𝚃𝚑𝚎 𝚗𝚊𝚖𝚎 𝚘𝚏 𝚊𝚗 𝚎𝚡𝚝𝚒𝚗𝚌𝚝 𝚜𝚝𝚊𝚛 𝚎𝚌𝚑𝚘𝚎𝚜, 𝚌𝚛𝚎𝚊𝚝𝚎𝚜 𝚠𝚒𝚝𝚑 𝚜𝚒𝚕𝚎𝚗𝚌𝚎, 𝚜𝚑𝚊𝚍𝚘𝚠, 𝚊𝚗𝚍 𝚋𝚛𝚒𝚐𝚑𝚝𝚗𝚎𝚜𝚜.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

BEDA | O que fazemos com a ausência

CW: Cita morte, luto. 

Quando ocorreu o último Oscar eu estava no olho do furacão. Eu, que não sou de festas, trato o Oscar como o meu Carnaval. Todos os anos faço maratona dos indicados e tem todo um ritual de acompanhamento do evento. Neste não consegui por estar em hospital.

Aos poucos venho vendo os filmes que perdi na época e dois deles me falaram bastante que eu deveria ver com cuidado, pois situações similares. Um foi o If I Had Legs I’d Kick You, que fala sobre uma mãe sobrecarregada com os cuidados médicos da filha e, em situação extrema, pira e taca o foda-se pra tudo. 

Confesso que esse não me pegou tanto assim. Vai ver, mesmo estando em um extremo cansaço ao cuidar de três idosos em graus diferentes de dependência e doenças, não consegui me comover tanto assim com a história, com os personagens, com as atitudes.

Até pensei, na época que vi, que a gente que vive em situações de privação do próprio tempo por cuidado aos outros acaba caindo na armadilha da comparação e é preciso muita força pra não se deixar levar por um campeonato de sofrimento. E não é só questão de querer, de ter consciência, tem muito sentimento envolvido.

Já o outro filme eu peguei pra ver nesse fim de semana, o Hamnet. Me disseram que eu, chorona que sou, iria me desfazer em lágrimas vendo esse. E, confesso, rolou uma choradinha, mas não, não me desfiz.

Mas no caminho pro trabalho vim matutando sobre as similaridades de situações que envolvem o luto. Porque, o filme parte da perda de um filho e da forma como essa dor ecoa na criação de Hamlet.

Devo avisar que a partir daqui há spoilers.

Na história, a mãe acompanha a doença, o agonizar final, a morte, enfim, de um filho. E, enquanto pessoa que acompanhou os últimos dias do meu pai, ainda que não o momento da morte, mas o sofrimento agonizante - e aqui evitarei gerar imagens mentais gráficas - senti uma dor muito particular e revolta por quem deveria estar ali comigo e não estava. É uma solidão que causa dor física.
As pessoas me repetiam o mesmo que repetiam pra Agnes, sobre ela ter feito tudo o que podia, mas não era isso que eu queria ouvir, eu queria não ter estado sozinha pra tanto. E a culpa que ela atribuiu ao William, seu marido, de não ter estado presente, foi algo que, não diretamente, também atribuí ao meu irmão.

Das muitas vezes que ele chegou perto de morrer na minha frente, eu estive só. E tive raiva, revolta, tristeza, medo.

Por um ano, Agnes afastou o marido e todo o seu sucesso enquanto dramaturgo em Londres. Até descobrir que ele não lançaria uma comédia, mas um drama com nome similar ao do filho. Então ela vai até lá pra ver pessoalmente a peça, onde o filho estaria encaixado, como o marido usaria o nome do filho.

Em algum momento, minha cunhada me falou o quanto o meu irmão estava sofrendo. Das crises de choro, do sentimento de culpa em me deixar só, em não poder estar presente por morar em outro estado, por não poder fazer mais.

Agnes percebe que William colocou todo o seu amor e despedida por seu filho na peça. Foi o jeito dele de canalizar as emoções e demonstrar que a falta dele ressoava presença de outra forma.

No dia da morte, velório e enterro, meu irmão veio, fez as últimas visitas, cuidou de toda papelada, transporte, burocracia, o que tivesse que ser feito e vi nesse ato o seu Hamlet.

Não foi um filme que me acabei de chorar, como foi previsto, mas entendi o porquê fui alertada de vê-lo com cuidado. Mais uma vez a arte abraçando e explicando os sentimentos confusos que perpassam a mente, salvando a alma, aliviando o coração.

***

É um tanto impossível não voltar a temáticas de luto quando tudo lembra o meu pai. Então, listo pequenas coisas que tenho feito e percebido pra sentir pequenas alegrias:

- O céu cinzento, a chuva constante, o vento gelado. Eu amo agosto. As pessoas são normalmente contagiadas com alegria por dias de sol, eu sou o contrário. Amo sentir frio, me agasalhar, luz amena, recolhimento. Me sinto genuinamente feliz.

Amo essa vista.


- Terminar um desenho e gostar dele. 

- Primeira mordida de algo gostoso. 

- Viciar em um livro.

- Ouvir música após um brownie mágico (ver música, gostoso demais).

- Conversar por horas sobre um assunto que não tem fim.

- Receber mimos mensais (assinaturas da TAG e da revista SuperInteressante).

- Cacarecos.

- Organizar coisas em listas.

- Passar na sessão de papelaria e encontrar pequenos tesouros.

- Café das 17h com minha mãe aos sábados.

- Domingos de manhã na cama.

A arte ajuda a organizar a dor e o resto eu vou anotando em listas.

Esse post faz parte da seleção mensal da comunidade de blogagem coletiva ENTREBLOGS, criada com o intuito de compartilhar nossas perspectivas sobre os mesmos assuntos. Esse é um tema de agosto (BEDA 2026 - Guardiões da Blogosfera) E é possível ler o que a galera anda escrevendo por aqui.

4 comentários:

  1. Caramba, meu marido fazia a mesma coisa há uns anos com o Oscar. Rolava até bolão com o pai e irmãos dele… eu faz tempo que não consigo acompanhar então a gente sempre assiste uns dois filmes e olhe lá…rs

    E o “se tivesse pernas te chutava” eu tô muuuito a fim de ver, inclusive esqueci de anotar pra algum fim de semana próximo. Não sei o que vou achar mas eu vi “Tully” nessa temática de cuidados e maternidade e gostei bastante..

    E viva sim ao máximo as coisas da sua lista. É preciso procurar essas pequenas felicidades pra gente se lembrar que a gente ainda está aqui e merece cuidado também <3

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    1. Ah, os últimos anos foram tão atribulados que nem dos bolões participo, mas já participei demais ahahaha
      Antigamente eu costumava zerar as listas das indicações, hoje é impossível.

      Eu acho que vale a pena demais ver! Lembro que gostei bastante de Tully quando vi! Charlize é muito mestra de transformação, muito convincente.

      Sim :')
      Brigada!! <3

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  2. O luto e todos os sentimentos que vem com ele, são de quebrar qualquer pessoa. Sinto muito 💔
    Gostei muito da sua lista... o dia que vem a caixinha da TAG é empolgante demais. Eu encerrei minha assinatura tem mais de um ano, mas minha cabeça ainda continua esperando as caixinhas hahaha

    Abraço
    https://falacatarina.com/blog/

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    1. Obrigada <3
      Ainda tenho tanto pra sentir, é realmente um dia por vez como não canso de repetir pra mim.

      Eu ia encerrar esse ano, mas confesso que fiquei dependente de receber caixinha mensal e renovei por mais um, me dei de presente de aniversário hahahah

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