem, com uma rotina que abarca 14 animais e duendes visitantes de jardim, uma idosa acamada, um emprego de horário comercial em uma área desgastante invadida por IA, uma tentativa empreendedora e uma casa que toda hora quebra algo? Rapaz... Ainda nesse meio tempo, como processo de luto, tenho duas coisas pra lidar nesse mês: seria o aniversário do meu pai, que sempre foi em conjunto ao dia dos pais, com um golpe duplo; e a promessa que fiz a minha mãe de fazermos pequenas reformas pela casa como parte de superação de fase e ocupação de tempo e mente. 

Tinha, tenho, não sei mais, cogitado também em participar do The Pattern Chalenge que acontece em agosto, com uma lista de prompts que, a cada dois dias, gera uma nova estampa. Algo que tenho querido muito estudar. Mas desenhar todo dia além do trabalho criativo do dia e continuar a produzir minhas estampas das camisetas talvez seja muita coisa.

Parei, olhei pro horizonte e tô repensando as escolhas que tô fazendo da minha vida.

Mas vamo lá voltar pras coisas que deixei de postar.

Eu parei de postar, mais ou menos, lá por fevereiro do ano passado. Na época eu tava encantada e planejando mil coisas com cerâmica fria. E foi quando tava no meio do processo de testes que a vida de idas médicas e internações hospitalares atropelou.

Vou recomeçar por aí e ir postando por partes.

Testando porta-copos com temática de comidinhas

Íma de geladeira, quando quis testar cerâmica fria e pedraria

Decoração de presente de aniversário pra uma amiga com os gatos dela.

Chaveirinhos

Chaveiro em teste com biscuit

Porta-óculos

Kirby e Gastly em cerâmica fria, ímas de geladeira


Testes em chaveiro

Testando a cobertura em resina

Mais chaveiros e mini pinturinhas

Mini pintura familiar em cerâmica fria

Ímas de geladeira pra uma amiga querida, de aniversário

Ímas de geladeira pra uma amiga querida, de aniversário


+ Um teste, dessa vez estranho

Estes foram produzidos entre dezembro e setembro de 2024-25.

Volto pra tentar organizar os desenhos, analógicos e digitais.

Esse post faz parte da seleção mensal da comunidade de blogagem coletiva ENTREBLOGS, criada com o intuito de compartilhar nossas perspectivas sobre os mesmos assuntos. Esse é um tema de agosto (BEDA 2026 - Guardiões da Blogosfera) E é possível ler o que a galera anda escrevendo por aqui.

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quarta-feira, 29 de julho de 2026

[tag] 2026.1

Esse post faz parte da seleção mensal da comunidade de blogagem coletiva ENTREBLOGS, criada com o intuito de compartilhar nossas perspectivas sobre os mesmos assuntos. Esse é um extra de julho (Resumo do primeiro semestre).

(sobe o letreiro, fim de filme).

Os últimos anos têm sido um avalanche de emoções, mas não tanto quanto esse que chegou me derrubando já em janeiro. Eu tentei não enxergar o que o ano anunciava já na virada, tentei achar que seria um ano tranquilo, mas de janeiro a abril, com os esforços, pioras, sobrecargas e a morte do meu pai, tudo virou um borrão. 

Eu consigo pontuar coisas que consegui fazer, como leituras, mas até abril, é o máximo que consigo fazer. Porque foi na leitura que consegui um pouco de alento quando não conseguia dormir em enfermarias caóticas e cadeiras de plástico. Era a suspensão da minha mente de um lugar terrível pra outro lugar que só existia naquelas páginas e que, principalmente, não era a minha realidade.
O resto se resume a dores e sofrimentos que nem me sinto preparada pra entrar no app de fotos e explorar pra relembrar. Porque elas são o resumo de dias onde vivi no hospital, compartilhava de sofrimentos e crises de ansiedade e ansiava por uma normalidade mínima urgente.

Balanço de livros do primeiro semestre

Eu tinha colocado como meta anual 14 livros. Juntando com HQ's, já se vão 20. E são eles:

  • O perigo de estar lúcida, da Rosa Montero. Maravilhoso, fiquei desejando ler outras coisas dela. Vim do ano passado com essa sensação constante de que se meter com arte é ter os dois pés enfiados na loucura e com esse livro eu me senti validada. 
  • A empregada, da Freida McFadden e, na minha percepção, ela é a Raphael Montes "deles". Boas premissas, desenvolvimentos fracos. Não sei como não larguei a mão da Freida desde O namorado, mas eis-me aqui novamente lendo e soltando uns "pelo amor de deus, mulher". (Esse eu li logo na primeira semana de hospital em uma enfermaria muito desgraçada e acabei falando um pouco sobre aqui 
  • O avesso da pele, do Jeferson Tenório. Matador. 
  • O fantasma de Canterville, do Oscar Wilde pra cumprir minha cota de clássicos. Tô brincando. Eu não lembro em que momento em peguei a indicação desse livro como um livro de humor. Achei mediano.  
  • Abril Despedaçado, do Ismail Kadare. Esse eu tive muita vontade de ler por gostar bastante do filme. Interesse que veio ali na altura do Oscar, com filme brasileiro sendo indicado e tive vontade de expandir pro universo literário. Me peguei bastante confusa ao perceber que o livro não se passava no sertão baiano, como no filme, mas sim nas montanhas da Albânia. Prefiro o filme e ainda acho uma das melhores adaptações que já vi na vida - e isso não tem nada a ver com fidelidade, o que é um sopro muito bem-vindo. 
  • (#0.5) Rainha Charlotte, da Julia Quinn. Aqui, já tentando viver um pouco de normalidade, mesmo morando dentro do hospital com meu pai, eu acompanhei a nova temporada de Bridgerton e pra suprir as brechas e não pesar mais a cabeça, peguei os livros da Julia Quinn implorando por leveza. E fui lá pro prequel da extensa série Os Bridgertons. Já tinha visto a minissérie, gostado e achei o livro muito bonito. 
  • (#1) O Duque e eu, Julia Quinn. Comprei o box com os 9 livros, uma mini luminária de livro, ia trabalhar durante o dia e voltava à noite pro hospital, pras fraldas, observações médicas, banhos de leito, trocas de relatos, conversas silenciosas, gemidos de dores e vômitos... e minha poltrona. Amassei o livro de dormir abraçado com ele, o meu alento, o clima mais leve possível do momento. É a minha temporada favorita da série, em relação ao livro, acho que desse pro prequel é um salto de escrita. 
  • (#2) O visconde que me amava, Julia Quinn. Seguindo na fantasia acalentadora.  
  • (#3) Um perfeito Cavalheiro, Julia Quinn foi bacana de ler porque a temporada tava fresquinha na minha mente. 
  • (#4) Os segredos de Colin Bridgerton, Julia Quinn foi realmente o meu favorito porque gosto da Penelope, ainda que goste mais dela na série. Nessa fase aqui eu já estava em luto. 
  • A livraria mágica de Paris, da Nina George foi a minha tentativa de voltar a uma normalidade presencial, física. Como falei, os últimos anos foram difíceis, especialmente porque a pandemia se juntou a doenças familiares no meu isolamento social. Esse livro foi a indicação de um clube de leitura presencial que resolvi participar e, apesar de não ter gostado tanto assim da leitura, sair, encontrar pessoas, falar de coisas diferentes de doença e problemas foi um grande alívio. Grandessíssimo alívio. O livro vai por uma premissa que gosto bastante, mas se desenvolve, ao meu ver, de uma forma bastante pretensiosa. Salvei poucas coisas do que li.  
  • @mor, do Daniel Glattauer acabou sendo uma boa surpresa. Confesso que por nome e capa seria uma leitura que eu nunca faria, mas surgindo como indicação numa conversa e vindo de uma pessoa especial, eu dei chance e acabei devorando. É um livro leve, fácil, rápido de ler. Um livro que instiga a querer saber como continua, como uma boa fofoca, que faz querer acompanhar os personagens, querer saber mais da vida deles, especialmente estando você mesma em posição similar ao dos personagens com a pessoa que indicou. Enfim. Me trouxe uma boa companhia e boas reflexões. 
  • Soppy, da Philippa Rice foi meu primeiro HQ do ano e feliz com a mudança do BibliOn, o meu lugar favorito de ler HQs. Confortável, gostoso e deixa uma vontade gostosinha de se apaixonar e ter um canto pra compartilhar um amor. 
  • (#1 - #6) Made in Korea do Jeremy Holt tem uma boa premissa, especialmente em tempos de discussão de ética sobre IA, mas acho que se perdeu ao tentar abraçar o mundo fazendo uma salada de outras questões éticas. 
  • Emmi e Leo - A sétima onda, do Daniel Glattauer porque o outro lá, o @mor acabou fazendo tanto sucesso que o autor voltou pra continuar a fofocaiada e suprir nossa necessidade de um amorzinho à distância. Engoli também e terminei com saudades. 

A segunda leitura do clube do livro escolhida foi A Casa do Espíritos, da Isabel Allende, que eu já li, mas que tô animada pra reler.

Tentando seguir a vida, algumas outras coisas boas que marcaram esse primeiro semestre:

  • Clube do livro presencial;
  • Ter aberto a minha lojinha pela Penca, a Feito por Kiff. Acho um tanto emocionante ver minha marca impressa nos peitos de pessoas que gosto tanto;
  • Estar trabalhando bastante em testes e preparações pra abrir uma outra lojinha, mas focada mais em papelaria e adesivos, a priori e, de fato, produzidas por mim. Estou animada e confiante, ainda que com medo, mas encantada com as possibilidades;
  • Ter estreitado laços e conseguir me sentir amada por pessoas à minha volta;
  • Colocar a vida pra frente com pequenas reformas na casa e conseguir manter, ainda que no aperto, a casa sendo a principal provedora. 
Quem sabe, lá no balanço do fim do ano, a vida dê uma trégua e eu consiga até fazer um mosaico de fotos. Por ora, é isto. Pisa no freio, 2026.

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segunda-feira, 27 de julho de 2026

[Tag] Todo hobby é uma porta

Esse post faz parte da seleção mensal da comunidade de blogagem coletiva ENTREBLOGS criada com o intuito de compartilhar nossas perspectivas sobre os mesmos assuntos. Esse é o de julho (Um passatempo antigo, algo que você gosta de fazer atualmente ou até comece um novo).


Falar de hobbies é entrar num caminho longo por aqui, como entrar num labirinto que vai mudando o caminho enquanto você o adentra. Porque, olhando para trás, percebo que nenhum hobby ficou parado no tempo. Todos foram mudando de forma e acabaram construindo quem eu sou hoje.

Mas vamo lá voltar ao início quando a Keith menor foi estimulada a desenhar e criar com diferentes materiais? Bora. E a ler? Também! E a varar madrugadas ou se recusando a ir dormir enquanto assistia filmes com o pai? sim! E quando familiares ensinaram despretensiosamente a tricotar e crochetar? Vamosss.

E aí vou me segurar pra falar apenas dos antigos sem deixar que os novos, ainda que uma coisa ligue a outra, atropelem. Porque hobby is my passion.


Leitura

Como comentei em outro texto, minha mãe gosta de contar que eu e meu irmão aprendemos a ler com 3 anos de idade. E vendo esse interesse desde pequenininhos, ela sempre estimulou com gibis da turma da mônica e do Pato Donald, que amávamos; Também eventualmente pegava livros infantis na revista da Avon, que era revendedora além de comprar enciclopédias e ter assinatura de revista como Recreio. Eu amava.

Era super ratinha da biblioteca da escola e também da cidade. Na escola, fiz amizade com a bibliotecária de e ela me indicava leituras. Tenho livros favoritos ainda dessa época, como David Copperfield e, suspeito, que foi bem aí que desenvolvi meu gosto pelo gênero bildungsroman. Já a antiga biblioteca daqui (da cidade que ainda moro) era um dos meus lugares favoritos da adolescência. Correr pra lá com meus amigos de escola e ficar perambulando entre os corredores, com cheiro de livro velho e com aquelas janelas imensas, mas que ainda fazia entrar uma luz enviesada, me dava um sentimento de tardes infinitas que nunca mais recuperarei.

Também tive uma adolescência inundada de revistas que minha madrinha nos dava. Super Interessante, História, Mundo Estranho, eu amava tanto.


Algumas professoras do meu irmão sabia do nosso gosto por leitura e, vez em quando também nos emprestava alguns. Lembro que foi aí que tive acesso a Paulo Coelho.

Meu irmão também chegou a imprimir livros na impressora do estágio pra ler em casa e pegar livros na faculdade pra mim.


As vezes eu ia pra cybercafés só pra baixar inúmeros pdfs, encher pendrives de livros e organizar pastas por gêneros ou passava horas lendo no computador sem internet e na rua pelo celular.


A possibilidade de adentrar vários espaços inacessíveis, conhecer várias pessoas e viajar sem sair do lugar, muitas vezes varando a madrugada a luz de lanterna ou levando o kindle pra ultrapassar fronteiras e desafios comigo pra me sustentar nos momentos mais difíceis, não tem preço. A leitura me salvou, salva e, espero, sempre salvar.


Sigo me organizando lá pelo Goodreads


Filmes


Assim como o cinema.
Em momentos de maior tempo livre, eu basicamente assistia um filme por dia. Com muita saudade dessa época. Apesar de amar leitura, sempre achei que nunca consegui chegar tão perto de viajar sem sair do lugar como quando assistia filmes. Atribuo isso, talvez, ao fator de ter um grau de afantasia meio alto que não me deixa visualizar claramente imagens na mente e sinto que adaptações da literatura é o complemento perfeito para conseguir o mais próximo de enxergar mentalmente.


Meu pai amava filmes. Na infância, eu só ia dormir quando ele ia dormir e me carregava pra cama. Filmes de kung fu, quebradeira e faroeste eram os seus favoritos e, ainda que meu gosto não tenha seguido por esse caminho, foi o meu grande começo. Ele se encantava sobre como os filmes eram feitos e consumia muitos DVDs piratas e passava os dias assistindo além de falar com carinho de frequentar os cinemas de rua que existiam em Caruaru.

Na adolescência, só com acesso a televisão de sinal aberto, o meu ponto alto do ano era a divulgação de grade de filmes do ano da Globo, assim como amava to-dos os programas de filmes, da Sessão da Tarde ao Corujão. Varei muita madrugada ligando pro 0800 do Intercine pra votar em qual seria o filme do dia seguinte.

Era frequentadora semanal da locadora, gravei muito filme em VHS da tv, frequentei muito cinema de rua - não muito adepta dos cinemas de shopping, apesar de amar o ambiente - e muito adepta de acompanhar premiações.

Hoje em dia continuo amando, mas conciliar obrigações de vida adulta com o gosto por cinema tem sido complicado. Não mais um por dia, mas sinto encaixando alguma viagem cinematográfica no meio da semana.



Sou apaixonada em organizar listas e vistos lá pelo Letterboxd


Manualidades têxteis

Uma forma de otimizar o tempo e fazer duas coisas ao mesmo tempo é fazer um crochê ou bordado enquanto assisto algo fácil de entender. Aí, confesso que me jogo mais nas séries que em filmes, que não me perco no contexto caso eu precise tirar os olhos da tela de tempos em tempos.


É sintomático que hoje em dia pra conseguir manter tantas coisas eu acabe fazendo várias ao mesmo tempo e reclamando depois que a mente está cheia e exausta, mas, sendo sincera, acho a conciliação dessas duas coisas ainda gostosa de fazer.

Quando criança, aprendi com familiares pontos básicos e preferia até o tricô, mas era péssima (me faltava acesso) pra conseguir construir peças de cabeça. Com minha prima, desenvolvi mais o crochê, porque ela aprendia em outro lugar e me ensinava. Acabei retomando recentemente, agora com acesso (beijos, internet), seguindo tutoriais e me desafiando a começar e terminar peças, a presentear pessoas, a fazer peças de roupa pra mim. E amo cada uma delas e tenho uma lista de coisas mais que ainda quero fazer e aprender.


E com o bordado, o que seria mais se não uma extensão da pintura? Já na faculdade de design, vendo as mil possibilidades de aplicação, comecei a fazer meus primeiros testes. Durante a pandemia foi quando mergulhei e expandi possibilidades com pedrarias, pontos diferentes, texturas diferentes. Sempre gostei, na pintura, de testar materiais diversos e vi uma grande porta pra isso no bordado, podendo juntar os meus desenhos, o meu universo, também nos tecidos.

O que também requer tempo e, apesar de amar todos os meus hobbies - esses que se mantiveram, e também os novos, eu preciso escolher minhas lutas. 

Esses foram alguns dos resultados de muitos, diversos bordados que fiz, aplicando ilustrações no tecido durante o desafio de outubro chamando Stitchtober:

Bordado feito para o desafio mensal Stitchtober, baseado na obra literária "Serpentário".

Bordado feito para o desafio mensal Stitchtober, com elementos tipográficos baseado em O senhor dos Aneis.

Bordado feito para o desafio mensal Stitchtober, baseado na obra literária "As águas-vivas não sabem de si".

E algumas das minhas peças de crochê favoritas:







Desenho e pintura


Eu desenho desde criança. Uma das minhas coisas favoritas de desenhar eram croquis de roupas impraticáveis. Minha vó dizia que eu seria estilista. Mas entre roupa e gente, eu gostava mais de desenhar gente, retratos, em especial.

Retrato digital, Billie Eilish, 2021.

Retrato digital, Donna Missal, 2021.


A minha escolha por meu curso superior, quando eu achava que queria publicidade por gostar de fotografia, foi por "saber desenhar", como todo mundo dizia que eu sabia e me incentivava a escolher o design. Que, pra minha surpresa e decepção, não precisava saber desenhar pra fazer design. Mas curiosamente me abriu a mente pra interdisciplinaridade da área. Design é um mundo, é tudo, é lindo. O mercado é uma bosta, mas teoricamente, design é lindo. Achava isso enquanto cursava, ainda acho agora.

Foi na faculdade que entendi que não sabia desenhar coisa nenhuma. Também lá que aprendi a pintar, do basiquinho, lápis de cor, pro digital. Foi por lá que passei a ver o porquê nunca tive um hobby de cada vez, porque eles sempre conversaram entre si.

A leitura me ensinou a imaginar histórias que mais tarde desenhei. Os filmes me ensinaram luz, enquadramento e narrativa. O desenho encontrou o bordado. O bordado encontrou a curiosidade pelo têxtil. O crochê me ensinou a paciência e persistência de fazer e refazer.
Cada interesse puxou o próximo como quem segura a mão de alguém num corredor escuro.

Talvez seja por isso que eu nunca consiga responder quando perguntam qual é o meu hobby favorito. Eles não competem entre si. São maneiras diferentes de alimentar a mesma curiosidade que me acompanha desde criança. E, sinceramente, espero sempre me deixar correr por ramificações novas e nunca deixar de encontrar um novo caminho dentro desse labirinto.

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sábado, 11 de julho de 2026

Ele voltou

 Um fantasma está sentado no canto da sala. Não posso vê-lo, mas posso senti-lo se aproximar. Não que eu não goste da presença dele, mas há um incômodo com a sua presença. Sinto que estou sendo observada, que preciso dar atenção a ele. Na sua proximidade, eu sinto o gelo me invadir. Uma mistura de saudades, tristeza, apreensão. Tudo melhora quando ele vai embora. Mas ano que vem ele volta.

Esse fantasma é o meu aniversário. 

Acho que já escrevi algumas muitas vezes sobre como eu sou assolada por um mix de emoções com a data. A primeira vez que senti ser invadida por uma tristeza imensa, foi quando meu pai sofreu um AVC e trouxe um medo que até então eu não conhecia, o de comemorar uma data com fatos tristes no entorno. 

Bom, agora esse será o primeiro aniversário sem ele. 14 anos depois do episódio do AVC, 3 meses depois da morte. Pensei que pra quebrar o ciclo de tristeza, eu poderia retomar a data pra mim e comemorá-la com pessoas que gosto numa festinha caseira. Pensei, pensei e desisti. Tudo ainda parece muito intenso e eu ainda me sinto cheia de sentimentos dos quais não tenho o controle. Nada impede que amanhã eu queira chorar o dia inteiro, como geralmente acontece. 

Talvez eu dê peso demais a uma data. Ou talvez ela tenha aprendido a carregar peso demais. Tento repetir para mim mesma que é só um aniversário. Vai passar. Vai passar.

Enquanto isso, sigo enchendo minha cabeça com tudo o que posso e por muitas vezes me sentido cheia demais a ponto de achar que não vou dar conta das coisas que escolhi fazer. Vou tentar relaxar a cabeça e organizar por onde meus interesses intensos tão me levando.

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

[tag] 10 curiosidades sobre mim

Esse post faz parte da seleção mensal da comunidade de blogagem coletiva ENTREBLOGS criada com o intuito de compartilhar nossas perspectivas sobre os mesmos assuntos. Esse é o de junho.

  1. Essa eu sempre falo: eu nasci com 6kg e com a alcunha de "baleinha" na maternidade. A primeira gordofobiazinha a gente nunca esquece. 🥰 
  2. Eu sou muito medrosa. Tenho medo de absolutamente tudo. Tudo é um grande ‘se’ para um desastre e, de certo, o universo me usará de exemplo. Já melhorei bastante nos últimos anos, mas meu processo de superação do medo é muito lento. 
  3. Pra contrabalancear, eu sou muito calma. Num nível de presenciar um começo de incêndio, ouvir um barulho de tiro próximo, uma pessoa passando mal, e agir antes de travar. Paradoxalmente. Todas essas coisas já aconteceram. 
  4. Amo fantasmas. Digo, a simbologia do fantasma, a representação fofa-triste dele. Talvez por me identificar um tanto com a presença melancólica meio invisível que é característica.
  5. Pra mim, não tem dia mais lindo que um céu nublado, uma chuvinha fina, ficar em casa de pijama, com tempo e liberdade de petiscar coisinhas e deitar quando quiser dar uma descansada.
  6. Amo filmes que casais não ficam juntos no final. Titanic, que assisti aos 9 anos no cinema foi o precursor desse gosto. 
  7. Minha mãe diz que eu aprendi a ler com 3 anos e, desde então, ela sempre incentivou muito leitura em casa. Tanto eu, quanto meu irmão, somos adeptos do hábito.
  8. Eu tenho uma memória de peixinho. Essa lista mesmo, eu comecei mês passado e sempre esquecia de continuar quando trocava de aba, rs. Mal também de querer fazer 500 coisas ao mesmo tempo.
  9. Eu sempre achei que fosse uma desistente fácil, mas ultimamente (desde a pandemia) eu tenho me provado que não. Tenho tido um senso de urgência e me recusado a desistir quando as coisas dão errado. Tirando, obviamente, toda a parte ruim da pandemia, não considero que foi uma fase totalmente ruim e sinto até saudades.
  10. Eu costumo dizer que odeio filmes de guerra e/ou que se passam no espaço. Mais de uma vez eu mordi minha língua dando 5 estrelas em filmes dessa categoria (o último foi Project Hail Mary).


UFA, venci? Demorei tanto pra terminar essa lista que pensei que nem me conhecia mais, hahah.






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quinta-feira, 11 de junho de 2026

[Tag Entreblogs] Por trás do blog

Essa é a minha primeira postagem usando uma tag do Entreblogs, e escolhi essa que é a primeira sugerida ♡

Quem é você fora do blog?

Nossa, como demorei pra responder essa pergunta. Sempre que começava a digitar, algo acontecia, minha mente dispersava e adeus foco. O que já responde muito sobre mim.
Mas respondendo, fora do blog, tenho 36 anos, eu sou filha e neta cuidadora, provedora de um triplex onde moram - além de mim, minha mãe e vó - 13 gatos e um cachorro. 

Sou designer por formação e isso, de certo, alimentou minha alma criativa, gambiarreira e testadora. Por que limitar meus interesses pra um tipo de material, técnica, atividade só se posso usar todos eles, ou melhor, misturar todos, não é mesmo? E nisso eu gosto de explorar manualidades diversas quando o tempo é bondoso. 

Trabalho no mercado publicitário como designer gráfico e devo confessar que não é uma das minhas coisas favoritas da vida. 

O que eu gosto é de calmaria, silêncio, frio, poucas companhias, snacks e meus bichos. 
No mundo real, eu falo muito menos do que escrevo e minha desenvoltura de fala é péssima.

Me chama de artista, volta e meia e, pessoalmente, eu reluto a assumir o título, mas lá no fundo eu fico toda fofa e orgulhosa das coisas que eu posso fazer com minhas mãos. Algumas dessas coisas virão pro blog, outras, seguirão só fora dele mesmo.

Qual é a história por trás do seu blog?

Eu tenho blogs na internet desde a adolescência e sempre foi um meio que me deixou feliz. Migrei de plataforma em plataforma buscando o sentimento de coração preenchido e, assim, acabei voltando pro blogger, plataforma que usei lá atrás quando me meti com HTML antes mesmo de saber que estudaria design.

Eu sigo achando que a prática de desabafo por escrita foi o que me sustentou na vida. Que me salvou nas piores fases - inclusive quando tive um outro blog chamado Backdrop of Blue numa fase onde eu fazia as pazes com a melancolia.

Antes daqui, eu mantive duas plataformas: Tumblr, para depósitos artísticos e um Bearblog pra os textos-vida e acabei sentindo a necessidade de não separar mais essas duas partes, já que constatei que se retroalimentavam. Trouxe novamente pro Blogger o que senti fazer parte da fase que estou agora e recomecei, agora, com as duas partes unidas, ainda em construção. E coloquei elementos de nostalgia, como estrelinhas no cursor. Foi como voltar pra casa.

Como funciona seu processo criativo e escrita? Você tem algum ambiente criativo? (rotina com o blog, por exemplo)

Caótica. Não tem outra palavra.
Eu até tento me organizar com jardins digitais e listas e mais listas, mas ainda sinto que minha organização é uma procrastinação do processo. No geral, meu jeito de criar, seja texto, seja arte, é ir jogando tudo no caldeirão, ir mexendo e tomar a poção quando tiver bem quente. Desculpem, sou adepta de metáforas até demais. Mas quis dizer que, em algum momento, uma ideia vai se fixar loucamente na minha cabeça e eu nunca terei paz enquanto não realizá-la.

Não é um processo que recomendo. Instável demais.

Um fato aleatório que você considera intrigante. (literalmente, qualquer coisa)

Abelhas que procuram flores pra descansar, dormem de 5h a 8h por dia com o bumbum pra cima e as anteninhas arreadas. Sério. 

Indique um ou mais blogs e compartilhe o que mais gosta neles.

https://www.arantchans.com - Conheci a partir do Listography e acho absurda de inspiradora;
https://trilux.org - Augusto sempre trazendo boas reflexões;
https://alinevalek.com.br - O tempo é pouco pra o tanto de coisa dessa mulher que queria consumir;
https://melinasouza.com - Acompanho há muito, muito tempo e sempre me causa uma nostalgia boa;
https://agapysjournal.substack.com - Sempre boas, ótimas leituras
https://meusdiscosmeusdrinks.substack.com - Apesar de não beber mais, amo os textos do Bruno Capelas.
https://fluxocriativo.substack.com/ - Jupiter sempre com referências inspiradoras

E segue mais alguns lá no Blogroll. ♡

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sábado, 6 de junho de 2026

Paisagens que construí sem perceber

CW: excesso de metáforas.

Há algumas semanas eu venho tendo um incômodo sobre o excesso de consumo e conteúdo. Nos últimos anos, como recorro a comentar, passei muito tempo presa apenas na absorção de conteúdos e na vontade de fazê-los devido a recorrências hospitalares e cuidados aos meus. Agora que me encontro com mais tempo considerável disponível, quero atirar para todos os lados, realizar tudo, mas ainda me encontro insegura na realização e presa no consumo.

Não que eu ache que consumir conteúdo seja ruim, longe disso. Eu amo consumir bons conteúdos e vê-los crescer em mim como referências. Amo ver gente compartilhando um pouco de si, de forma autêntica. Amo a troca de bagagens de vida. No entanto, o desafio de se propor a realizá-los, apesar de gostoso, é um desafio. Requer tempo, disposição, dinheiro e coragem de errar. Consumir sempre será mais fácil.

Daí nessa movimentação de se colocar na ativa, tenho ficado imersa na colagem de papeis em cadernos velhos diversos, entrei num clube de livro presencial, rediagramei e atualizei este blog, tenho organizado melhor meu listography com coisas que tavam enevoando a minha cabeça e sem um destino de organização certo. Também organizei minhas listas do letterboxd por cores e tenho atualizado coisas relativas à abertura da minha lojinha. Preciso ainda atualizar meu Notion que, modéstia à parte, já acho belíssimo.

E aí me deparei esses dias, no equilíbrio de consumo de conteúdo alheio, com esse texto que fala sobre a construção de Jardins Digitais e minha cabeça deu várias pequenas explosões ao perceber que nessa divisão citada entre sementes, árvores e frutos, eu já venho catalogando sementes e plantando-as há muito, muito tempo sem perceber ou sem pretensão de construção de um jardim ou da ordem que deve ser.

https://agapysjournal.substack.com/p/consumir-como-artista-construindo

Pensei ser só uma viciada em organização digital e esse sentimento veio muito à tona quando conheci o Notion. Organizá-lo, concentrando minhas referências num canto só, foi extremamente satisfatório. Ali, eu já estava na construção do meu jardim sem perceber. Quando resolvi organizar minha estante de livros por cores, percebi que não era só uma questão digital e o sentimento se consolidou no processo de organizar pedaços de papel no junk journal e colá-los por tipos de cores, de texturas, de formatos. 
Pra todas as vezes que desejei uma penseira, eu fui lá e construí uma. Ou várias. Me identifiquei como uma curadora cromática e entendi que todas as minhas coletas não eram desvios de atenção ou procrastinação, como tantas vezes julguei, mas parte da minha identidade o tempo todo.

E fiquei pensando sobre o que envolve ser um curador. 
Minha cabeça fez muito trocadilho entre "curar arte me cura" e "cura.dor". Bregas? sim, mas eu gosto porque fazem sentido pra mim, ☺e imagino que o processo de ser curador de referências seja inerente a manter atividades criativas. Afinal, o que seria da nossa bagagem sem as coletas de sensações e olhares, leituras e consumos, sabores e sentimentos? Pegar fragmentos diversos, interligá-los, achar conexões que façam sentido.
Passar a vê-las como sementes é que passou a ser especial, porque percebo que criei pontes de sensações ao longo de muitos anos que, olhando agora do alto, fazem sentido na construção de uma identidade que é minha. Eu organizo pra compreender, eu compreendo um sistema pra me organizar.
É, de fato, mais que um jardim, como é citado no texto, mas um ecossistema.

E é realmente um desafio expandir além da coleta e catalogação de sementes. Em um universo digital, faço um movimento de pinça e vejo a semente plantada, vejo as raízes e dou um zoom out, vejo tronco, vejo galhos, vejo folhas, zoom out e vejo um jardim, zoom out, flores e frutos, zoom out, uma floresta, zoom out...

O blog alimenta o Letterboxd.
O Letterboxd alimenta as colagens.
As colagens alimentam as ideias.
As ideias alimentam os desenhos.
Os desenhos alimenta o blog.
O Notion registra tudo.

E, no meio disso, eu vou mudando.
As plantas também.

Mas o jardim continua sendo reconhecivelmente meu.

Por isso que ao pensar no cuidado do meu jardim, eu me sinta tão incomodada sobre envios aleatórios de links e reels que nada tem a contribuir com meu espaço. Nem toda semente precisa entrar no meu jardim, prefiro eu mesma fazer a curadoria do conteúdo que me acrescenta.

Por ora, abrir a janela e olhar a paisagem que eu criei tem sido o que tenho feito de melhor.

Meu canteiro no Letterboxd;
Lá no Pinterest;
O do Cosmos (contém +18).



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quinta-feira, 21 de maio de 2026
Esse é um texto que ensaio há tempos escrever e provavelmente faltará palavras pra escrevê-lo como quero. A cabeça ainda segue enevoada e, bem, esse é pra falar sobre a tentativa de desenevoar. É sobre processo criativo e pausas mentais, sobre sair de telas, se voltar para o analógico, sobre explorar quereres, sobre abrir brechas pra outros interesses e abraçar pequenas coisas e imperfeições, sobre espalhar, ver, rever e produzir beleza ao redor, sobre tentar se sentir bem em meio ao caos, sobre romantizar sua vida.

Romantize sua vida como uma artista

Romantizar é um termo muito atribuído a coisas que se considera ruins, com alerta do perigo de relativizá-las possa causar um grande prejuízo. Isso porque o romântico, em uso comum, é usado para a preferência pela fantasia, pela emoção, pela imaginação, em detrimento da racionalidade. O deixar se encantar pela parte boa da coisa toda e se iludir de que é possível viver dentro de uma nuvem cor de rosa usando um arco-íris de ponte.

Mas amigues, pra vida prestar, é preciso uma grande dose de romance e todas as atribuições que vem com a prática.

Não sei como meus amigos racionais vivem com a vida difícil do jeito que é, mas eu que vejo as coisas de uma perspectiva dramática, eu preciso da distração, da fantasia, do entretenimento como item básico de sobrevivência.

Acho que uma das grandes lutas da minha vida é tentar conseguir o equilíbrio entre razão e emoção. Tenho muita dificuldade em lembrar de todos os compromissos que eu tenho no dia, na semana, no mês, no ano se eu não anotá-los ou fugir deles porque toda burocracia me assombra; Quando preciso ser física e mentalmente presente em alguma situação de conflito, sou drenada de toda reserva de energia que habita o meu corpo e a forma de repor essa energia é me voltar pro máximo de alienação que eu consiga ter naquele instante. Nem que seja olhar pro vazio por 5 minutinhos imaginando um ambiente, situação, companhia totalmente diferentes daqueles que me encontro no momento.

As últimas semanas (digo, os últimos anos, se for analisar direitinho) me forçaram a estar mais presentes numa realidade densa, cheia de problemas familiares e financeiros, doenças e morte. Me tirou o tino da minha capacidade de abstração da realidade. Que era excessiva, eu confesso, mas sair de um extremo pro outro, sem uma preparação do coração, não foi legal.

E me sinto dizendo um "venho por meio desta", em prol do bem-estar e equilíbrio mental dizer: Romantize sua vida, sim. Acenda aquela vela no seu banho, durante a sua leitura; bote um cheirinho bom enquanto você arruma casa; compre flores e enfeite sua mesa, sua estante, sua janela; Sinta o vento ou sol bater na cara, o cheiro da chuva; Faça um escalda-pés; Passe um óleo de banho, um hidratante cheiroso; Faça ou peça uma comida gostosa; Fale sem pressa com aquela pessoa que você gosta; Faça um caminho diferente; Convide um amigo pra sair; Dance e cante no banho (com cuidado pra não escorregar); Sinta as folhas secas se esmagando sob os seus pés; Pesquise um assunto que você gosta e se delicie com um conhecimento que só serve pra você; Assista as nuvens te apresentarem desenhos diferentes (ou os azulejos do banheiro); Comece um hobby novo.

Ou corte revistas, junte resto de embalagem e

Junk journal with me.
Esse é o típico hobby que vai vir alguém e perguntar: mas isso aí, hein, serve de que?


E a gente tenta não dizer que é pra comer cu de curioso, não, a gente responde que serve de nada além de esvaziar a mente, ocupar as mãos, preencher o coração, como qualquer outro hobby que, pra ser hobby, na minha concepção, tem que fazer bem primeiro a quem está a fazê-lo.

Mas o que é journal/journaling?
É a prática de usar um caderno ou espaço digital (como esse blog, aliás) para organizar ideias, seja por imagem ou escrita, com desenhos ou colagens, na categoria que quiser - Bullet journal (BuJo), junk journal, sketchbook, diário de viagem, álbum de fotos, grimório, scrapbook - ou tudo junto, o caderno é seu, se joga. Seja pra escrever diariamente, organizar sua vida em listas, organizar sua coleção de adesivos, colar cacarecos.

Eu, particularmente, tenho experiência com journals desde criança, que sempre fui estimulada pela minha mãe a escrever em pequenos diários e na adolescência quando migrei e comecei a explorar blogs, além da faculdade que me incentivou a manter sketchbooks diversos.

A minha obsessão atual, que ando precisando manter coisas que não me exijam um nível de pensamento profundo, tem sido explorar o junk journal.


Tem sido incrivelmente relaxante cortar papeis, achar padrões, criar padrões, organizando-os visualmente, ter ideias pra novas páginas, pensar em ideias de coisas mais elaboradas, querer ter mais contatos com técnicas analógicas, descobrir e experimentar novas coisas, mexer coisas com as mãos, relaxar o cérebro, voltar pros dias infantis de tempo dedicado a uma atividade prazerosa, fazer coisa bonita, ter dias bons e ver a vida por olhos mais apaziguadores.

Lendo sobre e vendo perfis de design, acabei absorvendo a ideia de que registrar junk é registrar memória gráfica. E eu sou designer gráfico, ô catapimbas (e das velhas). Registrar memória gráfica é uma das minhas tarefas de profissão. Seja numa página feita de colagens de marcas diversas recortadas de embalagens como testar uma nova composição com elementos diversos tirados de várias outras origens que puderam chegar às mãos.

Observar, cortar, compor, colar. Design e arte puros. Beleza em tudo. Romantização da vida.
Essa é a minha vibe atual e eu recomendo.
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terça-feira, 19 de maio de 2026

e eu não poderia me importar menos.




 As segundas-feiras na minha casa ficaram marcadas como o dia que recebemos uma péssima ligação, de quando tudo acabou e recomeçou. Desde então tudo mudou e nada mudou, o que é muito estranho. Não conseguimos desapegar da estranheza da nova realidade. É um vazio que ocupa um espaço imenso e não sabemos explicar a presença do nada.

Volta e meia me volta um texto da Superinteressante que li há uns 10 anos sobre como o nada, o vazio tem um peso imenso e todo o universo é feito de nada. Lembro que li fascinada, dessas coisas que agarram em você e lhe formam como pessoa.

Mas não era um texto sobre luto, era sobre o funcionamento do universo.

Num caminho pra casa, a minha playlist tocou Before we drift away (NBT) e fiquei remoendo a letra com a exata sensação de saber sobre o que a música fala, de tomá-la pra mim:

I wonder where I float to when I return to dust?
A sea to wash away the last of us
It's such a funny feeling, the world's at war again
But in this very moment
Oh, it couldn't matter less

A sensação de "O mundo estar em guerra novamente e eu não poderia me importar menos" batendo fortemente.

Tenho dívidas e eu não poderia me importar menos.

É ano de copa do mundo e eu não poderia me importar menos.

Eleições presidenciais e eu não poderia me importar menos.

Qualquer pessoa e qualquer que seja sua pauta e eu não poderia me importar menos.

Alguém não gostar de mim pelo motivo que seja e eu não poderia me importar menos.

O mundo estar em guerra e acabando e eu não poderia me importar menos.

Perdão, mas isso tá na conta do luto.

And as we sing this familiar song, I thought I'm gonna miss your love when it's gone...


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terça-feira, 12 de maio de 2026

Eu sou uma fraude

É a sensação constante da vida nas últimas semanas.
Me sentindo incapaz pra todas as coisas que as pessoas acham que eu poderia fazer.

O último ano de idas mais frequentes a hospitais me mostrou que sou capaz de uma memorização e organização que não achava serem possíveis. Especialmente nessa última estadia, todos os dias eu era capaz de armazenar e processar informações, no que chamávamos de boletins, de uma forma que as pessoas destacavam demais, que os médicos me diziam que eu parecia e deveria seguir a área da saúde. Mexeu, sinto, um tanto com o ego. Vai ver aquele ego famoso do artista que precisa ser elogiado e etc e, dentre tristezas e incapacidade de normalidade, às vezes, o meu dia era feito de elogios à minha organização comunicacional.


Agora acabou, né? Volto pra minha vida onde esse lado útil de armazenamento de informações não serve de mais nada. 

E aí preciso voltar a reorganizar a vida, a voltar a fazer minhas coisas, a pensar no meu futuro como sempre reclamei que estava incapacitada. 
E aí travo. 
Não sei quando tem que ser ser o start de normalidade pós-luto, por quanto tempo posso me permitir seguir como se tivesse fora da vida palpável que aperta, cobra e passa tão rápido que nem se sente.

Eu deveria abrir minha loja, realizar os pedidos acumulados, criar ideias de produtos únicos, tirar minha CNH, reformar uma parte da casa, reorganizar as coisas acumuladas, tocar minha vida como uma adulta funcional, marcar aquela saída, usar os vouchers de cinema antes que vençam, mas só quero ficar na minha cama assistindo série repetida, lendo romance questionável e picotando e colando papel.

Não sei mais desenhar, formular uma frase inteligente, pensar em algo minimamente inovador. Voltei a minha fase fraude onde reclamar não cabe mais e também não sei agir. Talvez seja só a presença do luto ou da depressão à espreita, colando um adesivo no meu peito: FRAUDE, FRAUDE, FRAUDE.


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terça-feira, 5 de maio de 2026

do lado de dentro do adeus

CW: luto, morte, doença, tristeza.



E já se vão duas semanas que, ali perto de meio dia eu recebi a notícia de que meu pai tinha morrido.

Eu receei muito pelo momento da notícia, mas a minha reação de quando fui avisada que precisava ir urgente ao hospital foi de que, a partir dali, não tinha mais urgência, então terminei de comer o meu almoço de shopping sem afobação, chamei o uber, enfrentei a chuva que tinha evitado um pouco antes e fui pra casa. A palavra "acabou" ganhou um tom diferente pra mim desde esse dia.

Eu não sei explicar como me sinto depois. É como se não conseguisse unir "meu pai morreu" com a realidade do que aconteceu. No peso de um pai. Ainda não consigo. Ainda não entendo.

Minha convivência com meu pai nos últimos anos ganhou camadas de turbulência. Eu tive dificuldades imensas de entender que ele tava mudando, que tava se tornando outra pessoa enquanto se tornava idoso, que poderia ter condições mentais/emocionais que nunca chegaremos a descobrir e que isso mudou toda a nossa relação. Eu, que era apaixonada por ele quando criança, que assistia todos os filmes de luta e faroeste e me recusava a dormir enquanto ele não fosse e, quando dormia ainda assim, ele me levava nos braços pra cama, não entendia como aquela pessoa nos últimos anos não existia mais.
Aquele que nunca me castigava e, na única vez que me deu um tapa por perder a paciência por uma birra minha, me deixou tão chocada que eu tive uma crise de choro tão dolorida que o deixei cheio de remorso e minha mãe me consolou no meu desespero. Uma das minhas crises de choro de dor real que lembro até hoje. Aquela pessoa que, em uma outra crise nervosa, mas já no primeiro ano de faculdade, me abraçou e deixou eu chorar molhando todo o peito dele. Que temia que tentava me ajudar na minha ansiedade social querendo me acompanhar na primeira entrevista de emprego e que, quando fui recenseadora do IBGE e me jogaram em lugares inóspitos, temeu pela minha segurança e fez comigo todo o percurso do Censo. E pelos 8 anos longos e ansiosos de faculdade, me buscava e me esperava pra ir pra casa todos os dias. A essa altura, uma distância já existia e caminhávamos pra casa em silêncio. Mas ali, algumas muitas vezes de braços dados, caminhando em passadas iguais. 

Então quem era aquela pessoa que nos últimos anos de curativos infinitos e internações, se portava com uma teimosia irresponsável, aparentemente lúcida, que nos tirava de tino? Que ignorava todos os nossos conselhos? Que nos desgastava emocionalmente com um silêncio perturbador? Que apertou meu braço com um ódio, aqui já em desorientação, na internação do hospital, me levando novamente a um estado de choque e desespero que foi difícil de controlar? Quando o vi delirar, senti a solidão se expandir e nos dois meses seguintes que mal falava comigo, me fez sofrer de abandono. Provavelmente, ele também se sentia abandonado, pelas vezes que pedia socorro e pedia ajuda, que pedia pra ir pra casa, que pedia pra ir pra casa da mãe. Uma ajuda que eu não podia mais dar, não era alcançável a mim.

No dia que precisei voltar a trabalhar quando ele tava no hospital e o deixei com outra pessoa, havia uma perspectiva de alta. Ele ficou rancoroso, se recusou a tomar banho, a se virar, respondia mal a todo mundo... e piorou. Pro espanto de todo mundo, ele não parecia feliz, pelo contrário. Broncoaspirou no dia seguinte e rebaixou. Rebaixou muito. Só dormia e, quando acordava, ficou ainda mais em silêncio, se é que era possível.

Eu não queria assumir pra mim que a nova rotina de sair do hospital durante o dia era cansativa, mas libertadora. Queria não me entender egoísta, mas me sentia imensamente egoísta por não ter abandonado meu emprego, por não ter deixado tudo pra estar lá e não conseguir mais acompanhar os boletins diários médicos porque não estava presente como antes. Também me sentia egoísta pelas coisas que levava pra lá pra me distrair. Como eu podia me distrair, querer me sentir minimamente bem estando naquele ambiente? Naquela situação? Eu ouvia que eu tinha de cuidar de mim o tempo todo e eu sabia disso, eu também acreditava nisso, mas o sentimento de que nada daquilo deveria ser sobre mim, que deveria ser sobre cuidado e abnegação era muito mais forte.

Mas eu voltava não querendo mais estar ali, mesmo sem ver perspectiva de melhora. Eram contas que não se encaixavam. Eu, sinto dizer, queria mais uma rotina de normalidade a todo custo, ansiava por um pouco de normalidade. Precisava voltar a ser eu, a ter minha vida, minhas próprias tristezas e dores. E temia que ele viesse a falecer na minha presença. As vezes que quebrei e chorei muito passaram muito perto de uma morte e sempre que eu saía de manhã e ele tava razoavelmente estável, pensava, "não foi comigo" e sentia um alívio.

Não era sobre mim, mas eu não queria mais estar presente.

Aí ele foi pra sala vermelha. Nesse dia, passei a tarde ansiosa pela ligação médica, mas no trabalho e fingindo normalidade. Nem eu entendia a minha calma, mas suspeito que por um alívio de não ser a pessoa que estava com ele quando ele piorou sendo levado na urgência.
No dia que o visitei sozinha na sala vermelha, eu tava tranquila, mais tranquila do que nas vezes que o visitei na UTI com esperanças de uma melhora real. Na sala vermelha, eu já sabia que não existia mais essa possibilidade, como o médico me disse. Ele já estava em tanto sofrimento, que toda possibilidade de reversão de quadro só causaria mais sofrimento.

Eu não aguentava mais aquele ambiente. Ele, tampouco.
 
No dia seguinte, o visitei com a minha mãe e ele já tava com um aspecto horrível, naquele lugar horrível. Não tem como alguém melhorar num lugar daquele. No meu coração, eu me despedi ali. Eu abri um dos olhos dele, o outro tava muito inchado, ele olhou pra mim, pra minha mãe e foi a última vez que eu vi o olho dele aberto. Quando era criança eu achava a cor do olho dele a coisa mais linda do mundo. Ver aquela janela sendo aberta por mim, porque nem tinha mais forças por si, me quebrou. Eu tinha medo de voltar nos dias seguintes e ver o corpo dele se deteriorar mais e mais.

Meu irmão tava pra chegar no dia seguinte e chegou em cima da hora de ir visitá-lo. Ali, no meu coração eu sabia que, se ele não tivesse ido, eu não teria mais forças e pelo visto ele só tava esperando meu irmão chegar. Ele arranjou força, abriu os olhos, tentou falar algo, olhou pra eles até eles saírem. Minha mãe conta que se arrepende muito de não ter voltado. Mas eu acho que foi o jeito dele se despedir. Eu tive muitas vezes, de fevereiro a abril, pra vê-lo, pra ele me retornar o olhar. A despedida dele da minha mãe e do meu irmão foi por olhar também.

Eu nunca tinha passado pelo ritual de morte familiar. Todas as vezes, eu fugi. Até que fui no enterro da mãe de uma amiga e, sinto, aquele dia mudou minha concepção de morte, cuidado, relação familiar e maturidade pra sempre. Essa mesma amiga segurou minha mão todo o percurso do velório ao enterro do meu pai e me abraçou o tempo todo num gesto que eu nunca poderei esquecer nem agradecer o suficiente.



Os dias seguintes vem sido de uma névoa, um alívio pela volta da normalidade, mas à espera de quanto tudo vai voltar a ficar muito ruim novamente. Ainda não sei o que fazer, ao certo, com meu novo tempo adquirido e tenho jogado todos os meus comportamentos esquisitos, minha impaciência, minha fuga de burocracias e responsabilidades na conta do luto. As pessoas me perguntam como eu tô, mas não sei responder. Elas me falam que é fase, que vai passar, que vai virar saudade, mas já virou. Me falam sobre as fases do luto, mas não vejo alívio como uma delas. O que me confunde porque,  nesses 36 anos, eu tive um excelente pai presente com ótimas memórias e sentir alívio não me parece coerente com o que deveria sentir. 

As vezes, vem crises de choro, de um sentimento que não sei explicar, que é novo pra mim e não sei dar nome. Vai ver seja luto mesmo, como é, eu só nunca senti antes pra saber, na prática que é assim.






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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

sobre leituras e a vida

 Originalmente escrito na madrugada insone e barulhenta de 08, fev de 2026

Num carnaval passado, primeiro ano de pandemia onde tudo era  esquisito, estava lendo "As águas-vivas não sabem de si" (Aline Valek) enquanto esperava meu pai ser atendido nos primeiros curativos diabéticos dele e um trecho do livro, sobre as águas-vivas se moverem como um corpo só e conta a história de uma delas, errante, que se separa do seu "corpo" comum e passa a ter vislumbres de independência e autonomia antes de morrer, me pegou bastante:

"Agora havia ela e o mundo, a separação entre duas coisas que talvez sempre tivessem sido distintas. Como não havia reparado naquilo antes? Fazer parte de uma coisa só a havia insensibilizado para a possibilidade de que fosse una, completa por si só, e que cada ser que flutuava ao seu redor também fosse protagonista da própria história - e veio a sensação de ter uma história só dela, uma emoção inédita e um tanto incompreensível para uma água-viva. (...) Descobriu com alguma infelicidade que ser um indivíduo era também ser pequeno e sentir medo o tempo inteiro. (...)
Um observador que visse aquela água-viva aos farrapos rolando pelas ondas já consideraria grandioso ela ter chegado até ali sem ter chamado a atenção de nenhum peixe (...) mas não julgaria que ela estava disposta a viver como nunca antes. Tinha-se percebido livre, tomada pela recém-adquirida consciência de si mesma, e que arrebatadora era essa sensação, mas também sentia a necessidade de descobrir mais, de sentir o mundo mais tempo por aquela perspectiva. De repente muito mais corajosa, ela moveu seus cílios o melhor que conseguiu para se manter longe de um paredão de corais que bem poderia colocar fim em sua viagem. Escolheu não parar ali. Queria ir além.
Mas, não, quem decidia era a água (...)"

Já sentia naquela altura que aquela prisão onde me encontrava, com meu pai começando a Odisseia de feridas diabéticas, tinha similaridades com a falta de autonomia da água-viva. Era de sua natureza. Parece ser da minha natureza.

Agora em 2026, novamente em prévias de carnaval, tava lendo A empregada (da Freida McFaden) e a parte que bateu na sensibilidade foi a violência psicológica que acontece com as personagens principais que são obrigadas a ficarem presas em um quarto e, na promessa de sair, escutam repetidamente a frase "você vai sair... mas não agora" e sinto a vida me colocando nesse mesmíssimo lugar aprisionado. Quando tudo parece que tem um jeito, uma brecha, um vislumbre de regularidade, volto ao quarto, peço misericordiamente para sair e a vida responde: "você vai sair... mas não agora".

No primeiro ainda consegui traçar um paralelo bonito. É um livro que sinto ter me marcado para toda vida. O A empregada não, achei ruim, clichê, fraco e me entristece que esse é o paralelo literário que consigo fazer no momento.

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Uma peça teatral onde tudo é dor

Originalmente escrito na madrugada insone e barulhenta de 09, fev de 2026 

    Todos os dias eu acordo e nada é definido, se é ruim ou menos ruim, se é suficientemente bom ou minimamente estável. Nada. 

Sigo olhando em volta e achando que todo mundo finge tranquilidade e serenidade muito bem e eu sou a péssima atriz no tablado. A sensação é essa: a de uma grande atuação. Como todo mundo aprendeu a estar acostumado tão rápido? 

 Hoje chegaram dois pacientes na na pior ala do hospital - chamado carinhosamente assim pelas enfermeiras-, e os acompanhantes se entreolharam cansados e sussurraram: hoje vai ser uma noite difícil. A anterior não tinha sido melhor, ainda que situações gerais tenham rendido risos (não meus, pois péssima atriz que sou e abalada pós colapso emocional, não conseguia esboçar o mínimo sorriso que fosse). Rir de pessoas perturbadas por distúrbios mentais me parecia fora de tom demais vendo a minha própria situação. Fiquei sem conseguir respirar, o corpo tremia como hipotermia, fui levada para o corredor pra me recuperar. E eu nem era paciente da sala de observação neuro, eu só era acompanhante de um paciente desorientado e delirante que segurou meu pulso com força e me olhou com um ódio que nunca tinha visto dele. Tive um dejàvu de 2 anos atrás quando, pós AVC, minha vó me direcionou a mesma raiva contida no olhar e o mesmo descontrole. 
Enfim. 

Um dos pacientes que chegou foi um rapaz que precisou ser totalmente amarrado à cama. Totalmente. Várias ataduras nos pulsos, nos tornozelos, joelhos e cotovelos. Ele se debatia numa violência que afastava a maca do lugar. Os olhares em volta eram de absoluto terror e cansaço. De um jeito circense, outros pacientes e acompanhantes o olhavam como a um monstro. 

A outra paciente já chegou gritando e gritando e gritando. Enfermeiras tentavam descobrir onde doía, mas pelo visto, tudo doía. A dor parecia vir de dentro e saiam pela boca estremecendo todo o lugar. Ela gritou por mais de 24h ininterruptas. Contadinhas de relógio. 

O cenário era o que outrora deveria ter sido uma enfermaria pacífica, na medida do possível, pois ainda sendo uma sala de observação neurológica, concentrava as pessoas recém perturbadas por acidentes mentais diversos e estavam ali em triagem para que pudessem evoluir para enfermarias específicas. Agora, além dos 10 leitos fixos, mais 10 macas foram enfiadas em duplas no meio da ala e cadeiras plásticas de acompanhantes ficavam no meio dos micro corredores formados. Ninguém parava sentado por muito tempo. Nenhum acompanhante ali tinha mais que 2h dormidas. 

E a peça se desenvolvia assim: enfermeiras correndo e empurrando quem tivesse no meio pra atender demandas urgentes - e todas as demandas eram urgentes: engasgo, fraldas cheias, medicações, dores, alimentação, sondas, banhos, curativos, mais fraldas, mais medicações, mais sondas, mais banhos. Às vezes no bom humor, trocando gracinhas entre si, outras no puro estresse, o que o contexto permitia. Os dois personagens recém chegados performavam dor e insanidade, insanidade e dor. Ela gritava, ele se agitava em resposta. E os espectadores-acompanhantes viraram as cadeiras e assistiam ao espetáculo em total torpor de horror. E se levantam cronometrados a enfermeiras que passavam correndo e empurrando para atender a demandas urgentes... 

O pior dessa peça, é que o fim só acontece pra quem sai, mas ela continua, com novos atores e novos espectadores por tempos e tempos e tempos... Me surpreende que mais ninguém ali tenha se juntando a mim no colapso.
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Enquanto o vento não vem

 Na correria de vida eu fui capturada pela existência de uma aranha. Eu particularmente gosto das aranhas de jardim. Acho o 'X' do formato delas bem característico e, sabendo que inofensivas, sempre considero um convite para me aproximar e vê-las de perto.

Há uns meses, uma aranha habitou a minha estante de livros. Resolvi tirá-la com um galho quando me deparei com um estabilamento e o confundi com ninho de crias e imaginei que minha estante seria tomada por filhotinhos. A coloquei fora pra seguir sua natureza. Mas pelos dias que ela ficou ali, me fazia companhia. Ela tecia a teia dela, eu crochetava os meus fios.

Alguns meses depois, encontrei outra alojada no centro de uma imensa teia no jardim de casa e suspirei: ali, sim, era o lugar dela.

Todos os dias antes de sair de casa pro trabalho, eu dava uma passada pra olhá-la, perceber detalhes, aprender uma coisa nova.

E descobri que ela se chama Argiope argentata, ou aranha-de-prata; Que é comum e inofensiva aos humanos. Que ajuda no controle de pragas e mosquitos. Que é uma excelente artesã e constrói teias de padrão único. Que os estabilamentos — as “estrelinhas” que eu havia visto antes —, apesar de não terem uma confirmação científica definitiva, são tidos como enfeites da teia. É a aranha romantizando o próprio espaço.

E percebi filhotes. E li sobre como eles são levados pelo vento. E percebi o minúsculo macho. E li que ele costuma ser devorado pela fêmea. E a vi diferente no passar dos dias. E descobri que ela estava nos seus últimos dias de vida porque cumpriu com o seu propósito de procriação. E senti uma tristeza funda.

Sabendo que seus dias eram poucos, passei a observá-la com ainda mais atenção. Li que, no início do fim, ela não fica para ver seus filhos crescerem. Eles partem levados pelo vento, num fenômeno chamado ballooning. Que, nas semanas seguintes, seu corpo perde o viço, fica opaco e ressecado. Que a teia começa a apresentar falhas que ela já não refaz diariamente. Que as pernas se tornam menos firmes. E que, em algum dos próximos dias, ela partirá — talvez presa ao centro da teia onde passou toda a vida, ou de qualquer outra forma irrelevante.

Mas esse não é diretamente um texto sobre aranha, pra usar aquela frase odiosa e clichê da internet.

Um dia, ela também foi um dos filhotes que flutuaram no ballooning e chegou até aqui, onde construiu sua casa, suas crias e o seu fim. A tristeza nasce do paralelo que faço com a minha própria vida: perdi a oportunidade do meu ballooning e construí uma teia que ainda me prende ao centro. Na última vez em que a observei, ao notar partes de seu corpo ressecadas, senti a secura do meu próprio corpo.

Sinto luto pelas minhas partes mortas, pelas minhas partes não vividas.

Ainda que o mamífero se diferencie do aracnídeo em ciclos teoricamente distintos, na prática eu não fui a aranha que nasceu, procriou e morreu como lhe era fadado, mas a aranha que não foi levada pelo vento porque precisou ficar. Porque alguém precisava ficar — e calhou de ser eu, a aranha artesã da vez.

Minhas partes ressecadas não são da velhice. Eu que no alto dos meus 36 deveria estar vivendo o melhor da vida, como acreditava, estou na velhice herdada. A que me foi dada pelo meu destino, pela minha classe social, pelo meu gênero, tal qual a aranha que não fugiu de sua natureza de morrer após procriar.

Sigo aqui tecendo diariamente estruturas que não foram criadas por mim, mas impostas a mim. E sigo nessa manutenção diária de vida porque, afinal, o que me resta senão continuar tecendo?

A tristeza dói com mais força nos dias em que, tal como a frágil e invisível teia, ninguém celebra quem fica. Ninguém recompensa o cuidado prolongado. Não há beleza reconhecida no rito do sustento diário das estruturas da teia.

Me resta esperar que, diferente da aranha que segue em ciclo fechado, eu ainda possa ter o meu balooning tardio. Porque, afinal, o texto não era sobre a aranha, mas sobre a observadora.
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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Melhores do ano 2025

Escrevendo da cama onde me encontro chumbada com uma virose, pensei que resumir o que consumi hoje é um agora ou nunca, porque amanhã a vida volta a infeliz realidade de trabalho e rotina louca de afazeres. Com pouca enrolação e pouca coragem:

Melhores assistidos de 2025:


-A ordem é por assistidos, não por favoritos
-Nem todos foram lançados em 2024/2025
-Revistos não entram na lista


1. Flow (2024) - filme, animação, Bélgica.

Indicado e vencedor do Oscar de animação, me ganhou demais aquela arca de noé sem humanos.

2. Terra Estrangeira (1995) - filme, drama, Brasil.

Assisti uma considerável quantidade de filmes nacionais e esse foi o primeiro que me pegou me deixando viciada na música Vapor Barato pelo ano inteiro. E na Fernanda Torres, claro.

3. Conclave (2024) - filme, drama, EUA.

Também indicação de Oscar, Ralph Fiennes como um veio fofoqueiro em meio a escolha de um novo papa não tinha como dar errado. Pra mim, deu certo demais.

4. I'm not a robot (2023) - curta, drama, Bélgica.

Também dos indicados ao Oscar, esse curta me deixou com um medo real e contemporâneo: e se toda a nossa vida fosse uma mentira e a gente fosse um robô?

5. Wander to Wonder (2023) - curta, drama, Bélgica.

Outro curta também indicado ao Oscar me pega sobre o futuro dos personagens de quem cria quando quem os cria não pode mais criá-los.

6. A Lien (2023) - curta, drama, EUA.

Também curta, também indicado ao Oscar, sobre o pavor de construir sua vida em um país de merda como os EUA.

7. Instruments of a beating heart (2024) - curta, drama, Japão.

É um curta documentário, também indicado ao Oscar, que mostra uma garotinha ansiosa e nervosa no treinamento de um instrumento musical e no teste para a sua apresentação. Chorei mais do que era aceitável chorar querendo proteger aquela garotinha de toda a ansiedade que o mundo pode causar, mas que entendo como inevitável pra vida.

8. Fresh (2022) - filme, terror, suspense, EUA.

Esse me pegou desprevenida e caí na lábia do canibal bonitão tal qual a protagonista. Amei o humor, meu exato tipo de filme.

9. Parachute (2023) - filme, drama, EUA.

Também não esperava ser atingida por esse que fala sobre as consequências na vida e nas relações pessoais quando se trata de distúrbios alimentares. Tinha subestimado a Brittany Snow e amei que essa foi a estreia dela.

10. Dance Life (2024) - Reality, dança, Austrália

A rotina e aprendizado de dança de forma encantadora.

11. My Old ass (2024) - Filme, comédia, EUA.

Filme levinho com questionamentos femininos leves de acompanhar. Divertido.

12. Materialists (2025) - filme, drama, EUA.

Gosto muito em como a Celine Song leva suas histórias. Pode ser facilmente confundindo com uma comédia romântica, mas acho que consegue aprofundar um tanto mais os questionamentos.

13. Girls will be girls (2024) - filme, drama, Índia

Esse eu devo dizer que foi o meu favorito do ano. Gosto de histórias de amadurecimento, especialmente femininos, e toda a relação dela com distribuições de poder, relacionamento amoroso, familiar, amizades e sentimentos e descobertas foram, ao meu ver, mostrados de forma perfeita.

14. Breathe (2014) - filme, drama, suspense, França.

Aqui eu já tava na fase do ano em que tava rendida ao girlhood. Fui esperando uma bela amizade entre mulheres, o que aconteceu, mas não só isso. Fui impactada.

Em resumo, vi um total de 128 filmes/séries/realities, sendo esse os maiores destaques. Poderia até mencionar Yellowjackets como uma boa surpresa, mas acho que gostei mais da premissa que do desenvolvimento - também indo no aspecto girlhood da coisa. Nesse ano também consegui dar uma pluralizada nos assistidos, tendo 50 deles não sendo dos EUA. E só do Brasil foram 15 (considerando filmes, séries e realities). Também considero um número bacana os filmes dirigidos por mulher, foram 24 (número esse que espero aumentar). Foi um ano interessante.

Agora, pra livros a coisa foi mais intensa do que tinha planejado, porque pensei que não leria mais que uns 12. Mas, ó:

Melhores lidos de 2025:


-A ordem é por lidos, não por favoritos
-Nem todos foram lançados em 2024/2025
-Relidos não entram na lista


  1. Flicts (Ziraldo)
  2. Vidas Secas (Graciliano Ramos)
  3. A metamorfose (Kafka)
  4. Holocausto Brasileiro (Daniela Arbex)
  5. A cabeça do santo (Socorro Acioli)
  6. Paula (Isabel Allende)
  7. A redoma de vidro (Sylvia Plath)


Foram um total de 33 lidos, entre livros e HQ's com gêneros diversos, mas com destaque para clássicos. Apesar de ter gostado bastante das minhas leituras do ano, saio sem um grande favorito e um tanto sem norte pras próximas leituras.

Vou recomeçar a rotina e sentir ainda o que o corpo e o juízo querem pra metas e vamo lá 2026.
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quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Meu pai não me salvaria num apocalipse zumbi

Um dos filmes que vi esse fim de semana foi 'Train to Busan' (2016) que seria mais um filme de zumbis se não fosse o viés de explorar relações familiares. Acompanhamos uma pequena aniversariante de 8 anos que mora com o pai e a vó, o pai distante pelo excesso de trabalho e, triste, ela insiste em passar o aniversário com a mãe em Busan. Eis que um temido-por-todos apocalipse zumbi acontece bem quando eles estão no trem a caminho.

O pai vai recebendo lições ao longo da viagem que o faz perceber que a escolha dele de se priorizar, de exercer o egoísmo como uma ferramenta de conquista do sucesso financeiro e profissional, o fez perder em relação mais do que ganhar. Afinal, se separa da esposa, entristece a filha, vive em prol de trabalho. E, chamado a atenção pela filha, entende com custo de que em momentos de caos, ou há uma união pelo todo ou não há salvação pra ninguém.

Assistindo o filme e pensando na minha vida nos últimos anos, percebendo os principais pontos de conflito no meu núcleo principal familiar, cheguei na péssima constatação de que: meu pai não me salvaria num apocalipse zumbi.

Eu sinto que ele estaria entre os personagens que entram num vagão e impedem outros de se salvarem. Que se só houvesse espaço pra um, seria dele. Se tivesse que me jogar pra uma horda de zumbis me atacar, ele não pensaria duas vezes.

Porque, afinal, de todos os sacrifícios que fiz pelo bem dele, a forma de retribuição não vem nem em um simples "obrigado", ou nem na percepção de que reconhecer que eu, enquanto filha, sinto dor, cansaço, tristeza, desânimo, que preciso de um tempo, que preciso de espaço, preciso de distância. Que não sou uma mera existência pra servir.

É cruel, talvez, pensar assim. Mas estando no estágio da nossa trajetória atual, depois de nossas discussões e assistindo todas as omissões dele, me vem mais a certeza de que não, ele não me salvaria. Ele não pararia pra pensar em se sacrificar pra me salvar e, ainda digo mais, ele seria como um dos personagens que, quando se vê infectado, não se importaria em me infectar também.

Espero, com uma esperança ínfima, estar errada.

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domingo, 27 de julho de 2025

Ponderação de meio de ano [lado A]

CW: amputação de membro, histórias emotivas, feridas

Em janeiro escrevi:

Além dos 9 livros, vi uns 15 filmes. A ansiedade fica na fresta da porta sussurrando: vai, lê enquanto dá. Assiste enquanto dá. Tudo isso vai mudar em breve. Tô medicada, mas os períodos de hospital me assustaram e traumatizaram mais do que consigo mensurar. O que não imaginava era voltar pro hospital tão cedo.


Não que eu não imagine que a situação da minha vó possa mudar a qualquer momento, já que acamada, ainda que razoavelmente bem. O que não esperava era uma outra amputação tão cedo. Fui inocente, confesso. Ou talvez não inocente, mas ignorante sobre a extensão da doença. Até que fiquei sabendo e percebi que lá se iam muitos dos planos que tinha cogitado pra esse ano, pra mim.

Dessa vez eu fiz tudo certinho ou tão certinho quanto eu pude pagar. Dessa vez, tive regalias e escolhas: escolhemos o dia de ir, programamos o que levar pra uma longa estadia, preparamos a nossa mente pro que vinha pela frente. Mas não, nada prepara. E olha que me disseram que dessa vez ia ser menos traumático. Tão fácil falar.

Numa última tentativa de não passar por uma longa internação e amputação, recorremos a uma enfermeira particular que nos mandou a real e recomendou uma vascular. Corremos pra vascular já com peso no coração, porque a enfermeira citada cuida do meu pai desde 2019, quando surgiram as primeiras feridas diabéticas. Na vascular, entendemos que a coisa toda, a coisa inteira, era mais que "só feridas que não cicatrizam", era o entupimento de veias numa perna inteira, resultado de uma doença vascular em último estado resultando no que chamam de isquemia crítica. E que, a essa altura, não iria mesmo cicatrizar, já que, com as veias entupidas, o sangue não tinha como circular. Chegamos na médica tristes pensando na perda de um dedo, saímos arrasados porque a realidade era a possibilidade da perda de uma perna.

Apesar de ser um caminho doloroso (e caro), a última médica fez o que eu considerei a melhor coisa no processo: ela nos deu o mapa do caminho das pedras.

E no dia 17, tal qual O peregrino, saímos na nossa Jornada. Fomos pra UPA no dia e horário indicados, depois HRA e, por último, HMV (hospitais locais) - exatamente como a médica vascular disse.

Apesar do caminho previsto, o que nunca dá pra se preparar são as histórias que afetam no caminho, o que a gente tem que escutar, que ver, que sentir, que vivenciar.

  • Como topar com um vizinho com um passado como também vizinho de leito. Jovem e com uma diabetes super resistente;
  • ou com um jovem paraplégico, como possível passado similar, tendo levado 4 tiros, ter sido abandonado pela mãe que fez com que gerasse uma escara de uns 10cm na lombar e tendo que implorar pra que alguém da família o aceitasse em casa. Nunca vi uma alta tão triste;
  • como descobrir que uma inflamação no corpo pode levar a pessoa a ter um comportamento violento e insano, aprendido com um senhor que chegou em estado de total agitação e revolta;
  • tipos diferentes de profissionais envolvidos. Afinal, parece que quanto menos bem assistido o local da saúde é, menos enfermagem por amor é registrado;
  • ter o pior dos dejà-vus ao chegar num novo hospital e perceber que teríamos mais uma experiência de ficar em leito num corredor caótico;
  • entender que nesses ambientes, enquanto pessoa que acompanha, é primordial fazer contatos, se aliar a outras pessoas na mesma situação, trocar conhecimentos de horários, locais, bizus, medicamentos, cuidar dos pacientes vizinhos. A experiência de hospital é viver o hospital. Juro que faz doer menos;
  • E nessas alianças, além das histórias vistas no local, ouvir as outras milhões de histórias dos acompanhantes ali, trocar figurinhas de raiva, ódio, fé e amor que surgem nessa condição de aprisionamento;
  • e aprender a chorar de forma discreta;
  • e dormir com a lâmpada acesa em um local que nunca dorme, nunca sossega. Estado de alerta é constante;
  • e desapegar do nojo. Da comida do local, dos ferimentos, das pessoas, do ambiente, das trocas de fralda, do xixi, do vômito, dos puns, dos bafos;
  • Mesmo quando uma senhora que você nunca viu faz xixi no seus pés ou lhe dá uma cuspida;
  • Mesmo quando você é convidada a dar um banho em outra senhora que se apegou a você sem nenhum motivo aparente;
  • Se acostumar com a nudez de corpos diversos, de corpos doentes;
  • Em ver gente saindo feliz da vida depois de amputar uma segunda perna e entender que viver sem dor é o mesmo que libertação;
  • aprender a ouvir, ser empática e saber consolar;
  • acostumar o cérebro a entrar num modo de organização onde todas as informações passadas serão organizadas e repassadas e repetidas e contestadas diversas e diversas vezes pra equipes diferentes, profissionais diferentes;
  • é saber lidar com a frustração de quando uma coisa não sai como imaginamos - como não ter alta num dia esperado;
  • é descobrir novas sensações, novos gostos e tentar processar essa confusão em meio ao caos.

Nessa de descobrir novas sensações, o que sinto é que passei por mais um salto de maturidade. Desses de quando você é bebê. Pelo visto, depois de nascer, eles nunca param de acontecer.

Eu não sei como terminar esse texto. Comecei há quase 10 dias e sinto que ainda não processei tudo que eu tenho que processar. Mesmo voltando pra casa, a rotina hospitalar foi transferida aqui pra dentro, com o diferencial que agora não tem terceiros pra lidar com as coisas, é tudo conosco, comigo. As comidas no horário certo, as medicações, os curativos, o estresse de lidar com doente teimoso, com a volta da rotina de trabalho, rotina de casa.

Sigo meio anestesiada, tentando não sentir nada em intensidade pra não sofrer com o peso da vida. Problema que acabo anestesiando também coisas boas, que não as sinto em intensidade.

Espero voltar em breve a escrever sobre outras coisas que aconteceram quando conseguir reorganizar meus pensamentos e sentimentos.
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terça-feira, 8 de julho de 2025

frio

Houve um ano que no pico do inverno todas as minhas gatas tiveram rinotraqueíte. Minha rotina era trabalhar e medicar gato. Perdemos uma gata que morreu em casa. A casa nunca esteve tão gelada, nada parecia aquecer.

Me encontro novamente em um inverno onde sinto frio o tempo inteiro. Dois casacos e uma manta não me aquecem. Meus pés e mãos vivem gelados.

Novamente tô achando que é um frio que vem de dentro.
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quarta-feira, 25 de junho de 2025

Nunca feliz em junho

Antes de vir pro hospital, comentei com a minha mãe que São João, quando eu era criança, tinha cheiro de chuva, fogueira e pólvora.

Envelhecendo nessa festa que cresce insanamente e vai consumindo tudo em volta, São João, pra mim, passou a ter cheiro de banheiro público, lama empoçada, gente bêbada.

Ontem, no hospital, enquanto falava com ela pelo telefone e chorava, senti forte o cheiro de fogueira e pólvora. Aqui fica pertinho da zona rural. Bateu nostalgia misturada com solidão.

Acho que nunca serei feliz em junho novamente.
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