𝚃𝚑𝚎 𝚗𝚊𝚖𝚎 𝚘𝚏 𝚊𝚗 𝚎𝚡𝚝𝚒𝚗𝚌𝚝 𝚜𝚝𝚊𝚛 𝚎𝚌𝚑𝚘𝚎𝚜, 𝚌𝚛𝚎𝚊𝚝𝚎𝚜 𝚠𝚒𝚝𝚑 𝚜𝚒𝚕𝚎𝚗𝚌𝚎, 𝚜𝚑𝚊𝚍𝚘𝚠, 𝚊𝚗𝚍 𝚋𝚛𝚒𝚐𝚑𝚝𝚗𝚎𝚜𝚜.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Meu pai não me salvaria num apocalipse zumbi

Um dos filmes que vi esse fim de semana foi 'Train to Busan' (2016) que seria mais um filme de zumbis se não fosse o viés de explorar relações familiares. Acompanhamos uma pequena aniversariante de 8 anos que mora com o pai e a vó, o pai distante pelo excesso de trabalho e, triste, ela insiste em passar o aniversário com a mãe em Busan. Eis que um temido-por-todos apocalipse zumbi acontece bem quando eles estão no trem a caminho.

O pai vai recebendo lições ao longo da viagem que o faz perceber que a escolha dele de se priorizar, de exercer o egoísmo como uma ferramenta de conquista do sucesso financeiro e profissional, o fez perder em relação mais do que ganhar. Afinal, se separa da esposa, entristece a filha, vive em prol de trabalho. E, chamado a atenção pela filha, entende com custo de que em momentos de caos, ou há uma união pelo todo ou não há salvação pra ninguém.

Assistindo o filme e pensando na minha vida nos últimos anos, percebendo os principais pontos de conflito no meu núcleo principal familiar, cheguei na péssima constatação de que: meu pai não me salvaria num apocalipse zumbi.

Eu sinto que ele estaria entre os personagens que entram num vagão e impedem outros de se salvarem. Que se só houvesse espaço pra um, seria dele. Se tivesse que me jogar pra uma horda de zumbis me atacar, ele não pensaria duas vezes.

Porque, afinal, de todos os sacrifícios que fiz pelo bem dele, a forma de retribuição não vem nem em um simples "obrigado", ou nem na percepção de que reconhecer que eu, enquanto filha, sinto dor, cansaço, tristeza, desânimo, que preciso de um tempo, que preciso de espaço, preciso de distância. Que não sou uma mera existência pra servir.

É cruel, talvez, pensar assim. Mas estando no estágio da nossa trajetória atual, depois de nossas discussões e assistindo todas as omissões dele, me vem mais a certeza de que não, ele não me salvaria. Ele não pararia pra pensar em se sacrificar pra me salvar e, ainda digo mais, ele seria como um dos personagens que, quando se vê infectado, não se importaria em me infectar também.

Espero, com uma esperança ínfima, estar errada.

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domingo, 27 de julho de 2025

Ponderação de meio de ano [lado A]

CW: amputação de membro, histórias emotivas, feridas

Em janeiro escrevi:

Além dos 9 livros, vi uns 15 filmes. A ansiedade fica na fresta da porta sussurrando: vai, lê enquanto dá. Assiste enquanto dá. Tudo isso vai mudar em breve. Tô medicada, mas os períodos de hospital me assustaram e traumatizaram mais do que consigo mensurar. O que não imaginava era voltar pro hospital tão cedo.


Não que eu não imagine que a situação da minha vó possa mudar a qualquer momento, já que acamada, ainda que razoavelmente bem. O que não esperava era uma outra amputação tão cedo. Fui inocente, confesso. Ou talvez não inocente, mas ignorante sobre a extensão da doença. Até que fiquei sabendo e percebi que lá se iam muitos dos planos que tinha cogitado pra esse ano, pra mim.

Dessa vez eu fiz tudo certinho ou tão certinho quanto eu pude pagar. Dessa vez, tive regalias e escolhas: escolhemos o dia de ir, programamos o que levar pra uma longa estadia, preparamos a nossa mente pro que vinha pela frente. Mas não, nada prepara. E olha que me disseram que dessa vez ia ser menos traumático. Tão fácil falar.

Numa última tentativa de não passar por uma longa internação e amputação, recorremos a uma enfermeira particular que nos mandou a real e recomendou uma vascular. Corremos pra vascular já com peso no coração, porque a enfermeira citada cuida do meu pai desde 2019, quando surgiram as primeiras feridas diabéticas. Na vascular, entendemos que a coisa toda, a coisa inteira, era mais que "só feridas que não cicatrizam", era o entupimento de veias numa perna inteira, resultado de uma doença vascular em último estado resultando no que chamam de isquemia crítica. E que, a essa altura, não iria mesmo cicatrizar, já que, com as veias entupidas, o sangue não tinha como circular. Chegamos na médica tristes pensando na perda de um dedo, saímos arrasados porque a realidade era a possibilidade da perda de uma perna.

Apesar de ser um caminho doloroso (e caro), a última médica fez o que eu considerei a melhor coisa no processo: ela nos deu o mapa do caminho das pedras.

E no dia 17, tal qual O peregrino, saímos na nossa Jornada. Fomos pra UPA no dia e horário indicados, depois HRA e, por último, HMV (hospitais locais) - exatamente como a médica vascular disse.

Apesar do caminho previsto, o que nunca dá pra se preparar são as histórias que afetam no caminho, o que a gente tem que escutar, que ver, que sentir, que vivenciar.

  • Como topar com um vizinho com um passado como também vizinho de leito. Jovem e com uma diabetes super resistente;
  • ou com um jovem paraplégico, como possível passado similar, tendo levado 4 tiros, ter sido abandonado pela mãe que fez com que gerasse uma escara de uns 10cm na lombar e tendo que implorar pra que alguém da família o aceitasse em casa. Nunca vi uma alta tão triste;
  • como descobrir que uma inflamação no corpo pode levar a pessoa a ter um comportamento violento e insano, aprendido com um senhor que chegou em estado de total agitação e revolta;
  • tipos diferentes de profissionais envolvidos. Afinal, parece que quanto menos bem assistido o local da saúde é, menos enfermagem por amor é registrado;
  • ter o pior dos dejà-vus ao chegar num novo hospital e perceber que teríamos mais uma experiência de ficar em leito num corredor caótico;
  • entender que nesses ambientes, enquanto pessoa que acompanha, é primordial fazer contatos, se aliar a outras pessoas na mesma situação, trocar conhecimentos de horários, locais, bizus, medicamentos, cuidar dos pacientes vizinhos. A experiência de hospital é viver o hospital. Juro que faz doer menos;
  • E nessas alianças, além das histórias vistas no local, ouvir as outras milhões de histórias dos acompanhantes ali, trocar figurinhas de raiva, ódio, fé e amor que surgem nessa condição de aprisionamento;
  • e aprender a chorar de forma discreta;
  • e dormir com a lâmpada acesa em um local que nunca dorme, nunca sossega. Estado de alerta é constante;
  • e desapegar do nojo. Da comida do local, dos ferimentos, das pessoas, do ambiente, das trocas de fralda, do xixi, do vômito, dos puns, dos bafos;
  • Mesmo quando uma senhora que você nunca viu faz xixi no seus pés ou lhe dá uma cuspida;
  • Mesmo quando você é convidada a dar um banho em outra senhora que se apegou a você sem nenhum motivo aparente;
  • Se acostumar com a nudez de corpos diversos, de corpos doentes;
  • Em ver gente saindo feliz da vida depois de amputar uma segunda perna e entender que viver sem dor é o mesmo que libertação;
  • aprender a ouvir, ser empática e saber consolar;
  • acostumar o cérebro a entrar num modo de organização onde todas as informações passadas serão organizadas e repassadas e repetidas e contestadas diversas e diversas vezes pra equipes diferentes, profissionais diferentes;
  • é saber lidar com a frustração de quando uma coisa não sai como imaginamos - como não ter alta num dia esperado;
  • é descobrir novas sensações, novos gostos e tentar processar essa confusão em meio ao caos.

Nessa de descobrir novas sensações, o que sinto é que passei por mais um salto de maturidade. Desses de quando você é bebê. Pelo visto, depois de nascer, eles nunca param de acontecer.

Eu não sei como terminar esse texto. Comecei há quase 10 dias e sinto que ainda não processei tudo que eu tenho que processar. Mesmo voltando pra casa, a rotina hospitalar foi transferida aqui pra dentro, com o diferencial que agora não tem terceiros pra lidar com as coisas, é tudo conosco, comigo. As comidas no horário certo, as medicações, os curativos, o estresse de lidar com doente teimoso, com a volta da rotina de trabalho, rotina de casa.

Sigo meio anestesiada, tentando não sentir nada em intensidade pra não sofrer com o peso da vida. Problema que acabo anestesiando também coisas boas, que não as sinto em intensidade.

Espero voltar em breve a escrever sobre outras coisas que aconteceram quando conseguir reorganizar meus pensamentos e sentimentos.
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terça-feira, 8 de julho de 2025

frio

Houve um ano que no pico do inverno todas as minhas gatas tiveram rinotraqueíte. Minha rotina era trabalhar e medicar gato. Perdemos uma gata que morreu em casa. A casa nunca esteve tão gelada, nada parecia aquecer.

Me encontro novamente em um inverno onde sinto frio o tempo inteiro. Dois casacos e uma manta não me aquecem. Meus pés e mãos vivem gelados.

Novamente tô achando que é um frio que vem de dentro.
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quarta-feira, 25 de junho de 2025

Nunca feliz em junho

Antes de vir pro hospital, comentei com a minha mãe que São João, quando eu era criança, tinha cheiro de chuva, fogueira e pólvora.

Envelhecendo nessa festa que cresce insanamente e vai consumindo tudo em volta, São João, pra mim, passou a ter cheiro de banheiro público, lama empoçada, gente bêbada.

Ontem, no hospital, enquanto falava com ela pelo telefone e chorava, senti forte o cheiro de fogueira e pólvora. Aqui fica pertinho da zona rural. Bateu nostalgia misturada com solidão.

Acho que nunca serei feliz em junho novamente.
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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

the daily kiff cooking

 


Eu tenho muitos e muitos problemas pra comer e por isso, criei um blog pra me ajudar nisso. E me desenhei pra ilustrar o novo projeto.

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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Tardes em casa

Minha mãe é uma assídua ouvinte de rádio. Não qualquer uma, tem que ser a Liberdade FM assim como a tv de casa não conhece outra emissora que não a Globo.

Como ela não tá usando o quarto dela (desde que minha vó adoeceu, habitamos todos um andar só em torno dela), desci com a Alexa dela pra cozinha e instiguei: ô, mulher, por que a senhora não larga um pouco a rádio e escuta algo que a senhora verdadeiramente gosta, hein?

Tal como eu, ela é apegada a rotina, a coisas fixas. Mudança significa dor, mesmo que venha com ganhos posteriores. E, sendo assim, ela foi relutante, disse gostar das músicas que tocavam na rádio. Até as que não gostava, aprendia a gostar.

Insisti: Por que ouvir de vez em quando algo que gosta se a senhora pode escutar sempre? Por que se acostumar com algo que não gosta quando pode se permitir? E ela se permitiu.

E aí tem sido fantástico, a essa altura, descobrir o gosto musical da minha mãe. Ela gosta de um sambinha aos domingos de manhã, então assim geralmente acordo com Alcione ou Beth Carvalho. Pra quando tá arrumando a casa, gosta de algo pra cantar junto, então rola Priscilla Senna, Nelson Gonçalves, Roberto Carlos, Marília Mendonça. Ou quando quer só parar pra dizer "eu acho essa tão linda", rola Scorpions ("qual é aquela do assovio?"), Guns n' Roses ("essa também"), Joe Dolan, Trepidant’s.

Dia desses, cheguei do trabalho e ela me falou o quanto foi bom lembrar da juventude e como são lindas as músicas dos Beatles. Exclamou o quão incrível é não ter uma música ruim. Coincidentemente eu também tinha passado a tarde escutando Beatles, o álbum Abbey Road e trocamos maravilhamentos sobre.

As vezes, andando pela casa, ela para pra dizer "eu amo tanto essa" e eu amo esses momentos.

Em algum momento do passado eu tinha feito uma playlist chamada "Tardes em casa" imaginando algumas coisas que ela gostaria de ouvir e lembrando de coisas que ouvia quando era criança, nas épocas de fitas K7 e CDs. Tentando separar o que era dela do que era do meu pai.

Agora, com o streaming tenho a chance de afinar essa playlist com ela e isso é muito linguagem de amor que levarei pra memória futura.
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segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Dia 26 de janeiro e estou no 9º livro

Sigo frenética, tentando aproveitar o meu tempo da melhor forma que dá - quando não estou jogada na cama com alta necessidade de não abrir os olhos ou quando não consigo fechar os olhos envolvida em vícios. É confuso, difícil de administrar, essas vontades de tudo e nada do corpo.

Tento não entrar no vórtex de vídeos curtos e jogos cheios de anúncio. Tento lembrar que preciso consumir os serviços que pago. Quero fechar os olhos e descansar, mas meu corpo se recusa e me lembra das coisas que tenho pra fazer, que quero fazer, que prometi fazer. Queria não ter prometido nada a ninguém. Queria não criar expectativas em ninguém, mas entendo que não existe a possibilidade de viver sem se envolver.

Além dos 9 livros, vi uns 15 filmes. A ansiedade fica na frestra da porta sussurrando: vai, lê enquanto dá. Assiste enquanto dá. Tudo isso vai mudar em breve.

Tô medicada, mas os períodos de hospital me assustaram e traumatizaram mais do que consigo mensurar.
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terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Novo ano novo

Esse ano tô um tanto acelerada nas metas e aproveito a energia de troca de ano pra surfar na empolgação de cumprir as metas que der. Tenho muitas, muitas, mas seguindo as que tem dado, até então.

Nesse processo, já consegui ler 3 livros. Sendo justa, dois deles foram muito curtinhos: Vidas Secas, de Graciliano Ramos e A metamorfose, de Franz Kafka. Ambos excelentes e poderosos.

Em Vidas secas, uma família nordestina migra abatida pela seca do sertão. O impacto da fome, da sede, de vítimas da pobreza e corrupção, da grosseria adquirida pela dureza, da insensibilidade e desconfiança, mas acima de tudo, a honestidade, me impacta porque é daí que vem os meus antepassados e é um impacto que segue batendo mesmo quando não passamos mais em profundidade por tais aspectos. Mas o atraso? Ele tá lá. Vejo na minha vó, nas primas dela, no meu pai e suas histórias.

Minha vó, em avanço de demência, me faz pensar que, se tivesse tido uma vida mais confortável e sem privações, teria conseguido combater, não sei, a mente que se deteriora. E privações, não falo só as financeiras, mas humanas também. Não soube dar amor a alguns e, aos que deu, foi abandonada.

E aí vem A metamorfose falar sobre um personagem, o Samsa, que virou um inseto. Assim, sem mais, nem porquê. De forma similar, minha vó sofreu um AVC e, a pouco mais de um ano, vimos o processo dela de 'insetificação' de uma pessoa. Ela não sabe mais se comunicar, que não existe mais em convívio social, abandonada pelo filho, irmã, netos. Que, quando deixou de ser 'útil', passou a ser 'algo' a ser visto com pena e repugnância.

Em lapsos de autoconsciência, ela me diz que tô cheirosa e sempre respondo que ela que tá. Ela ri e diz "eu não". Mais de uma vez ela fala sobre se achar suja. Mas não, nunca tá, sempre tá cheirosinha e hidratada. É sobre isso que se trata as tais 'situações kafkianas'?

Apenas janeiro e eu já sendo socada em memórias e reflexões. Acho que o ano começou bem, apesar de pesares.
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sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

TB Choi technique

 

First study of the year, testing TB Choi's cartooning technique. I thought it was weird, but did I want perfection in the first test? Calm down! haha

(still struggling with the migration from Photoshop to Clip Studio Paint).

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