𝚃𝚑𝚎 𝚗𝚊𝚖𝚎 𝚘𝚏 𝚊𝚗 𝚎𝚡𝚝𝚒𝚗𝚌𝚝 𝚜𝚝𝚊𝚛 𝚎𝚌𝚑𝚘𝚎𝚜, 𝚌𝚛𝚎𝚊𝚝𝚎𝚜 𝚠𝚒𝚝𝚑 𝚜𝚒𝚕𝚎𝚗𝚌𝚎, 𝚜𝚑𝚊𝚍𝚘𝚠, 𝚊𝚗𝚍 𝚋𝚛𝚒𝚐𝚑𝚝𝚗𝚎𝚜𝚜.

domingo, 27 de julho de 2025

Ponderação de meio de ano [lado A]

CW: amputação de membro, histórias emotivas, feridas

Em janeiro escrevi:

Além dos 9 livros, vi uns 15 filmes. A ansiedade fica na fresta da porta sussurrando: vai, lê enquanto dá. Assiste enquanto dá. Tudo isso vai mudar em breve. Tô medicada, mas os períodos de hospital me assustaram e traumatizaram mais do que consigo mensurar. O que não imaginava era voltar pro hospital tão cedo.


Não que eu não imagine que a situação da minha vó possa mudar a qualquer momento, já que acamada, ainda que razoavelmente bem. O que não esperava era uma outra amputação tão cedo. Fui inocente, confesso. Ou talvez não inocente, mas ignorante sobre a extensão da doença. Até que fiquei sabendo e percebi que lá se iam muitos dos planos que tinha cogitado pra esse ano, pra mim.

Dessa vez eu fiz tudo certinho ou tão certinho quanto eu pude pagar. Dessa vez, tive regalias e escolhas: escolhemos o dia de ir, programamos o que levar pra uma longa estadia, preparamos a nossa mente pro que vinha pela frente. Mas não, nada prepara. E olha que me disseram que dessa vez ia ser menos traumático. Tão fácil falar.

Numa última tentativa de não passar por uma longa internação e amputação, recorremos a uma enfermeira particular que nos mandou a real e recomendou uma vascular. Corremos pra vascular já com peso no coração, porque a enfermeira citada cuida do meu pai desde 2019, quando surgiram as primeiras feridas diabéticas. Na vascular, entendemos que a coisa toda, a coisa inteira, era mais que "só feridas que não cicatrizam", era o entupimento de veias numa perna inteira, resultado de uma doença vascular em último estado resultando no que chamam de isquemia crítica. E que, a essa altura, não iria mesmo cicatrizar, já que, com as veias entupidas, o sangue não tinha como circular. Chegamos na médica tristes pensando na perda de um dedo, saímos arrasados porque a realidade era a possibilidade da perda de uma perna.

Apesar de ser um caminho doloroso (e caro), a última médica fez o que eu considerei a melhor coisa no processo: ela nos deu o mapa do caminho das pedras.

E no dia 17, tal qual O peregrino, saímos na nossa Jornada. Fomos pra UPA no dia e horário indicados, depois HRA e, por último, HMV (hospitais locais) - exatamente como a médica vascular disse.

Apesar do caminho previsto, o que nunca dá pra se preparar são as histórias que afetam no caminho, o que a gente tem que escutar, que ver, que sentir, que vivenciar.

  • Como topar com um vizinho com um passado como também vizinho de leito. Jovem e com uma diabetes super resistente;
  • ou com um jovem paraplégico, como possível passado similar, tendo levado 4 tiros, ter sido abandonado pela mãe que fez com que gerasse uma escara de uns 10cm na lombar e tendo que implorar pra que alguém da família o aceitasse em casa. Nunca vi uma alta tão triste;
  • como descobrir que uma inflamação no corpo pode levar a pessoa a ter um comportamento violento e insano, aprendido com um senhor que chegou em estado de total agitação e revolta;
  • tipos diferentes de profissionais envolvidos. Afinal, parece que quanto menos bem assistido o local da saúde é, menos enfermagem por amor é registrado;
  • ter o pior dos dejà-vus ao chegar num novo hospital e perceber que teríamos mais uma experiência de ficar em leito num corredor caótico;
  • entender que nesses ambientes, enquanto pessoa que acompanha, é primordial fazer contatos, se aliar a outras pessoas na mesma situação, trocar conhecimentos de horários, locais, bizus, medicamentos, cuidar dos pacientes vizinhos. A experiência de hospital é viver o hospital. Juro que faz doer menos;
  • E nessas alianças, além das histórias vistas no local, ouvir as outras milhões de histórias dos acompanhantes ali, trocar figurinhas de raiva, ódio, fé e amor que surgem nessa condição de aprisionamento;
  • e aprender a chorar de forma discreta;
  • e dormir com a lâmpada acesa em um local que nunca dorme, nunca sossega. Estado de alerta é constante;
  • e desapegar do nojo. Da comida do local, dos ferimentos, das pessoas, do ambiente, das trocas de fralda, do xixi, do vômito, dos puns, dos bafos;
  • Mesmo quando uma senhora que você nunca viu faz xixi no seus pés ou lhe dá uma cuspida;
  • Mesmo quando você é convidada a dar um banho em outra senhora que se apegou a você sem nenhum motivo aparente;
  • Se acostumar com a nudez de corpos diversos, de corpos doentes;
  • Em ver gente saindo feliz da vida depois de amputar uma segunda perna e entender que viver sem dor é o mesmo que libertação;
  • aprender a ouvir, ser empática e saber consolar;
  • acostumar o cérebro a entrar num modo de organização onde todas as informações passadas serão organizadas e repassadas e repetidas e contestadas diversas e diversas vezes pra equipes diferentes, profissionais diferentes;
  • é saber lidar com a frustração de quando uma coisa não sai como imaginamos - como não ter alta num dia esperado;
  • é descobrir novas sensações, novos gostos e tentar processar essa confusão em meio ao caos.

Nessa de descobrir novas sensações, o que sinto é que passei por mais um salto de maturidade. Desses de quando você é bebê. Pelo visto, depois de nascer, eles nunca param de acontecer.

Eu não sei como terminar esse texto. Comecei há quase 10 dias e sinto que ainda não processei tudo que eu tenho que processar. Mesmo voltando pra casa, a rotina hospitalar foi transferida aqui pra dentro, com o diferencial que agora não tem terceiros pra lidar com as coisas, é tudo conosco, comigo. As comidas no horário certo, as medicações, os curativos, o estresse de lidar com doente teimoso, com a volta da rotina de trabalho, rotina de casa.

Sigo meio anestesiada, tentando não sentir nada em intensidade pra não sofrer com o peso da vida. Problema que acabo anestesiando também coisas boas, que não as sinto em intensidade.

Espero voltar em breve a escrever sobre outras coisas que aconteceram quando conseguir reorganizar meus pensamentos e sentimentos.
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terça-feira, 8 de julho de 2025

frio

Houve um ano que no pico do inverno todas as minhas gatas tiveram rinotraqueíte. Minha rotina era trabalhar e medicar gato. Perdemos uma gata que morreu em casa. A casa nunca esteve tão gelada, nada parecia aquecer.

Me encontro novamente em um inverno onde sinto frio o tempo inteiro. Dois casacos e uma manta não me aquecem. Meus pés e mãos vivem gelados.

Novamente tô achando que é um frio que vem de dentro.
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quarta-feira, 25 de junho de 2025

Nunca feliz em junho

Antes de vir pro hospital, comentei com a minha mãe que São João, quando eu era criança, tinha cheiro de chuva, fogueira e pólvora.

Envelhecendo nessa festa que cresce insanamente e vai consumindo tudo em volta, São João, pra mim, passou a ter cheiro de banheiro público, lama empoçada, gente bêbada.

Ontem, no hospital, enquanto falava com ela pelo telefone e chorava, senti forte o cheiro de fogueira e pólvora. Aqui fica pertinho da zona rural. Bateu nostalgia misturada com solidão.

Acho que nunca serei feliz em junho novamente.
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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

the daily kiff cooking

 


Eu tenho muitos e muitos problemas pra comer e por isso, criei um blog pra me ajudar nisso. E me desenhei pra ilustrar o novo projeto.

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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Tardes em casa

Minha mãe é uma assídua ouvinte de rádio. Não qualquer uma, tem que ser a Liberdade FM assim como a tv de casa não conhece outra emissora que não a Globo.

Como ela não tá usando o quarto dela (desde que minha vó adoeceu, habitamos todos um andar só em torno dela), desci com a Alexa dela pra cozinha e instiguei: ô, mulher, por que a senhora não larga um pouco a rádio e escuta algo que a senhora verdadeiramente gosta, hein?

Tal como eu, ela é apegada a rotina, a coisas fixas. Mudança significa dor, mesmo que venha com ganhos posteriores. E, sendo assim, ela foi relutante, disse gostar das músicas que tocavam na rádio. Até as que não gostava, aprendia a gostar.

Insisti: Por que ouvir de vez em quando algo que gosta se a senhora pode escutar sempre? Por que se acostumar com algo que não gosta quando pode se permitir? E ela se permitiu.

E aí tem sido fantástico, a essa altura, descobrir o gosto musical da minha mãe. Ela gosta de um sambinha aos domingos de manhã, então assim geralmente acordo com Alcione ou Beth Carvalho. Pra quando tá arrumando a casa, gosta de algo pra cantar junto, então rola Priscilla Senna, Nelson Gonçalves, Roberto Carlos, Marília Mendonça. Ou quando quer só parar pra dizer "eu acho essa tão linda", rola Scorpions ("qual é aquela do assovio?"), Guns n' Roses ("essa também"), Joe Dolan, Trepidant’s.

Dia desses, cheguei do trabalho e ela me falou o quanto foi bom lembrar da juventude e como são lindas as músicas dos Beatles. Exclamou o quão incrível é não ter uma música ruim. Coincidentemente eu também tinha passado a tarde escutando Beatles, o álbum Abbey Road e trocamos maravilhamentos sobre.

As vezes, andando pela casa, ela para pra dizer "eu amo tanto essa" e eu amo esses momentos.

Em algum momento do passado eu tinha feito uma playlist chamada "Tardes em casa" imaginando algumas coisas que ela gostaria de ouvir e lembrando de coisas que ouvia quando era criança, nas épocas de fitas K7 e CDs. Tentando separar o que era dela do que era do meu pai.

Agora, com o streaming tenho a chance de afinar essa playlist com ela e isso é muito linguagem de amor que levarei pra memória futura.
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segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Dia 26 de janeiro e estou no 9º livro

Sigo frenética, tentando aproveitar o meu tempo da melhor forma que dá - quando não estou jogada na cama com alta necessidade de não abrir os olhos ou quando não consigo fechar os olhos envolvida em vícios. É confuso, difícil de administrar, essas vontades de tudo e nada do corpo.

Tento não entrar no vórtex de vídeos curtos e jogos cheios de anúncio. Tento lembrar que preciso consumir os serviços que pago. Quero fechar os olhos e descansar, mas meu corpo se recusa e me lembra das coisas que tenho pra fazer, que quero fazer, que prometi fazer. Queria não ter prometido nada a ninguém. Queria não criar expectativas em ninguém, mas entendo que não existe a possibilidade de viver sem se envolver.

Além dos 9 livros, vi uns 15 filmes. A ansiedade fica na frestra da porta sussurrando: vai, lê enquanto dá. Assiste enquanto dá. Tudo isso vai mudar em breve.

Tô medicada, mas os períodos de hospital me assustaram e traumatizaram mais do que consigo mensurar.
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terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Novo ano novo

Esse ano tô um tanto acelerada nas metas e aproveito a energia de troca de ano pra surfar na empolgação de cumprir as metas que der. Tenho muitas, muitas, mas seguindo as que tem dado, até então.

Nesse processo, já consegui ler 3 livros. Sendo justa, dois deles foram muito curtinhos: Vidas Secas, de Graciliano Ramos e A metamorfose, de Franz Kafka. Ambos excelentes e poderosos.

Em Vidas secas, uma família nordestina migra abatida pela seca do sertão. O impacto da fome, da sede, de vítimas da pobreza e corrupção, da grosseria adquirida pela dureza, da insensibilidade e desconfiança, mas acima de tudo, a honestidade, me impacta porque é daí que vem os meus antepassados e é um impacto que segue batendo mesmo quando não passamos mais em profundidade por tais aspectos. Mas o atraso? Ele tá lá. Vejo na minha vó, nas primas dela, no meu pai e suas histórias.

Minha vó, em avanço de demência, me faz pensar que, se tivesse tido uma vida mais confortável e sem privações, teria conseguido combater, não sei, a mente que se deteriora. E privações, não falo só as financeiras, mas humanas também. Não soube dar amor a alguns e, aos que deu, foi abandonada.

E aí vem A metamorfose falar sobre um personagem, o Samsa, que virou um inseto. Assim, sem mais, nem porquê. De forma similar, minha vó sofreu um AVC e, a pouco mais de um ano, vimos o processo dela de 'insetificação' de uma pessoa. Ela não sabe mais se comunicar, que não existe mais em convívio social, abandonada pelo filho, irmã, netos. Que, quando deixou de ser 'útil', passou a ser 'algo' a ser visto com pena e repugnância.

Em lapsos de autoconsciência, ela me diz que tô cheirosa e sempre respondo que ela que tá. Ela ri e diz "eu não". Mais de uma vez ela fala sobre se achar suja. Mas não, nunca tá, sempre tá cheirosinha e hidratada. É sobre isso que se trata as tais 'situações kafkianas'?

Apenas janeiro e eu já sendo socada em memórias e reflexões. Acho que o ano começou bem, apesar de pesares.
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sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

TB Choi technique

 

First study of the year, testing TB Choi's cartooning technique. I thought it was weird, but did I want perfection in the first test? Calm down! haha

(still struggling with the migration from Photoshop to Clip Studio Paint).

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quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Kinktober 2024

 Segundo ano de Kinktober (que geralmente posto lá pelo mastodon porque é onde aceita nudez sem restringir), decidir focar em duas personagens. Um casal sáfico gordo e fogoso. Não terminei todo o desafio. O ano foi ficando cada vez mais apertado de tempo o que fez até ter uma mudança de estilo no meio do caminho.

CW: contém nudez e atos sexuais. Entre por sua conta em risco.

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sexta-feira, 18 de outubro de 2024

performance da retroalimentação publicitária

O ruim de ser designer no meio publicitário é que o modo publicitário de viver não condiz - ao meu ver - com o sonho projetista do design. Publicidade não quer solucionar problemas, penso, quer vender soluções. Quem se preocupa se a solução funcionou, é quem projeta. Depois de vendido, toda divulgação vai girar em torno do sucesso que foi.

Vendo o Uil falar sobre tudo ser performance em uma postagem pessoal no mastodon, colocou lenha na minha cabeça sobre como a publicidade é um grande show disto. Sempre foi. Que absorve designers, jornalistas, produtores de evento, entre outras e outras profissões, e fazem de tudo um grande espetáculo. Geram lixo, comem lixo. É um sistema de retroalimentação de porcaria que embala todo mundo, ergue alguns e derruba o resto.
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sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Sketchtember '24




 







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terça-feira, 3 de setembro de 2024

“é como se fosse um bebê”

O tempo todo escuto “é como se fosse um bebê”, mas ao contrário de um bebê que aprende e se desenvolve, as coisas acontecem ao contrário.

Cuidar de um corpo vivo (além do nosso, claro) que nem sabe dizer onde dói é complicado demais. É brigar contra o anti desenvolvimento. A pele fica mais fina, os músculos mais enrijecidos.

São feridinhas, alergias, inflamações e dores que surgem sem motivo aparente, porque apesar de parado, continua em movimento.

É difícil, muito difícil.
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sábado, 24 de agosto de 2024

Estudos em marcadores

Tests&tests with markers. I'm trying with Touch markers before Copic, because PRICES, you know



Continuing more paintings with marker to try to understand these little things. And of course, being helped by beautiful bodies as inspiration.




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quarta-feira, 31 de julho de 2024

f é r i a s

De repente, férias.

É engraçado porque eu sempre vou jogando as coisas que tenho que fazer pra frente e pra frente e quando o momento chega eu ainda tenho o descaramento de ficar surpresa. Mas assim, em algum momento eu sabia que as férias começariam, mas hoje acordei atrasada, no caos, cheguei com 1h30 de atraso e meu chefe: "opa, pensei que tinha se confundindo e entrado de férias um dia antes".

E a ficha caiu. O tempo de resolver tudo chegou.

Férias pra outras pessoas, geralmente significa descansar e viajar. Pra mim, significa resolver problemas acumulados.

Viciada em pesquisar bullet journal, acho tudo incrível e lindo e quando tô flutuando, puxo meu pé de volta, me chacoalho e me repreendo: não há tempo! O não ter tempo pra fazer uma coisa contínua é o meu fantasma que não dá trégua mesmo em férias e preciso sempre evocar meu mantra.
Seja justo consigo mesma. Seja justo consigo mesma. Seja justo consigo mesma.

E na tentativa de ser, fiz uma lista que imaginei ser realista e se conseguir cumpri-la, as férias terão sido um sucesso. Mesmo sem viagens. (◕︵◕)
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sexta-feira, 19 de julho de 2024

Divagações sobre saúde e dinheiro

Eu fui marcar uma consulta médica pra minha mãe e, nesse momento, eu tava com dinheiro pra pagar integralmente. O que não é o comum, geralmente somos dependentes de cartão de crédito e dividido em muitas parcelas.

Achei curioso que o lugar tava lotado (escritório de cartão de saúde que dá desconto em consultas) e todo mundo que era perguntado sobre a forma de pagamento, a resposta era sempre "pix" ou "débito". E quando crédito, se perguntado "quer parcelar?" a resposta era "deus me livre!". Seria algo bom se fosse um indicativo de autocontrole financeiro da população, mas a mim só me parecia uma camada acima de uma pobreza como a minha, a tal pobreza premium. Ou nem tanto, talvez a premium esteja num plano de saúde de verdade.

Enfim.

Ela foi pra consulta, paguei integralmente no pix; fomos pra farmácia, compramos a medicação, paguei no pix; fomos tomar um café, novamente paguei no pix. Uber no pix, pra cima e pra baixo. Uma saidinha numa manhã e, pof, 500 reais. No pix.

E nada demais, nada de luxo, tudo básico (ou que deveria ser). É foda o quanto dinheiro nos dá o senso de dignidade.

O que me faz ficar profundamente irritada com quem compara o tratamento privado de saúde com o SUS. Sim, ter o SUS é maravilhoso, desde que você não tenha urgência em depender do SUS. Se você não precisa dormir no chão sujo de um hospital ou implorar chorando pra que um parente seu tenha um atendimento básico de urgência, faça o favor de não comparar os dois sistemas na minha frente.

E aí é 'senta que lá vem história':

Quando meu pai foi encaminhado pra UPA, ele tinha uma parte do dedo sem circulação. Ele foi sob a recomendação de "precisa ver um vascular". Chegou lá, ficou interno. Porque precisava ver um vascular.

Por erro médico, deixaram o dedo dele sem curativo. No dia seguinte tinha ponto de necrose. Por erro da equipe, demoraram 5 dias pra transferí-lo. Mesmo com curativos diários, a necrose cobriu toda a parte inferior do dedo. Quando transferiram, esperou mais uns 3 dias pra "ver o vascular".

Ver o vascular, no fim das contas, significou amputar o dedo. Sem conversa, sem avaliação. Nunca nem vi o médico, no máximo, a equipe de enfermagem.

Já amputado, 3 enfermeiros conversaram comigo pra dizer "ó, não tá legal. Se continuar assim, o próximo passo é a ponta do pé, o pé, a perna...". Não à toa o hospital era conhecido como "açougue". E não é dos piores do Recife, pelos relatos. E os relatos... eu ouvi tanta coisa.

Ele teve alta e corremos pra uma enfermeira particular. Ela foi taxativa em dizer: ele não precisaria ter amputado. E tratando em 10 sessões, ela reverteu o caso dele. "Só" perdeu um dedo. E aí seguiu no SUS, como término de tratamento.

Pra gente que é pobre-pobre, SUS é uma benção e uma maldição. Ruim com, pior sem.

É preciso tá aqui na casta baixa pra ter uma panorâmica disso.
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quinta-feira, 18 de julho de 2024

Polin


 

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domingo, 30 de junho de 2024

Feliz São João!

Ou melhor, Feliz São Pedro! Feliz último dia de festejos juninos.

Passar mais um mês junino na 'Capital do Forró' sempre traz infinitas sensações que até escrever sobre elas é difícil de tão misturadas e agridoces. É um mês onde pessoas nordestinas, vivendo aqui ou não, aproveitam para exprimir seu amor e suas lembranças pelas festas que acontecem no mês e, apesar de ter, sim, boas lembranças que me ligam à raiz, as lembranças ruins se sobressaem. É como enfiar a mão numa bacia de miçangas coloridas. É lindo de ver, é gostoso de sentir, mas separar por cor é custoso - e essa é sempre a parte que prevalece.

E aí ver tanta gente sendo alegre enquanto eu me afogo em sensações e lembranças ruins me dá um aperto no peito de ser amarga que me deixa mal. Queria também ser alegre e curtir essa festa com leveza.

Meus pais tiveram bar por grande parte da minha infância e por toda a minha adolescência. Sempre vivemos nas proximidades do principal polo do São João da cidade que a cada ano foi ficando maior e maior e ia nos envolvendo mais e mais. Consequentemente, eles não trabalhavam sozinhos, eu e meu irmão éramos também envolvidos em toda a dinâmica de trabalho e isso significava: virar madrugadas, sair pra comprar materiais de reposição, carregar peso, ter a casa invadida por estranhos a todo momento, lidar com estranhos a todo momento, lidar com bêbados a todo momento, andar por multidões. Ouvir as mesmas músicas que não gostávamos repetidas vezes, ir ao banheiro pra chorar e aguentar mais algumas horas, ser privada de fazer as coisas que gostávamos porque precisávamos trabalhar com um público abusado, lidar com turistas. Lavar banheiro com cocô e xixi de estranhos no chão, lavar banheiro com o cheiro intragável de xixi misturado com cerveja, limpar mesas, servir mesas, ouvir assédio calada, ouvir reclamação gratuita com sorriso no rosto, ouvir exigências descabidas. Cortar verdura, mexer panela, servir mesas e não ter hora pra comer e descansar.

Eu entendo quem se sente feliz indo pros festejos, mas eu, que grande parte da vida estive do lado oposto, sinto arrepios. Me voltam o cheiro do xixi com álcool, da lama com xixi que tomam a rua, do barulho sufocante que me faz gritar pra ser ouvida - logo eu, que falo baixo. A sensação de não ter pra onde correr numa multidão é sufocante.

30 dias. Ares de tortura em "fogueiras acesas na terra refletindo estrelas brilhando no céu".

Hoje, finalmente, é o último dia e bate um alívio de não precisar mais ser a amarga do meio feliz e colorido. Amanhã começa o meu dia favorito de todo ano no qual chamo carinhosamente de "arquitetura da destruição" (inspirada por um doc de mesmo nome) onde todas as luzes se apagam, todas as coisas começam a ser removidas, todos os caminhos voltam a ser livres e, por fim, vence o silêncio.

Sobrevivi mais um ano.
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segunda-feira, 10 de junho de 2024

Some last drawings made with colored pencils. It's been fun exploring this tool through which I learned how to paint.


CW: contém nudez e atos sexuais. Entre por sua conta em risco.


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domingo, 5 de maio de 2024

Saudade

Senti saudade, bati na porta e anunciei: ei, apareçam, estou com saudade.

E apareceram, não todos, mas apareceram. Não sanou minha saudade, porque parece ser da minha natureza essa constante de viver no passado, mas acrescentou um tijolinho no buraco aberto.

Se amanhã a saudade abrir mais, chegarei eu e baterei na porta novamente.

Desculpa, é que eu sou carente das pessoas que amo.
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quarta-feira, 1 de maio de 2024

Nascimento de uma lembrança

Minha vó achou engraçadíssimo que eu e minha mãe beijamos a testa dela fazendo estalo. “Olha isso! Mas rapaz”, ela exclamou baixinho. E fez um “vem cá” com a mão pra cada uma de nós pra beijar também e tentar estalar.

Ficamos assim por um tempo.

É como ver uma memória se formando, quase um salto no futuro em que diremos “lembra de quando…?”.

O coração parte, né.
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