𝚃𝚑𝚎 𝚗𝚊𝚖𝚎 𝚘𝚏 𝚊𝚗 𝚎𝚡𝚝𝚒𝚗𝚌𝚝 𝚜𝚝𝚊𝚛 𝚎𝚌𝚑𝚘𝚎𝚜, 𝚌𝚛𝚎𝚊𝚝𝚎𝚜 𝚠𝚒𝚝𝚑 𝚜𝚒𝚕𝚎𝚗𝚌𝚎, 𝚜𝚑𝚊𝚍𝚘𝚠, 𝚊𝚗𝚍 𝚋𝚛𝚒𝚐𝚑𝚝𝚗𝚎𝚜𝚜.

terça-feira, 5 de maio de 2026

do lado de dentro do adeus

CW: luto, morte, doença, tristeza.



E já se vão duas semanas que, ali perto de meio dia eu recebi a notícia de que meu pai tinha morrido.

Eu receei muito pelo momento da notícia, mas a minha reação de quando fui avisada que precisava ir urgente ao hospital foi de que, a partir dali, não tinha mais urgência, então terminei de comer o meu almoço de shopping sem afobação, chamei o uber, enfrentei a chuva que tinha evitado um pouco antes e fui pra casa. A palavra "acabou" ganhou um tom diferente pra mim desde esse dia.

Eu não sei explicar como me sinto depois. É como se não conseguisse unir "meu pai morreu" com a realidade do que aconteceu. No peso de um pai. Ainda não consigo. Ainda não entendo.

Minha convivência com meu pai nos últimos anos ganhou camadas de turbulência. Eu tive dificuldades imensas de entender que ele tava mudando, que tava se tornando outra pessoa enquanto se tornava idoso, que poderia ter condições mentais/emocionais que nunca chegaremos a descobrir e que isso mudou toda a nossa relação. Eu, que era apaixonada por ele quando criança, que assistia todos os filmes de luta e faroeste e me recusava a dormir enquanto ele não fosse e, quando dormia ainda assim, ele me levava nos braços pra cama, não entendia como aquela pessoa nos últimos anos não existia mais.
Aquele que nunca me castigava e, na única vez que me deu um tapa por perder a paciência por uma birra minha, me deixou tão chocada que eu tive uma crise de choro tão dolorida que o deixei cheio de remorso e minha mãe me consolou no meu desespero. Uma das minhas crises de choro de dor real que lembro até hoje. Aquela pessoa que, em uma outra crise nervosa, mas já no primeiro ano de faculdade, me abraçou e deixou eu chorar molhando todo o peito dele. Que temia que tentava me ajudar na minha ansiedade social querendo me acompanhar na primeira entrevista de emprego e que, quando fui recenseadora do IBGE e me jogaram em lugares inóspitos, temeu pela minha segurança e fez comigo todo o percurso do Censo. E pelos 8 anos longos e ansiosos de faculdade, me buscava e me esperava pra ir pra casa todos os dias. A essa altura, uma distância já existia e caminhávamos pra casa em silêncio. Mas ali, algumas muitas vezes de braços dados, caminhando em passadas iguais. 

Então quem era aquela pessoa que nos últimos anos de curativos infinitos e internações, se portava com uma teimosia irresponsável, aparentemente lúcida, que nos tirava de tino? Que ignorava todos os nossos conselhos? Que nos desgastava emocionalmente com um silêncio perturbador? Que apertou meu braço com um ódio, aqui já em desorientação, na internação do hospital, me levando novamente a um estado de choque e desespero que foi difícil de controlar? Quando o vi delirar, senti a solidão se expandir e nos dois meses seguintes que mal falava comigo, me fez sofrer de abandono. Provavelmente, ele também se sentia abandonado, pelas vezes que pedia socorro e pedia ajuda, que pedia pra ir pra casa, que pedia pra ir pra casa da mãe. Uma ajuda que eu não podia mais dar, não era alcançável a mim.

No dia que precisei voltar a trabalhar quando ele tava no hospital e o deixei com outra pessoa, havia uma perspectiva de alta. Ele ficou rancoroso, se recusou a tomar banho, a se virar, respondia mal a todo mundo... e piorou. Pro espanto de todo mundo, ele não parecia feliz, pelo contrário. Broncoaspirou no dia seguinte e rebaixou. Rebaixou muito. Só dormia e, quando acordava, ficou ainda mais em silêncio, se é que era possível.

Eu não queria assumir pra mim que a nova rotina de sair do hospital durante o dia era cansativa, mas libertadora. Queria não me entender egoísta, mas me sentia imensamente egoísta por não ter abandonado meu emprego, por não ter deixado tudo pra estar lá e não conseguir mais acompanhar os boletins diários médicos porque não estava presente como antes. Também me sentia egoísta pelas coisas que levava pra lá pra me distrair. Como eu podia me distrair, querer me sentir minimamente bem estando naquele ambiente? Naquela situação? Eu ouvia que eu tinha de cuidar de mim o tempo todo e eu sabia disso, eu também acreditava nisso, mas o sentimento de que nada daquilo deveria ser sobre mim, que deveria ser sobre cuidado e abnegação era muito mais forte.

Mas eu voltava não querendo mais estar ali, mesmo sem ver perspectiva de melhora. Eram contas que não se encaixavam. Eu, sinto dizer, queria mais uma rotina de normalidade a todo custo, ansiava por um pouco de normalidade. Precisava voltar a ser eu, a ter minha vida, minhas próprias tristezas e dores. E temia que ele viesse a falecer na minha presença. As vezes que quebrei e chorei muito passaram muito perto de uma morte e sempre que eu saía de manhã e ele tava razoavelmente estável, pensava, "não foi comigo" e sentia um alívio.

Não era sobre mim, mas eu não queria mais estar presente.

Aí ele foi pra sala vermelha. Nesse dia, passei a tarde ansiosa pela ligação médica, mas no trabalho e fingindo normalidade. Nem eu entendia a minha calma, mas suspeito que por um alívio de não ser a pessoa que estava com ele quando ele piorou sendo levado na urgência.
No dia que o visitei sozinha na sala vermelha, eu tava tranquila, mais tranquila do que nas vezes que o visitei na UTI com esperanças de uma melhora real. Na sala vermelha, eu já sabia que não existia mais essa possibilidade, como o médico me disse. Ele já estava em tanto sofrimento, que toda possibilidade de reversão de quadro só causaria mais sofrimento.

Eu não aguentava mais aquele ambiente. Ele, tampouco.
 
No dia seguinte, o visitei com a minha mãe e ele já tava com um aspecto horrível, naquele lugar horrível. Não tem como alguém melhorar num lugar daquele. No meu coração, eu me despedi ali. Eu abri um dos olhos dele, o outro tava muito inchado, ele olhou pra mim, pra minha mãe e foi a última vez que eu vi o olho dele aberto. Quando era criança eu achava a cor do olho dele a coisa mais linda do mundo. Ver aquela janela sendo aberta por mim, porque nem tinha mais forças por si, me quebrou. Eu tinha medo de voltar nos dias seguintes e ver o corpo dele se deteriorar mais e mais.

Meu irmão tava pra chegar no dia seguinte e chegou em cima da hora de ir visitá-lo. Ali, no meu coração eu sabia que, se ele não tivesse ido, eu não teria mais forças e pelo visto ele só tava esperando meu irmão chegar. Ele arranjou força, abriu os olhos, tentou falar algo, olhou pra eles até eles saírem. Minha mãe conta que se arrepende muito de não ter voltado. Mas eu acho que foi o jeito dele se despedir. Eu tive muitas vezes, de fevereiro a abril, pra vê-lo, pra ele me retornar o olhar. A despedida dele da minha mãe e do meu irmão foi por olhar também.

Eu nunca tinha passado pelo ritual de morte familiar. Todas as vezes, eu fugi. Até que fui no enterro da mãe de uma amiga e, sinto, aquele dia mudou minha concepção de morte, cuidado, relação familiar e maturidade pra sempre. Essa mesma amiga segurou minha mão todo o percurso do velório ao enterro do meu pai e me abraçou o tempo todo num gesto que eu nunca poderei esquecer nem agradecer o suficiente.



Os dias seguintes vem sido de uma névoa, um alívio pela volta da normalidade, mas à espera de quanto tudo vai voltar a ficar muito ruim novamente. Ainda não sei o que fazer, ao certo, com meu novo tempo adquirido e tenho jogado todos os meus comportamentos esquisitos, minha impaciência, minha fuga de burocracias e responsabilidades na conta do luto. As pessoas me perguntam como eu tô, mas não sei responder. Elas me falam que é fase, que vai passar, que vai virar saudade, mas já virou. Me falam sobre as fases do luto, mas não vejo alívio como uma delas. O que me confunde porque,  nesses 36 anos, eu tive um excelente pai presente com ótimas memórias e sentir alívio não me parece coerente com o que deveria sentir. 

As vezes, vem crises de choro, de um sentimento que não sei explicar, que é novo pra mim e não sei dar nome. Vai ver seja luto mesmo, como é, eu só nunca senti antes pra saber, na prática que é assim.






2 comentários:

  1. Só pra te dizer que o alívio faz parte sim, após tantos dias que pareciam pesadelos. Alívio pelo medo que tu carregou de que tudo acontecesse na tua presença. E alívio pelo descanso que no final pareceu e foi sim a melhor saída. Te amo e estarei sempre do teu lado.

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