𝚃𝚑𝚎 𝚗𝚊𝚖𝚎 𝚘𝚏 𝚊𝚗 𝚎𝚡𝚝𝚒𝚗𝚌𝚝 𝚜𝚝𝚊𝚛 𝚎𝚌𝚑𝚘𝚎𝚜, 𝚌𝚛𝚎𝚊𝚝𝚎𝚜 𝚠𝚒𝚝𝚑 𝚜𝚒𝚕𝚎𝚗𝚌𝚎, 𝚜𝚑𝚊𝚍𝚘𝚠, 𝚊𝚗𝚍 𝚋𝚛𝚒𝚐𝚑𝚝𝚗𝚎𝚜𝚜.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

[Tag Entreblogs] Por trás do blog

Essa é a minha primeira postagem usando uma tag do Entreblogs, e escolhi essa que é a primeira sugerida ♡

Quem é você fora do blog?

Nossa, como demorei pra responder essa pergunta. Sempre que começava a digitar, algo acontecia, minha mente dispersava e adeus foco. O que já responde muito sobre mim.
Mas respondendo, fora do blog, tenho 36 anos, eu sou filha e neta cuidadora, provedora de um triplex onde moram - além de mim, minha mãe e vó - 13 gatos e um cachorro. 

Sou designer por formação e isso, de certo, alimentou minha alma criativa, gambiarreira e testadora. Por que limitar meus interesses pra um tipo de material, técnica, atividade só se posso usar todos eles, ou melhor, misturar todos, não é mesmo? E nisso eu gosto de explorar manualidades diversas quando o tempo é bondoso. 

Trabalho no mercado publicitário como designer gráfico e devo confessar que não é uma das minhas coisas favoritas da vida. 

O que eu gosto é de calmaria, silêncio, frio, poucas companhias, snacks e meus bichos. 
No mundo real, eu falo muito menos do que escrevo e minha desenvoltura de fala é péssima.

Me chama de artista, volta e meia e, pessoalmente, eu reluto a assumir o título, mas lá no fundo eu fico toda fofa e orgulhosa das coisas que eu posso fazer com minhas mãos. Algumas dessas coisas virão pro blog, outras, seguirão só fora dele mesmo.

Qual é a história por trás do seu blog?

Eu tenho blogs na internet desde a adolescência e sempre foi um meio que me deixou feliz. Migrei de plataforma em plataforma buscando o sentimento de coração preenchido e, assim, acabei voltando pro blogger, plataforma que usei lá atrás quando me meti com HTML antes mesmo de saber que estudaria design.

Eu sigo achando que a prática de desabafo por escrita foi o que me sustentou na vida. Que me salvou nas piores fases - inclusive quando tive um outro blog chamado Backdrop of Blue numa fase onde eu fazia as pazes com a melancolia.

Antes daqui, eu mantive duas plataformas: Tumblr, para depósitos artísticos e um Bearblog pra os textos-vida e acabei sentindo a necessidade de não separar mais essas duas partes, já que constatei que se retroalimentavam. Trouxe novamente pro Blogger o que senti fazer parte da fase que estou agora e recomecei, agora, com as duas partes unidas, ainda em construção. E coloquei elementos de nostalgia, como estrelinhas no cursor. Foi como voltar pra casa.

Como funciona seu processo criativo e escrita? Você tem algum ambiente criativo? (rotina com o blog, por exemplo)

Caótica. Não tem outra palavra.
Eu até tento me organizar com jardins digitais e listas e mais listas, mas ainda sinto que minha organização é uma procrastinação do processo. No geral, meu jeito de criar, seja texto, seja arte, é ir jogando tudo no caldeirão, ir mexendo e tomar a poção quando tiver bem quente. Desculpem, sou adepta de metáforas até demais. Mas quis dizer que, em algum momento, uma ideia vai se fixar loucamente na minha cabeça e eu nunca terei paz enquanto não realizá-la.

Não é um processo que recomendo. Instável demais.

Um fato aleatório que você considera intrigante. (literalmente, qualquer coisa)

Abelhas que procuram flores pra descansar, dormem de 5h a 8h por dia com o bumbum pra cima e as anteninhas arreadas. Sério. 

Indique um ou mais blogs e compartilhe o que mais gosta neles.

https://www.arantchans.com - Conheci a partir do Listography e acho absurda de inspiradora;
https://trilux.org - Augusto sempre trazendo boas reflexões;
https://alinevalek.com.br - O tempo é pouco pra o tanto de coisa dessa mulher que queria consumir;
https://melinasouza.com - Acompanho há muito, muito tempo e sempre me causa uma nostalgia boa;
https://agapysjournal.substack.com - Sempre boas, ótimas leituras
https://meusdiscosmeusdrinks.substack.com - Apesar de não beber mais, amo os textos do Bruno Capelas.
https://fluxocriativo.substack.com/ - Jupiter sempre com referências inspiradoras

E segue mais alguns lá no Blogroll. ♡

Continue lendo read_more
sábado, 6 de junho de 2026

Paisagens que construí sem perceber

CW: excesso de metáforas.

Há algumas semanas eu venho tendo um incômodo sobre o excesso de consumo e conteúdo. Nos últimos anos, como recorro a comentar, passei muito tempo presa apenas na absorção de conteúdos e na vontade de fazê-los devido a recorrências hospitalares e cuidados aos meus. Agora que me encontro com mais tempo considerável disponível, quero atirar para todos os lados, realizar tudo, mas ainda me encontro insegura na realização e presa no consumo.

Não que eu ache que consumir conteúdo seja ruim, longe disso. Eu amo consumir bons conteúdos e vê-los crescer em mim como referências. Amo ver gente compartilhando um pouco de si, de forma autêntica. Amo a troca de bagagens de vida. No entanto, o desafio de se propor a realizá-los, apesar de gostoso, é um desafio. Requer tempo, disposição, dinheiro e coragem de errar. Consumir sempre será mais fácil.

Daí nessa movimentação de se colocar na ativa, tenho ficado imersa na colagem de papeis em cadernos velhos diversos, entrei num clube de livro presencial, rediagramei e atualizei este blog, tenho organizado melhor meu listography com coisas que tavam enevoando a minha cabeça e sem um destino de organização certo. Também organizei minhas listas do letterboxd por cores e tenho atualizado coisas relativas à abertura da minha lojinha. Preciso ainda atualizar meu Notion que, modéstia à parte, já acho belíssimo.

E aí me deparei esses dias, no equilíbrio de consumo de conteúdo alheio, com esse texto que fala sobre a construção de Jardins Digitais e minha cabeça deu várias pequenas explosões ao perceber que nessa divisão citada entre sementes, árvores e frutos, eu já venho catalogando sementes e plantando-as há muito, muito tempo sem perceber ou sem pretensão de construção de um jardim ou da ordem que deve ser.

https://agapysjournal.substack.com/p/consumir-como-artista-construindo

Pensei ser só uma viciada em organização digital e esse sentimento veio muito à tona quando conheci o Notion. Organizá-lo, concentrando minhas referências num canto só, foi extremamente satisfatório. Ali, eu já estava na construção do meu jardim sem perceber. Quando resolvi organizar minha estante de livros por cores, percebi que não era só uma questão digital e o sentimento se consolidou no processo de organizar pedaços de papel no junk journal e colá-los por tipos de cores, de texturas, de formatos. 
Pra todas as vezes que desejei uma penseira, eu fui lá e construí uma. Ou várias. Me identifiquei como uma curadora cromática e entendi que todas as minhas coletas não eram desvios de atenção ou procrastinação, como tantas vezes julguei, mas parte da minha identidade o tempo todo.

E fiquei pensando sobre o que envolve ser um curador. 
Minha cabeça fez muito trocadilho entre "curar arte me cura" e "cura.dor". Bregas? sim, mas eu gosto porque fazem sentido pra mim, ☺e imagino que o processo de ser curador de referências seja inerente a manter atividades criativas. Afinal, o que seria da nossa bagagem sem as coletas de sensações e olhares, leituras e consumos, sabores e sentimentos? Pegar fragmentos diversos, interligá-los, achar conexões que façam sentido.
Passar a vê-las como sementes é que passou a ser especial, porque percebo que criei pontes de sensações ao longo de muitos anos que, olhando agora do alto, fazem sentido na construção de uma identidade que é minha. Eu organizo pra compreender, eu compreendo um sistema pra me organizar.
É, de fato, mais que um jardim, como é citado no texto, mas um ecossistema.

E é realmente um desafio expandir além da coleta e catalogação de sementes. Em um universo digital, faço um movimento de pinça e vejo a semente plantada, vejo as raízes e dou um zoom out, vejo tronco, vejo galhos, vejo folhas, zoom out e vejo um jardim, zoom out, flores e frutos, zoom out, uma floresta, zoom out...

O blog alimenta o Letterboxd.
O Letterboxd alimenta as colagens.
As colagens alimentam as ideias.
As ideias alimentam os desenhos.
Os desenhos alimenta o blog.
O Notion registra tudo.

E, no meio disso, eu vou mudando.
As plantas também.

Mas o jardim continua sendo reconhecivelmente meu.

Por isso que ao pensar no cuidado do meu jardim, eu me sinta tão incomodada sobre envios aleatórios de links e reels que nada tem a contribuir com meu espaço. Nem toda semente precisa entrar no meu jardim, prefiro eu mesma fazer a curadoria do conteúdo que me acrescenta.

Por ora, abrir a janela e olhar a paisagem que eu criei tem sido o que tenho feito de melhor.

Meu canteiro no Letterboxd;
Lá no Pinterest;
O do Cosmos (contém +18).



Continue lendo read_more
quinta-feira, 21 de maio de 2026
Esse é um texto que ensaio há tempos escrever e provavelmente faltará palavras pra escrevê-lo como quero. A cabeça ainda segue enevoada e, bem, esse é pra falar sobre a tentativa de desenevoar. É sobre processo criativo e pausas mentais, sobre sair de telas, se voltar para o analógico, sobre explorar quereres, sobre abrir brechas pra outros interesses e abraçar pequenas coisas e imperfeições, sobre espalhar, ver, rever e produzir beleza ao redor, sobre tentar se sentir bem em meio ao caos, sobre romantizar sua vida.

Romantize sua vida como uma artista

Romantizar é um termo muito atribuído a coisas que se considera ruins, com alerta do perigo de relativizá-las possa causar um grande prejuízo. Isso porque o romântico, em uso comum, é usado para a preferência pela fantasia, pela emoção, pela imaginação, em detrimento da racionalidade. O deixar se encantar pela parte boa da coisa toda e se iludir de que é possível viver dentro de uma nuvem cor de rosa usando um arco-íris de ponte.

Mas amigues, pra vida prestar, é preciso uma grande dose de romance e todas as atribuições que vem com a prática.

Não sei como meus amigos racionais vivem com a vida difícil do jeito que é, mas eu que vejo as coisas de uma perspectiva dramática, eu preciso da distração, da fantasia, do entretenimento como item básico de sobrevivência.

Acho que uma das grandes lutas da minha vida é tentar conseguir o equilíbrio entre razão e emoção. Tenho muita dificuldade em lembrar de todos os compromissos que eu tenho no dia, na semana, no mês, no ano se eu não anotá-los ou fugir deles porque toda burocracia me assombra; Quando preciso ser física e mentalmente presente em alguma situação de conflito, sou drenada de toda reserva de energia que habita o meu corpo e a forma de repor essa energia é me voltar pro máximo de alienação que eu consiga ter naquele instante. Nem que seja olhar pro vazio por 5 minutinhos imaginando um ambiente, situação, companhia totalmente diferentes daqueles que me encontro no momento.

As últimas semanas (digo, os últimos anos, se for analisar direitinho) me forçaram a estar mais presentes numa realidade densa, cheia de problemas familiares e financeiros, doenças e morte. Me tirou o tino da minha capacidade de abstração da realidade. Que era excessiva, eu confesso, mas sair de um extremo pro outro, sem uma preparação do coração, não foi legal.

E me sinto dizendo um "venho por meio desta", em prol do bem-estar e equilíbrio mental dizer: Romantize sua vida, sim. Acenda aquela vela no seu banho, durante a sua leitura; bote um cheirinho bom enquanto você arruma casa; compre flores e enfeite sua mesa, sua estante, sua janela; Sinta o vento ou sol bater na cara, o cheiro da chuva; Faça um escalda-pés; Passe um óleo de banho, um hidratante cheiroso; Faça ou peça uma comida gostosa; Fale sem pressa com aquela pessoa que você gosta; Faça um caminho diferente; Convide um amigo pra sair; Dance e cante no banho (com cuidado pra não escorregar); Sinta as folhas secas se esmagando sob os seus pés; Pesquise um assunto que você gosta e se delicie com um conhecimento que só serve pra você; Assista as nuvens te apresentarem desenhos diferentes (ou os azulejos do banheiro); Comece um hobby novo.

Ou corte revistas, junte resto de embalagem e

Junk journal with me.
Esse é o típico hobby que vai vir alguém e perguntar: mas isso aí, hein, serve de que?


E a gente tenta não dizer que é pra comer cu de curioso, não, a gente responde que serve de nada além de esvaziar a mente, ocupar as mãos, preencher o coração, como qualquer outro hobby que, pra ser hobby, na minha concepção, tem que fazer bem primeiro a quem está a fazê-lo.

Mas o que é journal/journaling?
É a prática de usar um caderno ou espaço digital (como esse blog, aliás) para organizar ideias, seja por imagem ou escrita, com desenhos ou colagens, na categoria que quiser - Bullet journal (BuJo), junk journal, sketchbook, diário de viagem, álbum de fotos, grimório, scrapbook - ou tudo junto, o caderno é seu, se joga. Seja pra escrever diariamente, organizar sua vida em listas, organizar sua coleção de adesivos, colar cacarecos.

Eu, particularmente, tenho experiência com journals desde criança, que sempre fui estimulada pela minha mãe a escrever em pequenos diários e na adolescência quando migrei e comecei a explorar blogs, além da faculdade que me incentivou a manter sketchbooks diversos.

A minha obsessão atual, que ando precisando manter coisas que não me exijam um nível de pensamento profundo, tem sido explorar o junk journal.


Tem sido incrivelmente relaxante cortar papeis, achar padrões, criar padrões, organizando-os visualmente, ter ideias pra novas páginas, pensar em ideias de coisas mais elaboradas, querer ter mais contatos com técnicas analógicas, descobrir e experimentar novas coisas, mexer coisas com as mãos, relaxar o cérebro, voltar pros dias infantis de tempo dedicado a uma atividade prazerosa, fazer coisa bonita, ter dias bons e ver a vida por olhos mais apaziguadores.

Lendo sobre e vendo perfis de design, acabei absorvendo a ideia de que registrar junk é registrar memória gráfica. E eu sou designer gráfico, ô catapimbas (e das velhas). Registrar memória gráfica é uma das minhas tarefas de profissão. Seja numa página feita de colagens de marcas diversas recortadas de embalagens como testar uma nova composição com elementos diversos tirados de várias outras origens que puderam chegar às mãos.

Observar, cortar, compor, colar. Design e arte puros. Beleza em tudo. Romantização da vida.
Essa é a minha vibe atual e eu recomendo.
Continue lendo read_more
terça-feira, 19 de maio de 2026

e eu não poderia me importar menos.




 As segundas-feiras na minha casa ficaram marcadas como o dia que recebemos uma péssima ligação, de quando tudo acabou e recomeçou. Desde então tudo mudou e nada mudou, o que é muito estranho. Não conseguimos desapegar da estranheza da nova realidade. É um vazio que ocupa um espaço imenso e não sabemos explicar a presença do nada.

Volta e meia me volta um texto da Superinteressante que li há uns 10 anos sobre como o nada, o vazio tem um peso imenso e todo o universo é feito de nada. Lembro que li fascinada, dessas coisas que agarram em você e lhe formam como pessoa.

Mas não era um texto sobre luto, era sobre o funcionamento do universo.

Num caminho pra casa, a minha playlist tocou Before we drift away (NBT) e fiquei remoendo a letra com a exata sensação de saber sobre o que a música fala, de tomá-la pra mim:

I wonder where I float to when I return to dust?
A sea to wash away the last of us
It's such a funny feeling, the world's at war again
But in this very moment
Oh, it couldn't matter less

A sensação de "O mundo estar em guerra novamente e eu não poderia me importar menos" batendo fortemente.

Tenho dívidas e eu não poderia me importar menos.

É ano de copa do mundo e eu não poderia me importar menos.

Eleições presidenciais e eu não poderia me importar menos.

Qualquer pessoa e qualquer que seja sua pauta e eu não poderia me importar menos.

Alguém não gostar de mim pelo motivo que seja e eu não poderia me importar menos.

O mundo estar em guerra e acabando e eu não poderia me importar menos.

Perdão, mas isso tá na conta do luto.

And as we sing this familiar song, I thought I'm gonna miss your love when it's gone...


Continue lendo read_more
terça-feira, 12 de maio de 2026

Eu sou uma fraude

É a sensação constante da vida nas últimas semanas.
Me sentindo incapaz pra todas as coisas que as pessoas acham que eu poderia fazer.

O último ano de idas mais frequentes a hospitais me mostrou que sou capaz de uma memorização e organização que não achava serem possíveis. Especialmente nessa última estadia, todos os dias eu era capaz de armazenar e processar informações, no que chamávamos de boletins, de uma forma que as pessoas destacavam demais, que os médicos me diziam que eu parecia e deveria seguir a área da saúde. Mexeu, sinto, um tanto com o ego. Vai ver aquele ego famoso do artista que precisa ser elogiado e etc e, dentre tristezas e incapacidade de normalidade, às vezes, o meu dia era feito de elogios à minha organização comunicacional.


Agora acabou, né? Volto pra minha vida onde esse lado útil de armazenamento de informações não serve de mais nada. 

E aí preciso voltar a reorganizar a vida, a voltar a fazer minhas coisas, a pensar no meu futuro como sempre reclamei que estava incapacitada. 
E aí travo. 
Não sei quando tem que ser ser o start de normalidade pós-luto, por quanto tempo posso me permitir seguir como se tivesse fora da vida palpável que aperta, cobra e passa tão rápido que nem se sente.

Eu deveria abrir minha loja, realizar os pedidos acumulados, criar ideias de produtos únicos, tirar minha CNH, reformar uma parte da casa, reorganizar as coisas acumuladas, tocar minha vida como uma adulta funcional, marcar aquela saída, usar os vouchers de cinema antes que vençam, mas só quero ficar na minha cama assistindo série repetida, lendo romance questionável e picotando e colando papel.

Não sei mais desenhar, formular uma frase inteligente, pensar em algo minimamente inovador. Voltei a minha fase fraude onde reclamar não cabe mais e também não sei agir. Talvez seja só a presença do luto ou da depressão à espreita, colando um adesivo no meu peito: FRAUDE, FRAUDE, FRAUDE.


Continue lendo read_more
terça-feira, 5 de maio de 2026

do lado de dentro do adeus

CW: luto, morte, doença, tristeza.



E já se vão duas semanas que, ali perto de meio dia eu recebi a notícia de que meu pai tinha morrido.

Eu receei muito pelo momento da notícia, mas a minha reação de quando fui avisada que precisava ir urgente ao hospital foi de que, a partir dali, não tinha mais urgência, então terminei de comer o meu almoço de shopping sem afobação, chamei o uber, enfrentei a chuva que tinha evitado um pouco antes e fui pra casa. A palavra "acabou" ganhou um tom diferente pra mim desde esse dia.

Eu não sei explicar como me sinto depois. É como se não conseguisse unir "meu pai morreu" com a realidade do que aconteceu. No peso de um pai. Ainda não consigo. Ainda não entendo.

Minha convivência com meu pai nos últimos anos ganhou camadas de turbulência. Eu tive dificuldades imensas de entender que ele tava mudando, que tava se tornando outra pessoa enquanto se tornava idoso, que poderia ter condições mentais/emocionais que nunca chegaremos a descobrir e que isso mudou toda a nossa relação. Eu, que era apaixonada por ele quando criança, que assistia todos os filmes de luta e faroeste e me recusava a dormir enquanto ele não fosse e, quando dormia ainda assim, ele me levava nos braços pra cama, não entendia como aquela pessoa nos últimos anos não existia mais.
Aquele que nunca me castigava e, na única vez que me deu um tapa por perder a paciência por uma birra minha, me deixou tão chocada que eu tive uma crise de choro tão dolorida que o deixei cheio de remorso e minha mãe me consolou no meu desespero. Uma das minhas crises de choro de dor real que lembro até hoje. Aquela pessoa que, em uma outra crise nervosa, mas já no primeiro ano de faculdade, me abraçou e deixou eu chorar molhando todo o peito dele. Que temia que tentava me ajudar na minha ansiedade social querendo me acompanhar na primeira entrevista de emprego e que, quando fui recenseadora do IBGE e me jogaram em lugares inóspitos, temeu pela minha segurança e fez comigo todo o percurso do Censo. E pelos 8 anos longos e ansiosos de faculdade, me buscava e me esperava pra ir pra casa todos os dias. A essa altura, uma distância já existia e caminhávamos pra casa em silêncio. Mas ali, algumas muitas vezes de braços dados, caminhando em passadas iguais. 

Então quem era aquela pessoa que nos últimos anos de curativos infinitos e internações, se portava com uma teimosia irresponsável, aparentemente lúcida, que nos tirava de tino? Que ignorava todos os nossos conselhos? Que nos desgastava emocionalmente com um silêncio perturbador? Que apertou meu braço com um ódio, aqui já em desorientação, na internação do hospital, me levando novamente a um estado de choque e desespero que foi difícil de controlar? Quando o vi delirar, senti a solidão se expandir e nos dois meses seguintes que mal falava comigo, me fez sofrer de abandono. Provavelmente, ele também se sentia abandonado, pelas vezes que pedia socorro e pedia ajuda, que pedia pra ir pra casa, que pedia pra ir pra casa da mãe. Uma ajuda que eu não podia mais dar, não era alcançável a mim.

No dia que precisei voltar a trabalhar quando ele tava no hospital e o deixei com outra pessoa, havia uma perspectiva de alta. Ele ficou rancoroso, se recusou a tomar banho, a se virar, respondia mal a todo mundo... e piorou. Pro espanto de todo mundo, ele não parecia feliz, pelo contrário. Broncoaspirou no dia seguinte e rebaixou. Rebaixou muito. Só dormia e, quando acordava, ficou ainda mais em silêncio, se é que era possível.

Eu não queria assumir pra mim que a nova rotina de sair do hospital durante o dia era cansativa, mas libertadora. Queria não me entender egoísta, mas me sentia imensamente egoísta por não ter abandonado meu emprego, por não ter deixado tudo pra estar lá e não conseguir mais acompanhar os boletins diários médicos porque não estava presente como antes. Também me sentia egoísta pelas coisas que levava pra lá pra me distrair. Como eu podia me distrair, querer me sentir minimamente bem estando naquele ambiente? Naquela situação? Eu ouvia que eu tinha de cuidar de mim o tempo todo e eu sabia disso, eu também acreditava nisso, mas o sentimento de que nada daquilo deveria ser sobre mim, que deveria ser sobre cuidado e abnegação era muito mais forte.

Mas eu voltava não querendo mais estar ali, mesmo sem ver perspectiva de melhora. Eram contas que não se encaixavam. Eu, sinto dizer, queria mais uma rotina de normalidade a todo custo, ansiava por um pouco de normalidade. Precisava voltar a ser eu, a ter minha vida, minhas próprias tristezas e dores. E temia que ele viesse a falecer na minha presença. As vezes que quebrei e chorei muito passaram muito perto de uma morte e sempre que eu saía de manhã e ele tava razoavelmente estável, pensava, "não foi comigo" e sentia um alívio.

Não era sobre mim, mas eu não queria mais estar presente.

Aí ele foi pra sala vermelha. Nesse dia, passei a tarde ansiosa pela ligação médica, mas no trabalho e fingindo normalidade. Nem eu entendia a minha calma, mas suspeito que por um alívio de não ser a pessoa que estava com ele quando ele piorou sendo levado na urgência.
No dia que o visitei sozinha na sala vermelha, eu tava tranquila, mais tranquila do que nas vezes que o visitei na UTI com esperanças de uma melhora real. Na sala vermelha, eu já sabia que não existia mais essa possibilidade, como o médico me disse. Ele já estava em tanto sofrimento, que toda possibilidade de reversão de quadro só causaria mais sofrimento.

Eu não aguentava mais aquele ambiente. Ele, tampouco.
 
No dia seguinte, o visitei com a minha mãe e ele já tava com um aspecto horrível, naquele lugar horrível. Não tem como alguém melhorar num lugar daquele. No meu coração, eu me despedi ali. Eu abri um dos olhos dele, o outro tava muito inchado, ele olhou pra mim, pra minha mãe e foi a última vez que eu vi o olho dele aberto. Quando era criança eu achava a cor do olho dele a coisa mais linda do mundo. Ver aquela janela sendo aberta por mim, porque nem tinha mais forças por si, me quebrou. Eu tinha medo de voltar nos dias seguintes e ver o corpo dele se deteriorar mais e mais.

Meu irmão tava pra chegar no dia seguinte e chegou em cima da hora de ir visitá-lo. Ali, no meu coração eu sabia que, se ele não tivesse ido, eu não teria mais forças e pelo visto ele só tava esperando meu irmão chegar. Ele arranjou força, abriu os olhos, tentou falar algo, olhou pra eles até eles saírem. Minha mãe conta que se arrepende muito de não ter voltado. Mas eu acho que foi o jeito dele se despedir. Eu tive muitas vezes, de fevereiro a abril, pra vê-lo, pra ele me retornar o olhar. A despedida dele da minha mãe e do meu irmão foi por olhar também.

Eu nunca tinha passado pelo ritual de morte familiar. Todas as vezes, eu fugi. Até que fui no enterro da mãe de uma amiga e, sinto, aquele dia mudou minha concepção de morte, cuidado, relação familiar e maturidade pra sempre. Essa mesma amiga segurou minha mão todo o percurso do velório ao enterro do meu pai e me abraçou o tempo todo num gesto que eu nunca poderei esquecer nem agradecer o suficiente.



Os dias seguintes vem sido de uma névoa, um alívio pela volta da normalidade, mas à espera de quanto tudo vai voltar a ficar muito ruim novamente. Ainda não sei o que fazer, ao certo, com meu novo tempo adquirido e tenho jogado todos os meus comportamentos esquisitos, minha impaciência, minha fuga de burocracias e responsabilidades na conta do luto. As pessoas me perguntam como eu tô, mas não sei responder. Elas me falam que é fase, que vai passar, que vai virar saudade, mas já virou. Me falam sobre as fases do luto, mas não vejo alívio como uma delas. O que me confunde porque,  nesses 36 anos, eu tive um excelente pai presente com ótimas memórias e sentir alívio não me parece coerente com o que deveria sentir. 

As vezes, vem crises de choro, de um sentimento que não sei explicar, que é novo pra mim e não sei dar nome. Vai ver seja luto mesmo, como é, eu só nunca senti antes pra saber, na prática que é assim.






Continue lendo read_more
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

sobre leituras e a vida

 Originalmente escrito na madrugada insone e barulhenta de 08, fev de 2026

Num carnaval passado, primeiro ano de pandemia onde tudo era  esquisito, estava lendo "As águas-vivas não sabem de si" (Aline Valek) enquanto esperava meu pai ser atendido nos primeiros curativos diabéticos dele e um trecho do livro, sobre as águas-vivas se moverem como um corpo só e conta a história de uma delas, errante, que se separa do seu "corpo" comum e passa a ter vislumbres de independência e autonomia antes de morrer, me pegou bastante:

"Agora havia ela e o mundo, a separação entre duas coisas que talvez sempre tivessem sido distintas. Como não havia reparado naquilo antes? Fazer parte de uma coisa só a havia insensibilizado para a possibilidade de que fosse una, completa por si só, e que cada ser que flutuava ao seu redor também fosse protagonista da própria história - e veio a sensação de ter uma história só dela, uma emoção inédita e um tanto incompreensível para uma água-viva. (...) Descobriu com alguma infelicidade que ser um indivíduo era também ser pequeno e sentir medo o tempo inteiro. (...)
Um observador que visse aquela água-viva aos farrapos rolando pelas ondas já consideraria grandioso ela ter chegado até ali sem ter chamado a atenção de nenhum peixe (...) mas não julgaria que ela estava disposta a viver como nunca antes. Tinha-se percebido livre, tomada pela recém-adquirida consciência de si mesma, e que arrebatadora era essa sensação, mas também sentia a necessidade de descobrir mais, de sentir o mundo mais tempo por aquela perspectiva. De repente muito mais corajosa, ela moveu seus cílios o melhor que conseguiu para se manter longe de um paredão de corais que bem poderia colocar fim em sua viagem. Escolheu não parar ali. Queria ir além.
Mas, não, quem decidia era a água (...)"

Já sentia naquela altura que aquela prisão onde me encontrava, com meu pai começando a Odisseia de feridas diabéticas, tinha similaridades com a falta de autonomia da água-viva. Era de sua natureza. Parece ser da minha natureza.

Agora em 2026, novamente em prévias de carnaval, tava lendo A empregada (da Freida McFaden) e a parte que bateu na sensibilidade foi a violência psicológica que acontece com as personagens principais que são obrigadas a ficarem presas em um quarto e, na promessa de sair, escutam repetidamente a frase "você vai sair... mas não agora" e sinto a vida me colocando nesse mesmíssimo lugar aprisionado. Quando tudo parece que tem um jeito, uma brecha, um vislumbre de regularidade, volto ao quarto, peço misericordiamente para sair e a vida responde: "você vai sair... mas não agora".

No primeiro ainda consegui traçar um paralelo bonito. É um livro que sinto ter me marcado para toda vida. O A empregada não, achei ruim, clichê, fraco e me entristece que esse é o paralelo literário que consigo fazer no momento.

Continue lendo read_more

Uma peça teatral onde tudo é dor

Originalmente escrito na madrugada insone e barulhenta de 09, fev de 2026 

    Todos os dias eu acordo e nada é definido, se é ruim ou menos ruim, se é suficientemente bom ou minimamente estável. Nada. 

Sigo olhando em volta e achando que todo mundo finge tranquilidade e serenidade muito bem e eu sou a péssima atriz no tablado. A sensação é essa: a de uma grande atuação. Como todo mundo aprendeu a estar acostumado tão rápido? 

 Hoje chegaram dois pacientes na na pior ala do hospital - chamado carinhosamente assim pelas enfermeiras-, e os acompanhantes se entreolharam cansados e sussurraram: hoje vai ser uma noite difícil. A anterior não tinha sido melhor, ainda que situações gerais tenham rendido risos (não meus, pois péssima atriz que sou e abalada pós colapso emocional, não conseguia esboçar o mínimo sorriso que fosse). Rir de pessoas perturbadas por distúrbios mentais me parecia fora de tom demais vendo a minha própria situação. Fiquei sem conseguir respirar, o corpo tremia como hipotermia, fui levada para o corredor pra me recuperar. E eu nem era paciente da sala de observação neuro, eu só era acompanhante de um paciente desorientado e delirante que segurou meu pulso com força e me olhou com um ódio que nunca tinha visto dele. Tive um dejàvu de 2 anos atrás quando, pós AVC, minha vó me direcionou a mesma raiva contida no olhar e o mesmo descontrole. 
Enfim. 

Um dos pacientes que chegou foi um rapaz que precisou ser totalmente amarrado à cama. Totalmente. Várias ataduras nos pulsos, nos tornozelos, joelhos e cotovelos. Ele se debatia numa violência que afastava a maca do lugar. Os olhares em volta eram de absoluto terror e cansaço. De um jeito circense, outros pacientes e acompanhantes o olhavam como a um monstro. 

A outra paciente já chegou gritando e gritando e gritando. Enfermeiras tentavam descobrir onde doía, mas pelo visto, tudo doía. A dor parecia vir de dentro e saiam pela boca estremecendo todo o lugar. Ela gritou por mais de 24h ininterruptas. Contadinhas de relógio. 

O cenário era o que outrora deveria ter sido uma enfermaria pacífica, na medida do possível, pois ainda sendo uma sala de observação neurológica, concentrava as pessoas recém perturbadas por acidentes mentais diversos e estavam ali em triagem para que pudessem evoluir para enfermarias específicas. Agora, além dos 10 leitos fixos, mais 10 macas foram enfiadas em duplas no meio da ala e cadeiras plásticas de acompanhantes ficavam no meio dos micro corredores formados. Ninguém parava sentado por muito tempo. Nenhum acompanhante ali tinha mais que 2h dormidas. 

E a peça se desenvolvia assim: enfermeiras correndo e empurrando quem tivesse no meio pra atender demandas urgentes - e todas as demandas eram urgentes: engasgo, fraldas cheias, medicações, dores, alimentação, sondas, banhos, curativos, mais fraldas, mais medicações, mais sondas, mais banhos. Às vezes no bom humor, trocando gracinhas entre si, outras no puro estresse, o que o contexto permitia. Os dois personagens recém chegados performavam dor e insanidade, insanidade e dor. Ela gritava, ele se agitava em resposta. E os espectadores-acompanhantes viraram as cadeiras e assistiam ao espetáculo em total torpor de horror. E se levantam cronometrados a enfermeiras que passavam correndo e empurrando para atender a demandas urgentes... 

O pior dessa peça, é que o fim só acontece pra quem sai, mas ela continua, com novos atores e novos espectadores por tempos e tempos e tempos... Me surpreende que mais ninguém ali tenha se juntando a mim no colapso.
Continue lendo read_more
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Enquanto o vento não vem

 Na correria de vida eu fui capturada pela existência de uma aranha. Eu particularmente gosto das aranhas de jardim. Acho o 'X' do formato delas bem característico e, sabendo que inofensivas, sempre considero um convite para me aproximar e vê-las de perto.

Há uns meses, uma aranha habitou a minha estante de livros. Resolvi tirá-la com um galho quando me deparei com um estabilamento e o confundi com ninho de crias e imaginei que minha estante seria tomada por filhotinhos. A coloquei fora pra seguir sua natureza. Mas pelos dias que ela ficou ali, me fazia companhia. Ela tecia a teia dela, eu crochetava os meus fios.

Alguns meses depois, encontrei outra alojada no centro de uma imensa teia no jardim de casa e suspirei: ali, sim, era o lugar dela.

Todos os dias antes de sair de casa pro trabalho, eu dava uma passada pra olhá-la, perceber detalhes, aprender uma coisa nova.

E descobri que ela se chama Argiope argentata, ou aranha-de-prata; Que é comum e inofensiva aos humanos. Que ajuda no controle de pragas e mosquitos. Que é uma excelente artesã e constrói teias de padrão único. Que os estabilamentos — as “estrelinhas” que eu havia visto antes —, apesar de não terem uma confirmação científica definitiva, são tidos como enfeites da teia. É a aranha romantizando o próprio espaço.

E percebi filhotes. E li sobre como eles são levados pelo vento. E percebi o minúsculo macho. E li que ele costuma ser devorado pela fêmea. E a vi diferente no passar dos dias. E descobri que ela estava nos seus últimos dias de vida porque cumpriu com o seu propósito de procriação. E senti uma tristeza funda.

Sabendo que seus dias eram poucos, passei a observá-la com ainda mais atenção. Li que, no início do fim, ela não fica para ver seus filhos crescerem. Eles partem levados pelo vento, num fenômeno chamado ballooning. Que, nas semanas seguintes, seu corpo perde o viço, fica opaco e ressecado. Que a teia começa a apresentar falhas que ela já não refaz diariamente. Que as pernas se tornam menos firmes. E que, em algum dos próximos dias, ela partirá — talvez presa ao centro da teia onde passou toda a vida, ou de qualquer outra forma irrelevante.

Mas esse não é diretamente um texto sobre aranha, pra usar aquela frase odiosa e clichê da internet.

Um dia, ela também foi um dos filhotes que flutuaram no ballooning e chegou até aqui, onde construiu sua casa, suas crias e o seu fim. A tristeza nasce do paralelo que faço com a minha própria vida: perdi a oportunidade do meu ballooning e construí uma teia que ainda me prende ao centro. Na última vez em que a observei, ao notar partes de seu corpo ressecadas, senti a secura do meu próprio corpo.

Sinto luto pelas minhas partes mortas, pelas minhas partes não vividas.

Ainda que o mamífero se diferencie do aracnídeo em ciclos teoricamente distintos, na prática eu não fui a aranha que nasceu, procriou e morreu como lhe era fadado, mas a aranha que não foi levada pelo vento porque precisou ficar. Porque alguém precisava ficar — e calhou de ser eu, a aranha artesã da vez.

Minhas partes ressecadas não são da velhice. Eu que no alto dos meus 36 deveria estar vivendo o melhor da vida, como acreditava, estou na velhice herdada. A que me foi dada pelo meu destino, pela minha classe social, pelo meu gênero, tal qual a aranha que não fugiu de sua natureza de morrer após procriar.

Sigo aqui tecendo diariamente estruturas que não foram criadas por mim, mas impostas a mim. E sigo nessa manutenção diária de vida porque, afinal, o que me resta senão continuar tecendo?

A tristeza dói com mais força nos dias em que, tal como a frágil e invisível teia, ninguém celebra quem fica. Ninguém recompensa o cuidado prolongado. Não há beleza reconhecida no rito do sustento diário das estruturas da teia.

Me resta esperar que, diferente da aranha que segue em ciclo fechado, eu ainda possa ter o meu balooning tardio. Porque, afinal, o texto não era sobre a aranha, mas sobre a observadora.
Continue lendo read_more
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Melhores do ano 2025

Escrevendo da cama onde me encontro chumbada com uma virose, pensei que resumir o que consumi hoje é um agora ou nunca, porque amanhã a vida volta a infeliz realidade de trabalho e rotina louca de afazeres. Com pouca enrolação e pouca coragem:

Melhores assistidos de 2025:


-A ordem é por assistidos, não por favoritos
-Nem todos foram lançados em 2024/2025
-Revistos não entram na lista


1. Flow (2024) - filme, animação, Bélgica.

Indicado e vencedor do Oscar de animação, me ganhou demais aquela arca de noé sem humanos.

2. Terra Estrangeira (1995) - filme, drama, Brasil.

Assisti uma considerável quantidade de filmes nacionais e esse foi o primeiro que me pegou me deixando viciada na música Vapor Barato pelo ano inteiro. E na Fernanda Torres, claro.

3. Conclave (2024) - filme, drama, EUA.

Também indicação de Oscar, Ralph Fiennes como um veio fofoqueiro em meio a escolha de um novo papa não tinha como dar errado. Pra mim, deu certo demais.

4. I'm not a robot (2023) - curta, drama, Bélgica.

Também dos indicados ao Oscar, esse curta me deixou com um medo real e contemporâneo: e se toda a nossa vida fosse uma mentira e a gente fosse um robô?

5. Wander to Wonder (2023) - curta, drama, Bélgica.

Outro curta também indicado ao Oscar me pega sobre o futuro dos personagens de quem cria quando quem os cria não pode mais criá-los.

6. A Lien (2023) - curta, drama, EUA.

Também curta, também indicado ao Oscar, sobre o pavor de construir sua vida em um país de merda como os EUA.

7. Instruments of a beating heart (2024) - curta, drama, Japão.

É um curta documentário, também indicado ao Oscar, que mostra uma garotinha ansiosa e nervosa no treinamento de um instrumento musical e no teste para a sua apresentação. Chorei mais do que era aceitável chorar querendo proteger aquela garotinha de toda a ansiedade que o mundo pode causar, mas que entendo como inevitável pra vida.

8. Fresh (2022) - filme, terror, suspense, EUA.

Esse me pegou desprevenida e caí na lábia do canibal bonitão tal qual a protagonista. Amei o humor, meu exato tipo de filme.

9. Parachute (2023) - filme, drama, EUA.

Também não esperava ser atingida por esse que fala sobre as consequências na vida e nas relações pessoais quando se trata de distúrbios alimentares. Tinha subestimado a Brittany Snow e amei que essa foi a estreia dela.

10. Dance Life (2024) - Reality, dança, Austrália

A rotina e aprendizado de dança de forma encantadora.

11. My Old ass (2024) - Filme, comédia, EUA.

Filme levinho com questionamentos femininos leves de acompanhar. Divertido.

12. Materialists (2025) - filme, drama, EUA.

Gosto muito em como a Celine Song leva suas histórias. Pode ser facilmente confundindo com uma comédia romântica, mas acho que consegue aprofundar um tanto mais os questionamentos.

13. Girls will be girls (2024) - filme, drama, Índia

Esse eu devo dizer que foi o meu favorito do ano. Gosto de histórias de amadurecimento, especialmente femininos, e toda a relação dela com distribuições de poder, relacionamento amoroso, familiar, amizades e sentimentos e descobertas foram, ao meu ver, mostrados de forma perfeita.

14. Breathe (2014) - filme, drama, suspense, França.

Aqui eu já tava na fase do ano em que tava rendida ao girlhood. Fui esperando uma bela amizade entre mulheres, o que aconteceu, mas não só isso. Fui impactada.

Em resumo, vi um total de 128 filmes/séries/realities, sendo esse os maiores destaques. Poderia até mencionar Yellowjackets como uma boa surpresa, mas acho que gostei mais da premissa que do desenvolvimento - também indo no aspecto girlhood da coisa. Nesse ano também consegui dar uma pluralizada nos assistidos, tendo 50 deles não sendo dos EUA. E só do Brasil foram 15 (considerando filmes, séries e realities). Também considero um número bacana os filmes dirigidos por mulher, foram 24 (número esse que espero aumentar). Foi um ano interessante.

Agora, pra livros a coisa foi mais intensa do que tinha planejado, porque pensei que não leria mais que uns 12. Mas, ó:

Melhores lidos de 2025:


-A ordem é por lidos, não por favoritos
-Nem todos foram lançados em 2024/2025
-Relidos não entram na lista


  1. Flicts (Ziraldo)
  2. Vidas Secas (Graciliano Ramos)
  3. A metamorfose (Kafka)
  4. Holocausto Brasileiro (Daniela Arbex)
  5. A cabeça do santo (Socorro Acioli)
  6. Paula (Isabel Allende)
  7. A redoma de vidro (Sylvia Plath)


Foram um total de 33 lidos, entre livros e HQ's com gêneros diversos, mas com destaque para clássicos. Apesar de ter gostado bastante das minhas leituras do ano, saio sem um grande favorito e um tanto sem norte pras próximas leituras.

Vou recomeçar a rotina e sentir ainda o que o corpo e o juízo querem pra metas e vamo lá 2026.
Continue lendo read_more