𝚃𝚑𝚎 𝚗𝚊𝚖𝚎 𝚘𝚏 𝚊𝚗 𝚎𝚡𝚝𝚒𝚗𝚌𝚝 𝚜𝚝𝚊𝚛 𝚎𝚌𝚑𝚘𝚎𝚜, 𝚌𝚛𝚎𝚊𝚝𝚎𝚜 𝚠𝚒𝚝𝚑 𝚜𝚒𝚕𝚎𝚗𝚌𝚎, 𝚜𝚑𝚊𝚍𝚘𝚠, 𝚊𝚗𝚍 𝚋𝚛𝚒𝚐𝚑𝚝𝚗𝚎𝚜𝚜.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

sobre leituras e a vida

 Originalmente escrito na madrugada insone e barulhenta de 08, fev de 2026

Num carnaval passado, primeiro ano de pandemia onde tudo era  esquisito, estava lendo "As águas-vivas não sabem de si" (Aline Valek) enquanto esperava meu pai ser atendido nos primeiros curativos diabéticos dele e um trecho do livro, sobre as águas-vivas se moverem como um corpo só e conta a história de uma delas, errante, que se separa do seu "corpo" comum e passa a ter vislumbres de independência e autonomia antes de morrer, me pegou bastante:

"Agora havia ela e o mundo, a separação entre duas coisas que talvez sempre tivessem sido distintas. Como não havia reparado naquilo antes? Fazer parte de uma coisa só a havia insensibilizado para a possibilidade de que fosse una, completa por si só, e que cada ser que flutuava ao seu redor também fosse protagonista da própria história - e veio a sensação de ter uma história só dela, uma emoção inédita e um tanto incompreensível para uma água-viva. (...) Descobriu com alguma infelicidade que ser um indivíduo era também ser pequeno e sentir medo o tempo inteiro. (...)
Um observador que visse aquela água-viva aos farrapos rolando pelas ondas já consideraria grandioso ela ter chegado até ali sem ter chamado a atenção de nenhum peixe (...) mas não julgaria que ela estava disposta a viver como nunca antes. Tinha-se percebido livre, tomada pela recém-adquirida consciência de si mesma, e que arrebatadora era essa sensação, mas também sentia a necessidade de descobrir mais, de sentir o mundo mais tempo por aquela perspectiva. De repente muito mais corajosa, ela moveu seus cílios o melhor que conseguiu para se manter longe de um paredão de corais que bem poderia colocar fim em sua viagem. Escolheu não parar ali. Queria ir além.
Mas, não, quem decidia era a água (...)"

Já sentia naquela altura que aquela prisão onde me encontrava, com meu pai começando a Odisseia de feridas diabéticas, tinha similaridades com a falta de autonomia da água-viva. Era de sua natureza. Parece ser da minha natureza.

Agora em 2026, novamente em prévias de carnaval, tava lendo A empregada (da Freida McFaden) e a parte que bateu na sensibilidade foi a violência psicológica que acontece com as personagens principais que são obrigadas a ficarem presas em um quarto e, na promessa de sair, escutam repetidamente a frase "você vai sair... mas não agora" e sinto a vida me colocando nesse mesmíssimo lugar aprisionado. Quando tudo parece que tem um jeito, uma brecha, um vislumbre de regularidade, volto ao quarto, peço misericordiamente para sair e a vida responde: "você vai sair... mas não agora".

No primeiro ainda consegui traçar um paralelo bonito. É um livro que sinto ter me marcado para toda vida. O A empregada não, achei ruim, clichê, fraco e me entristece que esse é o paralelo literário que consigo fazer no momento.

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Uma peça teatral onde tudo é dor

Originalmente escrito na madrugada insone e barulhenta de 09, fev de 2026 

    Todos os dias eu acordo e nada é definido, se é ruim ou menos ruim, se é suficientemente bom ou minimamente estável. Nada. 

Sigo olhando em volta e achando que todo mundo finge tranquilidade e serenidade muito bem e eu sou a péssima atriz no tablado. A sensação é essa: a de uma grande atuação. Como todo mundo aprendeu a estar acostumado tão rápido? 

 Hoje chegaram dois pacientes na na pior ala do hospital - chamado carinhosamente assim pelas enfermeiras-, e os acompanhantes se entreolharam cansados e sussurraram: hoje vai ser uma noite difícil. A anterior não tinha sido melhor, ainda que situações gerais tenham rendido risos (não meus, pois péssima atriz que sou e abalada pós colapso emocional, não conseguia esboçar o mínimo sorriso que fosse). Rir de pessoas perturbadas por distúrbios mentais me parecia fora de tom demais vendo a minha própria situação. Fiquei sem conseguir respirar, o corpo tremia como hipotermia, fui levada para o corredor pra me recuperar. E eu nem era paciente da sala de observação neuro, eu só era acompanhante de um paciente desorientado e delirante que segurou meu pulso com força e me olhou com um ódio que nunca tinha visto dele. Tive um dejàvu de 2 anos atrás quando, pós AVC, minha vó me direcionou a mesma raiva contida no olhar e o mesmo descontrole. 
Enfim. 

Um dos pacientes que chegou foi um rapaz que precisou ser totalmente amarrado à cama. Totalmente. Várias ataduras nos pulsos, nos tornozelos, joelhos e cotovelos. Ele se debatia numa violência que afastava a maca do lugar. Os olhares em volta eram de absoluto terror e cansaço. De um jeito circense, outros pacientes e acompanhantes o olhavam como a um monstro. 

A outra paciente já chegou gritando e gritando e gritando. Enfermeiras tentavam descobrir onde doía, mas pelo visto, tudo doía. A dor parecia vir de dentro e saiam pela boca estremecendo todo o lugar. Ela gritou por mais de 24h ininterruptas. Contadinhas de relógio. 

O cenário era o que outrora deveria ter sido uma enfermaria pacífica, na medida do possível, pois ainda sendo uma sala de observação neurológica, concentrava as pessoas recém perturbadas por acidentes mentais diversos e estavam ali em triagem para que pudessem evoluir para enfermarias específicas. Agora, além dos 10 leitos fixos, mais 10 macas foram enfiadas em duplas no meio da ala e cadeiras plásticas de acompanhantes ficavam no meio dos micro corredores formados. Ninguém parava sentado por muito tempo. Nenhum acompanhante ali tinha mais que 2h dormidas. 

E a peça se desenvolvia assim: enfermeiras correndo e empurrando quem tivesse no meio pra atender demandas urgentes - e todas as demandas eram urgentes: engasgo, fraldas cheias, medicações, dores, alimentação, sondas, banhos, curativos, mais fraldas, mais medicações, mais sondas, mais banhos. Às vezes no bom humor, trocando gracinhas entre si, outras no puro estresse, o que o contexto permitia. Os dois personagens recém chegados performavam dor e insanidade, insanidade e dor. Ela gritava, ele se agitava em resposta. E os espectadores-acompanhantes viraram as cadeiras e assistiam ao espetáculo em total torpor de horror. E se levantam cronometrados a enfermeiras que passavam correndo e empurrando para atender a demandas urgentes... 

O pior dessa peça, é que o fim só acontece pra quem sai, mas ela continua, com novos atores e novos espectadores por tempos e tempos e tempos... Me surpreende que mais ninguém ali tenha se juntando a mim no colapso.
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