𝚃𝚑𝚎 𝚗𝚊𝚖𝚎 𝚘𝚏 𝚊𝚗 𝚎𝚡𝚝𝚒𝚗𝚌𝚝 𝚜𝚝𝚊𝚛 𝚎𝚌𝚑𝚘𝚎𝚜, 𝚌𝚛𝚎𝚊𝚝𝚎𝚜 𝚠𝚒𝚝𝚑 𝚜𝚒𝚕𝚎𝚗𝚌𝚎, 𝚜𝚑𝚊𝚍𝚘𝚠, 𝚊𝚗𝚍 𝚋𝚛𝚒𝚐𝚑𝚝𝚗𝚎𝚜𝚜.

quinta-feira, 21 de maio de 2026
Esse é um texto que ensaio há tempos escrever e provavelmente faltará palavras pra escrevê-lo como quero. A cabeça ainda segue enevoada e, bem, esse é pra falar sobre a tentativa de desenevoar. É sobre processo criativo e pausas mentais, sobre sair de telas, se voltar para o analógico, sobre explorar quereres, sobre abrir brechas pra outros interesses e abraçar pequenas coisas e imperfeições, sobre espalhar, ver, rever e produzir beleza ao redor, sobre tentar se sentir bem em meio ao caos, sobre romantizar sua vida.

Romantize sua vida como uma artista

Romantizar é um termo muito atribuído a coisas que se considera ruins, com alerta do perigo de relativizá-las possa causar um grande prejuízo. Isso porque o romântico, em uso comum, é usado para a preferência pela fantasia, pela emoção, pela imaginação, em detrimento da racionalidade. O deixar se encantar pela parte boa da coisa toda e se iludir de que é possível viver dentro de uma nuvem cor de rosa usando um arco-íris de ponte.

Mas amigues, pra vida prestar, é preciso uma grande dose de romance e todas as atribuições que vem com a prática.

Não sei como meus amigos racionais vivem com a vida difícil do jeito que é, mas eu que vejo as coisas de uma perspectiva dramática, eu preciso da distração, da fantasia, do entretenimento como item básico de sobrevivência.

Acho que uma das grandes lutas da minha vida é tentar conseguir o equilíbrio entre razão e emoção. Tenho muita dificuldade em lembrar de todos os compromissos que eu tenho no dia, na semana, no mês, no ano se eu não anotá-los ou fugir deles porque toda burocracia me assombra; Quando preciso ser física e mentalmente presente em alguma situação de conflito, sou drenada de toda reserva de energia que habita o meu corpo e a forma de repor essa energia é me voltar pro máximo de alienação que eu consiga ter naquele instante. Nem que seja olhar pro vazio por 5 minutinhos imaginando um ambiente, situação, companhia totalmente diferentes daqueles que me encontro no momento.

As últimas semanas (digo, os últimos anos, se for analisar direitinho) me forçaram a estar mais presentes numa realidade densa, cheia de problemas familiares e financeiros, doenças e morte. Me tirou o tino da minha capacidade de abstração da realidade. Que era excessiva, eu confesso, mas sair de um extremo pro outro, sem uma preparação do coração, não foi legal.

E me sinto dizendo um "venho por meio desta", em prol do bem-estar e equilíbrio mental dizer: Romantize sua vida, sim. Acenda aquela vela no seu banho, durante a sua leitura; bote um cheirinho bom enquanto você arruma casa; compre flores e enfeite sua mesa, sua estante, sua janela; Sinta o vento ou sol bater na cara, o cheiro da chuva; Faça um escalda-pés; Passe um óleo de banho, um hidratante cheiroso; Faça ou peça uma comida gostosa; Fale sem pressa com aquela pessoa que você gosta; Faça um caminho diferente; Convide um amigo pra sair; Dance e cante no banho (com cuidado pra não escorregar); Sinta as folhas secas se esmagando sob os seus pés; Pesquise um assunto que você gosta e se delicie com um conhecimento que só serve pra você; Assista as nuvens te apresentarem desenhos diferentes (ou os azulejos do banheiro); Comece um hobby novo.

Ou corte revistas, junte resto de embalagem e

Junk journal with me.
Esse é o típico hobby que vai vir alguém e perguntar: mas isso aí, hein, serve de que?


E a gente tenta não dizer que é pra comer cu de curioso, não, a gente responde que serve de nada além de esvaziar a mente, ocupar as mãos, preencher o coração, como qualquer outro hobby que, pra ser hobby, na minha concepção, tem que fazer bem primeiro a quem está a fazê-lo.

Mas o que é journal/journaling?
É a prática de usar um caderno ou espaço digital (como esse blog, aliás) para organizar ideias, seja por imagem ou escrita, com desenhos ou colagens, na categoria que quiser - Bullet journal (BuJo), junk journal, sketchbook, diário de viagem, álbum de fotos, grimório, scrapbook - ou tudo junto, o caderno é seu, se joga. Seja pra escrever diariamente, organizar sua vida em listas, organizar sua coleção de adesivos, colar cacarecos.

Eu, particularmente, tenho experiência com journals desde criança, que sempre fui estimulada pela minha mãe a escrever em pequenos diários e na adolescência quando migrei e comecei a explorar blogs, além da faculdade que me incentivou a manter sketchbooks diversos.

A minha obsessão atual, que ando precisando manter coisas que não me exijam um nível de pensamento profundo, tem sido explorar o junk journal.


Tem sido incrivelmente relaxante cortar papeis, achar padrões, criar padrões, organizando-os visualmente, ter ideias pra novas páginas, pensar em ideias de coisas mais elaboradas, querer ter mais contatos com técnicas analógicas, descobrir e experimentar novas coisas, mexer coisas com as mãos, relaxar o cérebro, voltar pros dias infantis de tempo dedicado a uma atividade prazerosa, fazer coisa bonita, ter dias bons e ver a vida por olhos mais apaziguadores.

Lendo sobre e vendo perfis de design, acabei absorvendo a ideia de que registrar junk é registrar memória gráfica. E eu sou designer gráfico, ô catapimbas (e das velhas). Registrar memória gráfica é uma das minhas tarefas de profissão. Seja numa página feita de colagens de marcas diversas recortadas de embalagens como testar uma nova composição com elementos diversos tirados de várias outras origens que puderam chegar às mãos.

Observar, cortar, compor, colar. Design e arte puros. Beleza em tudo. Romantização da vida.
Essa é a minha vibe atual e eu recomendo.
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terça-feira, 19 de maio de 2026

e eu não poderia me importar menos.




 As segundas-feiras na minha casa ficaram marcadas como o dia que recebemos uma péssima ligação, de quando tudo acabou e recomeçou. Desde então tudo mudou e nada mudou, o que é muito estranho. Não conseguimos desapegar da estranheza da nova realidade. É um vazio que ocupa um espaço imenso e não sabemos explicar a presença do nada.

Volta e meia me volta um texto da Superinteressante que li há uns 10 anos sobre como o nada, o vazio tem um peso imenso e todo o universo é feito de nada. Lembro que li fascinada, dessas coisas que agarram em você e lhe formam como pessoa.

Mas não era um texto sobre luto, era sobre o funcionamento do universo.

Num caminho pra casa, a minha playlist tocou Before we drift away (NBT) e fiquei remoendo a letra com a exata sensação de saber sobre o que a música fala, de tomá-la pra mim:

I wonder where I float to when I return to dust?
A sea to wash away the last of us
It's such a funny feeling, the world's at war again
But in this very moment
Oh, it couldn't matter less

A sensação de "O mundo estar em guerra novamente e eu não poderia me importar menos" batendo fortemente.

Tenho dívidas e eu não poderia me importar menos.

É ano de copa do mundo e eu não poderia me importar menos.

Eleições presidenciais e eu não poderia me importar menos.

Qualquer pessoa e qualquer que seja sua pauta e eu não poderia me importar menos.

Alguém não gostar de mim pelo motivo que seja e eu não poderia me importar menos.

O mundo estar em guerra e acabando e eu não poderia me importar menos.

Perdão, mas isso tá na conta do luto.

And as we sing this familiar song, I thought I'm gonna miss your love when it's gone...


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terça-feira, 12 de maio de 2026

Eu sou uma fraude

É a sensação constante da vida nas últimas semanas.
Me sentindo incapaz pra todas as coisas que as pessoas acham que eu poderia fazer.

O último ano de idas mais frequentes a hospitais me mostrou que sou capaz de uma memorização e organização que não achava serem possíveis. Especialmente nessa última estadia, todos os dias eu era capaz de armazenar e processar informações, no que chamávamos de boletins, de uma forma que as pessoas destacavam demais, que os médicos me diziam que eu parecia e deveria seguir a área da saúde. Mexeu, sinto, um tanto com o ego. Vai ver aquele ego famoso do artista que precisa ser elogiado e etc e, dentre tristezas e incapacidade de normalidade, às vezes, o meu dia era feito de elogios à minha organização comunicacional.


Agora acabou, né? Volto pra minha vida onde esse lado útil de armazenamento de informações não serve de mais nada. 

E aí preciso voltar a reorganizar a vida, a voltar a fazer minhas coisas, a pensar no meu futuro como sempre reclamei que estava incapacitada. 
E aí travo. 
Não sei quando tem que ser ser o start de normalidade pós-luto, por quanto tempo posso me permitir seguir como se tivesse fora da vida palpável que aperta, cobra e passa tão rápido que nem se sente.

Eu deveria abrir minha loja, realizar os pedidos acumulados, criar ideias de produtos únicos, tirar minha CNH, reformar uma parte da casa, reorganizar as coisas acumuladas, tocar minha vida como uma adulta funcional, marcar aquela saída, usar os vouchers de cinema antes que vençam, mas só quero ficar na minha cama assistindo série repetida, lendo romance questionável e picotando e colando papel.

Não sei mais desenhar, formular uma frase inteligente, pensar em algo minimamente inovador. Voltei a minha fase fraude onde reclamar não cabe mais e também não sei agir. Talvez seja só a presença do luto ou da depressão à espreita, colando um adesivo no meu peito: FRAUDE, FRAUDE, FRAUDE.


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terça-feira, 5 de maio de 2026

do lado de dentro do adeus

CW: luto, morte, doença, tristeza.



E já se vão duas semanas que, ali perto de meio dia eu recebi a notícia de que meu pai tinha morrido.

Eu receei muito pelo momento da notícia, mas a minha reação de quando fui avisada que precisava ir urgente ao hospital foi de que, a partir dali, não tinha mais urgência, então terminei de comer o meu almoço de shopping sem afobação, chamei o uber, enfrentei a chuva que tinha evitado um pouco antes e fui pra casa. A palavra "acabou" ganhou um tom diferente pra mim desde esse dia.

Eu não sei explicar como me sinto depois. É como se não conseguisse unir "meu pai morreu" com a realidade do que aconteceu. No peso de um pai. Ainda não consigo. Ainda não entendo.

Minha convivência com meu pai nos últimos anos ganhou camadas de turbulência. Eu tive dificuldades imensas de entender que ele tava mudando, que tava se tornando outra pessoa enquanto se tornava idoso, que poderia ter condições mentais/emocionais que nunca chegaremos a descobrir e que isso mudou toda a nossa relação. Eu, que era apaixonada por ele quando criança, que assistia todos os filmes de luta e faroeste e me recusava a dormir enquanto ele não fosse e, quando dormia ainda assim, ele me levava nos braços pra cama, não entendia como aquela pessoa nos últimos anos não existia mais.
Aquele que nunca me castigava e, na única vez que me deu um tapa por perder a paciência por uma birra minha, me deixou tão chocada que eu tive uma crise de choro tão dolorida que o deixei cheio de remorso e minha mãe me consolou no meu desespero. Uma das minhas crises de choro de dor real que lembro até hoje. Aquela pessoa que, em uma outra crise nervosa, mas já no primeiro ano de faculdade, me abraçou e deixou eu chorar molhando todo o peito dele. Que temia que tentava me ajudar na minha ansiedade social querendo me acompanhar na primeira entrevista de emprego e que, quando fui recenseadora do IBGE e me jogaram em lugares inóspitos, temeu pela minha segurança e fez comigo todo o percurso do Censo. E pelos 8 anos longos e ansiosos de faculdade, me buscava e me esperava pra ir pra casa todos os dias. A essa altura, uma distância já existia e caminhávamos pra casa em silêncio. Mas ali, algumas muitas vezes de braços dados, caminhando em passadas iguais. 

Então quem era aquela pessoa que nos últimos anos de curativos infinitos e internações, se portava com uma teimosia irresponsável, aparentemente lúcida, que nos tirava de tino? Que ignorava todos os nossos conselhos? Que nos desgastava emocionalmente com um silêncio perturbador? Que apertou meu braço com um ódio, aqui já em desorientação, na internação do hospital, me levando novamente a um estado de choque e desespero que foi difícil de controlar? Quando o vi delirar, senti a solidão se expandir e nos dois meses seguintes que mal falava comigo, me fez sofrer de abandono. Provavelmente, ele também se sentia abandonado, pelas vezes que pedia socorro e pedia ajuda, que pedia pra ir pra casa, que pedia pra ir pra casa da mãe. Uma ajuda que eu não podia mais dar, não era alcançável a mim.

No dia que precisei voltar a trabalhar quando ele tava no hospital e o deixei com outra pessoa, havia uma perspectiva de alta. Ele ficou rancoroso, se recusou a tomar banho, a se virar, respondia mal a todo mundo... e piorou. Pro espanto de todo mundo, ele não parecia feliz, pelo contrário. Broncoaspirou no dia seguinte e rebaixou. Rebaixou muito. Só dormia e, quando acordava, ficou ainda mais em silêncio, se é que era possível.

Eu não queria assumir pra mim que a nova rotina de sair do hospital durante o dia era cansativa, mas libertadora. Queria não me entender egoísta, mas me sentia imensamente egoísta por não ter abandonado meu emprego, por não ter deixado tudo pra estar lá e não conseguir mais acompanhar os boletins diários médicos porque não estava presente como antes. Também me sentia egoísta pelas coisas que levava pra lá pra me distrair. Como eu podia me distrair, querer me sentir minimamente bem estando naquele ambiente? Naquela situação? Eu ouvia que eu tinha de cuidar de mim o tempo todo e eu sabia disso, eu também acreditava nisso, mas o sentimento de que nada daquilo deveria ser sobre mim, que deveria ser sobre cuidado e abnegação era muito mais forte.

Mas eu voltava não querendo mais estar ali, mesmo sem ver perspectiva de melhora. Eram contas que não se encaixavam. Eu, sinto dizer, queria mais uma rotina de normalidade a todo custo, ansiava por um pouco de normalidade. Precisava voltar a ser eu, a ter minha vida, minhas próprias tristezas e dores. E temia que ele viesse a falecer na minha presença. As vezes que quebrei e chorei muito passaram muito perto de uma morte e sempre que eu saía de manhã e ele tava razoavelmente estável, pensava, "não foi comigo" e sentia um alívio.

Não era sobre mim, mas eu não queria mais estar presente.

Aí ele foi pra sala vermelha. Nesse dia, passei a tarde ansiosa pela ligação médica, mas no trabalho e fingindo normalidade. Nem eu entendia a minha calma, mas suspeito que por um alívio de não ser a pessoa que estava com ele quando ele piorou sendo levado na urgência.
No dia que o visitei sozinha na sala vermelha, eu tava tranquila, mais tranquila do que nas vezes que o visitei na UTI com esperanças de uma melhora real. Na sala vermelha, eu já sabia que não existia mais essa possibilidade, como o médico me disse. Ele já estava em tanto sofrimento, que toda possibilidade de reversão de quadro só causaria mais sofrimento.

Eu não aguentava mais aquele ambiente. Ele, tampouco.
 
No dia seguinte, o visitei com a minha mãe e ele já tava com um aspecto horrível, naquele lugar horrível. Não tem como alguém melhorar num lugar daquele. No meu coração, eu me despedi ali. Eu abri um dos olhos dele, o outro tava muito inchado, ele olhou pra mim, pra minha mãe e foi a última vez que eu vi o olho dele aberto. Quando era criança eu achava a cor do olho dele a coisa mais linda do mundo. Ver aquela janela sendo aberta por mim, porque nem tinha mais forças por si, me quebrou. Eu tinha medo de voltar nos dias seguintes e ver o corpo dele se deteriorar mais e mais.

Meu irmão tava pra chegar no dia seguinte e chegou em cima da hora de ir visitá-lo. Ali, no meu coração eu sabia que, se ele não tivesse ido, eu não teria mais forças e pelo visto ele só tava esperando meu irmão chegar. Ele arranjou força, abriu os olhos, tentou falar algo, olhou pra eles até eles saírem. Minha mãe conta que se arrepende muito de não ter voltado. Mas eu acho que foi o jeito dele se despedir. Eu tive muitas vezes, de fevereiro a abril, pra vê-lo, pra ele me retornar o olhar. A despedida dele da minha mãe e do meu irmão foi por olhar também.

Eu nunca tinha passado pelo ritual de morte familiar. Todas as vezes, eu fugi. Até que fui no enterro da mãe de uma amiga e, sinto, aquele dia mudou minha concepção de morte, cuidado, relação familiar e maturidade pra sempre. Essa mesma amiga segurou minha mão todo o percurso do velório ao enterro do meu pai e me abraçou o tempo todo num gesto que eu nunca poderei esquecer nem agradecer o suficiente.



Os dias seguintes vem sido de uma névoa, um alívio pela volta da normalidade, mas à espera de quanto tudo vai voltar a ficar muito ruim novamente. Ainda não sei o que fazer, ao certo, com meu novo tempo adquirido e tenho jogado todos os meus comportamentos esquisitos, minha impaciência, minha fuga de burocracias e responsabilidades na conta do luto. As pessoas me perguntam como eu tô, mas não sei responder. Elas me falam que é fase, que vai passar, que vai virar saudade, mas já virou. Me falam sobre as fases do luto, mas não vejo alívio como uma delas. O que me confunde porque,  nesses 36 anos, eu tive um excelente pai presente com ótimas memórias e sentir alívio não me parece coerente com o que deveria sentir. 

As vezes, vem crises de choro, de um sentimento que não sei explicar, que é novo pra mim e não sei dar nome. Vai ver seja luto mesmo, como é, eu só nunca senti antes pra saber, na prática que é assim.






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