𝚃𝚑𝚎 𝚗𝚊𝚖𝚎 𝚘𝚏 𝚊𝚗 𝚎𝚡𝚝𝚒𝚗𝚌𝚝 𝚜𝚝𝚊𝚛 𝚎𝚌𝚑𝚘𝚎𝚜, 𝚌𝚛𝚎𝚊𝚝𝚎𝚜 𝚠𝚒𝚝𝚑 𝚜𝚒𝚕𝚎𝚗𝚌𝚎, 𝚜𝚑𝚊𝚍𝚘𝚠, 𝚊𝚗𝚍 𝚋𝚛𝚒𝚐𝚑𝚝𝚗𝚎𝚜𝚜.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Enquanto o vento não vem

 Na correria de vida eu fui capturada pela existência de uma aranha. Eu particularmente gosto das aranhas de jardim. Acho o 'X' do formato delas bem característico e, sabendo que inofensivas, sempre considero um convite para me aproximar e vê-las de perto.

Há uns meses, uma aranha habitou a minha estante de livros. Resolvi tirá-la com um galho quando me deparei com um estabilamento e o confundi com ninho de crias e imaginei que minha estante seria tomada por filhotinhos. A coloquei fora pra seguir sua natureza. Mas pelos dias que ela ficou ali, me fazia companhia. Ela tecia a teia dela, eu crochetava os meus fios.

Alguns meses depois, encontrei outra alojada no centro de uma imensa teia no jardim de casa e suspirei: ali, sim, era o lugar dela.

Todos os dias antes de sair de casa pro trabalho, eu dava uma passada pra olhá-la, perceber detalhes, aprender uma coisa nova.

E descobri que ela se chama Argiope argentata, ou aranha-de-prata; Que é comum e inofensiva aos humanos. Que ajuda no controle de pragas e mosquitos. Que é uma excelente artesã e constrói teias de padrão único. Que os estabilamentos — as “estrelinhas” que eu havia visto antes —, apesar de não terem uma confirmação científica definitiva, são tidos como enfeites da teia. É a aranha romantizando o próprio espaço.

E percebi filhotes. E li sobre como eles são levados pelo vento. E percebi o minúsculo macho. E li que ele costuma ser devorado pela fêmea. E a vi diferente no passar dos dias. E descobri que ela estava nos seus últimos dias de vida porque cumpriu com o seu propósito de procriação. E senti uma tristeza funda.

Sabendo que seus dias eram poucos, passei a observá-la com ainda mais atenção. Li que, no início do fim, ela não fica para ver seus filhos crescerem. Eles partem levados pelo vento, num fenômeno chamado ballooning. Que, nas semanas seguintes, seu corpo perde o viço, fica opaco e ressecado. Que a teia começa a apresentar falhas que ela já não refaz diariamente. Que as pernas se tornam menos firmes. E que, em algum dos próximos dias, ela partirá — talvez presa ao centro da teia onde passou toda a vida, ou de qualquer outra forma irrelevante.

Mas esse não é diretamente um texto sobre aranha, pra usar aquela frase odiosa e clichê da internet.

Um dia, ela também foi um dos filhotes que flutuaram no ballooning e chegou até aqui, onde construiu sua casa, suas crias e o seu fim. A tristeza nasce do paralelo que faço com a minha própria vida: perdi a oportunidade do meu ballooning e construí uma teia que ainda me prende ao centro. Na última vez em que a observei, ao notar partes de seu corpo ressecadas, senti a secura do meu próprio corpo.

Sinto luto pelas minhas partes mortas, pelas minhas partes não vividas.

Ainda que o mamífero se diferencie do aracnídeo em ciclos teoricamente distintos, na prática eu não fui a aranha que nasceu, procriou e morreu como lhe era fadado, mas a aranha que não foi levada pelo vento porque precisou ficar. Porque alguém precisava ficar — e calhou de ser eu, a aranha artesã da vez.

Minhas partes ressecadas não são da velhice. Eu que no alto dos meus 36 deveria estar vivendo o melhor da vida, como acreditava, estou na velhice herdada. A que me foi dada pelo meu destino, pela minha classe social, pelo meu gênero, tal qual a aranha que não fugiu de sua natureza de morrer após procriar.

Sigo aqui tecendo diariamente estruturas que não foram criadas por mim, mas impostas a mim. E sigo nessa manutenção diária de vida porque, afinal, o que me resta senão continuar tecendo?

A tristeza dói com mais força nos dias em que, tal como a frágil e invisível teia, ninguém celebra quem fica. Ninguém recompensa o cuidado prolongado. Não há beleza reconhecida no rito do sustento diário das estruturas da teia.

Me resta esperar que, diferente da aranha que segue em ciclo fechado, eu ainda possa ter o meu balooning tardio. Porque, afinal, o texto não era sobre a aranha, mas sobre a observadora.
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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Melhores do ano 2025

Escrevendo da cama onde me encontro chumbada com uma virose, pensei que resumir o que consumi hoje é um agora ou nunca, porque amanhã a vida volta a infeliz realidade de trabalho e rotina louca de afazeres. Com pouca enrolação e pouca coragem:

Melhores assistidos de 2025:


-A ordem é por assistidos, não por favoritos
-Nem todos foram lançados em 2024/2025
-Revistos não entram na lista


1. Flow (2024) - filme, animação, Bélgica.

Indicado e vencedor do Oscar de animação, me ganhou demais aquela arca de noé sem humanos.

2. Terra Estrangeira (1995) - filme, drama, Brasil.

Assisti uma considerável quantidade de filmes nacionais e esse foi o primeiro que me pegou me deixando viciada na música Vapor Barato pelo ano inteiro. E na Fernanda Torres, claro.

3. Conclave (2024) - filme, drama, EUA.

Também indicação de Oscar, Ralph Fiennes como um veio fofoqueiro em meio a escolha de um novo papa não tinha como dar errado. Pra mim, deu certo demais.

4. I'm not a robot (2023) - curta, drama, Bélgica.

Também dos indicados ao Oscar, esse curta me deixou com um medo real e contemporâneo: e se toda a nossa vida fosse uma mentira e a gente fosse um robô?

5. Wander to Wonder (2023) - curta, drama, Bélgica.

Outro curta também indicado ao Oscar me pega sobre o futuro dos personagens de quem cria quando quem os cria não pode mais criá-los.

6. A Lien (2023) - curta, drama, EUA.

Também curta, também indicado ao Oscar, sobre o pavor de construir sua vida em um país de merda como os EUA.

7. Instruments of a beating heart (2024) - curta, drama, Japão.

É um curta documentário, também indicado ao Oscar, que mostra uma garotinha ansiosa e nervosa no treinamento de um instrumento musical e no teste para a sua apresentação. Chorei mais do que era aceitável chorar querendo proteger aquela garotinha de toda a ansiedade que o mundo pode causar, mas que entendo como inevitável pra vida.

8. Fresh (2022) - filme, terror, suspense, EUA.

Esse me pegou desprevenida e caí na lábia do canibal bonitão tal qual a protagonista. Amei o humor, meu exato tipo de filme.

9. Parachute (2023) - filme, drama, EUA.

Também não esperava ser atingida por esse que fala sobre as consequências na vida e nas relações pessoais quando se trata de distúrbios alimentares. Tinha subestimado a Brittany Snow e amei que essa foi a estreia dela.

10. Dance Life (2024) - Reality, dança, Austrália

A rotina e aprendizado de dança de forma encantadora.

11. My Old ass (2024) - Filme, comédia, EUA.

Filme levinho com questionamentos femininos leves de acompanhar. Divertido.

12. Materialists (2025) - filme, drama, EUA.

Gosto muito em como a Celine Song leva suas histórias. Pode ser facilmente confundindo com uma comédia romântica, mas acho que consegue aprofundar um tanto mais os questionamentos.

13. Girls will be girls (2024) - filme, drama, Índia

Esse eu devo dizer que foi o meu favorito do ano. Gosto de histórias de amadurecimento, especialmente femininos, e toda a relação dela com distribuições de poder, relacionamento amoroso, familiar, amizades e sentimentos e descobertas foram, ao meu ver, mostrados de forma perfeita.

14. Breathe (2014) - filme, drama, suspense, França.

Aqui eu já tava na fase do ano em que tava rendida ao girlhood. Fui esperando uma bela amizade entre mulheres, o que aconteceu, mas não só isso. Fui impactada.

Em resumo, vi um total de 128 filmes/séries/realities, sendo esse os maiores destaques. Poderia até mencionar Yellowjackets como uma boa surpresa, mas acho que gostei mais da premissa que do desenvolvimento - também indo no aspecto girlhood da coisa. Nesse ano também consegui dar uma pluralizada nos assistidos, tendo 50 deles não sendo dos EUA. E só do Brasil foram 15 (considerando filmes, séries e realities). Também considero um número bacana os filmes dirigidos por mulher, foram 24 (número esse que espero aumentar). Foi um ano interessante.

Agora, pra livros a coisa foi mais intensa do que tinha planejado, porque pensei que não leria mais que uns 12. Mas, ó:

Melhores lidos de 2025:


-A ordem é por lidos, não por favoritos
-Nem todos foram lançados em 2024/2025
-Relidos não entram na lista


  1. Flicts (Ziraldo)
  2. Vidas Secas (Graciliano Ramos)
  3. A metamorfose (Kafka)
  4. Holocausto Brasileiro (Daniela Arbex)
  5. A cabeça do santo (Socorro Acioli)
  6. Paula (Isabel Allende)
  7. A redoma de vidro (Sylvia Plath)


Foram um total de 33 lidos, entre livros e HQ's com gêneros diversos, mas com destaque para clássicos. Apesar de ter gostado bastante das minhas leituras do ano, saio sem um grande favorito e um tanto sem norte pras próximas leituras.

Vou recomeçar a rotina e sentir ainda o que o corpo e o juízo querem pra metas e vamo lá 2026.
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