Um fantasma está sentado no canto da sala. Não posso vê-lo, mas posso senti-lo se aproximar. Não que eu não goste da presença dele, mas há um incômodo com a sua presença. Sinto que estou sendo observada, que preciso dar atenção a ele. Na sua proximidade, eu sinto o gelo me invadir. Uma mistura de saudades, tristeza, apreensão. Tudo melhora quando ele vai embora. Mas ano que vem ele volta.
Esse fantasma é o meu aniversário.
Acho que já escrevi algumas muitas vezes sobre como eu sou assolada por um mix de emoções com a data. A primeira vez que senti ser invadida por uma tristeza imensa, foi quando meu pai sofreu um AVC e trouxe um medo que até então eu não conhecia, o de comemorar uma data com fatos tristes no entorno.
Bom, agora esse será o primeiro aniversário sem ele. 14 anos depois do episódio do AVC, 3 meses depois da morte. Pensei que pra quebrar o ciclo de tristeza, eu poderia retomar a data pra mim e comemorá-la com pessoas que gosto numa festinha caseira. Pensei, pensei e desisti. Tudo ainda parece muito intenso e eu ainda me sinto cheia de sentimentos dos quais não tenho o controle. Nada impede que amanhã eu queira chorar o dia inteiro, como geralmente acontece.
Talvez eu dê peso demais a uma data. Ou talvez ela tenha aprendido a carregar peso demais. Tento repetir para mim mesma que é só um aniversário. Vai passar. Vai passar.
Enquanto isso, sigo enchendo minha cabeça com tudo o que posso e por muitas vezes me sentido cheia demais a ponto de achar que não vou dar conta das coisas que escolhi fazer. Vou tentar relaxar a cabeça e organizar por onde meus interesses intensos tão me levando.