Na correria de vida eu fui capturada pela existência de uma aranha. Eu particularmente gosto das aranhas de jardim. Acho o 'X' do formato delas bem característico e, sabendo que inofensivas, sempre considero um convite para me aproximar e vê-las de perto.
Há uns meses, uma aranha habitou a minha estante de livros. Resolvi tirá-la com um galho quando me deparei com um estabilamento e o confundi com ninho de crias e imaginei que minha estante seria tomada por filhotinhos. A coloquei fora pra seguir sua natureza. Mas pelos dias que ela ficou ali, me fazia companhia. Ela tecia a teia dela, eu crochetava os meus fios.
Alguns meses depois, encontrei outra alojada no centro de uma imensa teia no jardim de casa e suspirei: ali, sim, era o lugar dela.
Todos os dias antes de sair de casa pro trabalho, eu dava uma passada pra olhá-la, perceber detalhes, aprender uma coisa nova.
E descobri que ela se chama Argiope argentata, ou aranha-de-prata; Que é comum e inofensiva aos humanos. Que ajuda no controle de pragas e mosquitos. Que é uma excelente artesã e constrói teias de padrão único. Que os estabilamentos — as “estrelinhas” que eu havia visto antes —, apesar de não terem uma confirmação científica definitiva, são tidos como enfeites da teia. É a aranha romantizando o próprio espaço.
E percebi filhotes. E li sobre como eles são levados pelo vento. E percebi o minúsculo macho. E li que ele costuma ser devorado pela fêmea. E a vi diferente no passar dos dias. E descobri que ela estava nos seus últimos dias de vida porque cumpriu com o seu propósito de procriação. E senti uma tristeza funda.
Sabendo que seus dias eram poucos, passei a observá-la com ainda mais atenção. Li que, no início do fim, ela não fica para ver seus filhos crescerem. Eles partem levados pelo vento, num fenômeno chamado ballooning. Que, nas semanas seguintes, seu corpo perde o viço, fica opaco e ressecado. Que a teia começa a apresentar falhas que ela já não refaz diariamente. Que as pernas se tornam menos firmes. E que, em algum dos próximos dias, ela partirá — talvez presa ao centro da teia onde passou toda a vida, ou de qualquer outra forma irrelevante.
Mas esse não é diretamente um texto sobre aranha, pra usar aquela frase odiosa e clichê da internet.
Um dia, ela também foi um dos filhotes que flutuaram no ballooning e chegou até aqui, onde construiu sua casa, suas crias e o seu fim. A tristeza nasce do paralelo que faço com a minha própria vida: perdi a oportunidade do meu ballooning e construí uma teia que ainda me prende ao centro. Na última vez em que a observei, ao notar partes de seu corpo ressecadas, senti a secura do meu próprio corpo.
Sinto luto pelas minhas partes mortas, pelas minhas partes não vividas.
Ainda que o mamífero se diferencie do aracnídeo em ciclos teoricamente distintos, na prática eu não fui a aranha que nasceu, procriou e morreu como lhe era fadado, mas a aranha que não foi levada pelo vento porque precisou ficar. Porque alguém precisava ficar — e calhou de ser eu, a aranha artesã da vez.
Minhas partes ressecadas não são da velhice. Eu que no alto dos meus 36 deveria estar vivendo o melhor da vida, como acreditava, estou na velhice herdada. A que me foi dada pelo meu destino, pela minha classe social, pelo meu gênero, tal qual a aranha que não fugiu de sua natureza de morrer após procriar.
Sigo aqui tecendo diariamente estruturas que não foram criadas por mim, mas impostas a mim. E sigo nessa manutenção diária de vida porque, afinal, o que me resta senão continuar tecendo?
A tristeza dói com mais força nos dias em que, tal como a frágil e invisível teia, ninguém celebra quem fica. Ninguém recompensa o cuidado prolongado. Não há beleza reconhecida no rito do sustento diário das estruturas da teia.
Melhores assistidos de 2025:
-A ordem é por assistidos, não por favoritos
-Nem todos foram lançados em 2024/2025
-Revistos não entram na lista
1. Flow (2024) - filme, animação, Bélgica.
Indicado e vencedor do Oscar de animação, me ganhou demais aquela arca de noé sem humanos.
2. Terra Estrangeira (1995) - filme, drama, Brasil.
Assisti uma considerável quantidade de filmes nacionais e esse foi o primeiro que me pegou me deixando viciada na música Vapor Barato pelo ano inteiro. E na Fernanda Torres, claro.
3. Conclave (2024) - filme, drama, EUA.
Também indicação de Oscar, Ralph Fiennes como um veio fofoqueiro em meio a escolha de um novo papa não tinha como dar errado. Pra mim, deu certo demais.
4. I'm not a robot (2023) - curta, drama, Bélgica.
Também dos indicados ao Oscar, esse curta me deixou com um medo real e contemporâneo: e se toda a nossa vida fosse uma mentira e a gente fosse um robô?
5. Wander to Wonder (2023) - curta, drama, Bélgica.
Outro curta também indicado ao Oscar me pega sobre o futuro dos personagens de quem cria quando quem os cria não pode mais criá-los.
6. A Lien (2023) - curta, drama, EUA.
Também curta, também indicado ao Oscar, sobre o pavor de construir sua vida em um país de merda como os EUA.
7. Instruments of a beating heart (2024) - curta, drama, Japão.
É um curta documentário, também indicado ao Oscar, que mostra uma garotinha ansiosa e nervosa no treinamento de um instrumento musical e no teste para a sua apresentação. Chorei mais do que era aceitável chorar querendo proteger aquela garotinha de toda a ansiedade que o mundo pode causar, mas que entendo como inevitável pra vida.
8. Fresh (2022) - filme, terror, suspense, EUA.
Esse me pegou desprevenida e caí na lábia do canibal bonitão tal qual a protagonista. Amei o humor, meu exato tipo de filme.
9. Parachute (2023) - filme, drama, EUA.
Também não esperava ser atingida por esse que fala sobre as consequências na vida e nas relações pessoais quando se trata de distúrbios alimentares. Tinha subestimado a Brittany Snow e amei que essa foi a estreia dela.
10. Dance Life (2024) - Reality, dança, Austrália
A rotina e aprendizado de dança de forma encantadora.
11. My Old ass (2024) - Filme, comédia, EUA.
Filme levinho com questionamentos femininos leves de acompanhar. Divertido.
12. Materialists (2025) - filme, drama, EUA.
Gosto muito em como a Celine Song leva suas histórias. Pode ser facilmente confundindo com uma comédia romântica, mas acho que consegue aprofundar um tanto mais os questionamentos.
13. Girls will be girls (2024) - filme, drama, Índia
Esse eu devo dizer que foi o meu favorito do ano. Gosto de histórias de amadurecimento, especialmente femininos, e toda a relação dela com distribuições de poder, relacionamento amoroso, familiar, amizades e sentimentos e descobertas foram, ao meu ver, mostrados de forma perfeita.
14. Breathe (2014) - filme, drama, suspense, França.
Aqui eu já tava na fase do ano em que tava rendida ao girlhood. Fui esperando uma bela amizade entre mulheres, o que aconteceu, mas não só isso. Fui impactada.
Em resumo, vi um total de 128 filmes/séries/realities, sendo esse os maiores destaques. Poderia até mencionar Yellowjackets como uma boa surpresa, mas acho que gostei mais da premissa que do desenvolvimento - também indo no aspecto girlhood da coisa. Nesse ano também consegui dar uma pluralizada nos assistidos, tendo 50 deles não sendo dos EUA. E só do Brasil foram 15 (considerando filmes, séries e realities). Também considero um número bacana os filmes dirigidos por mulher, foram 24 (número esse que espero aumentar). Foi um ano interessante.
Agora, pra livros a coisa foi mais intensa do que tinha planejado, porque pensei que não leria mais que uns 12. Mas, ó:
Melhores lidos de 2025:
-A ordem é por lidos, não por favoritos
-Nem todos foram lançados em 2024/2025
-Relidos não entram na lista
- Flicts (Ziraldo)
- Vidas Secas (Graciliano Ramos)
- A metamorfose (Kafka)
- Holocausto Brasileiro (Daniela Arbex)
- A cabeça do santo (Socorro Acioli)
- Paula (Isabel Allende)
- A redoma de vidro (Sylvia Plath)
Foram um total de 33 lidos, entre livros e HQ's com gêneros diversos, mas com destaque para clássicos. Apesar de ter gostado bastante das minhas leituras do ano, saio sem um grande favorito e um tanto sem norte pras próximas leituras.
Vou recomeçar a rotina e sentir ainda o que o corpo e o juízo querem pra metas e vamo lá 2026.
Um dos filmes que vi esse fim de semana foi 'Train to Busan' (2016) que seria mais um filme de zumbis se não fosse o viés de explorar relações familiares. Acompanhamos uma pequena aniversariante de 8 anos que mora com o pai e a vó, o pai distante pelo excesso de trabalho e, triste, ela insiste em passar o aniversário com a mãe em Busan. Eis que um temido-por-todos apocalipse zumbi acontece bem quando eles estão no trem a caminho.
O pai vai recebendo lições ao longo da viagem que o faz perceber que a escolha dele de se priorizar, de exercer o egoísmo como uma ferramenta de conquista do sucesso financeiro e profissional, o fez perder em relação mais do que ganhar. Afinal, se separa da esposa, entristece a filha, vive em prol de trabalho. E, chamado a atenção pela filha, entende com custo de que em momentos de caos, ou há uma união pelo todo ou não há salvação pra ninguém.
Assistindo o filme e pensando na minha vida nos últimos anos, percebendo os principais pontos de conflito no meu núcleo principal familiar, cheguei na péssima constatação de que: meu pai não me salvaria num apocalipse zumbi.
Eu sinto que ele estaria entre os personagens que entram num vagão e impedem outros de se salvarem. Que se só houvesse espaço pra um, seria dele. Se tivesse que me jogar pra uma horda de zumbis me atacar, ele não pensaria duas vezes.
Porque, afinal, de todos os sacrifícios que fiz pelo bem dele, a forma de retribuição não vem nem em um simples "obrigado", ou nem na percepção de que reconhecer que eu, enquanto filha, sinto dor, cansaço, tristeza, desânimo, que preciso de um tempo, que preciso de espaço, preciso de distância. Que não sou uma mera existência pra servir.
É cruel, talvez, pensar assim. Mas estando no estágio da nossa trajetória atual, depois de nossas discussões e assistindo todas as omissões dele, me vem mais a certeza de que não, ele não me salvaria. Ele não pararia pra pensar em se sacrificar pra me salvar e, ainda digo mais, ele seria como um dos personagens que, quando se vê infectado, não se importaria em me infectar também.
Espero, com uma esperança ínfima, estar errada.
Em janeiro escrevi:
Além dos 9 livros, vi uns 15 filmes. A ansiedade fica na fresta da porta sussurrando: vai, lê enquanto dá. Assiste enquanto dá. Tudo isso vai mudar em breve. Tô medicada, mas os períodos de hospital me assustaram e traumatizaram mais do que consigo mensurar. O que não imaginava era voltar pro hospital tão cedo.
Não que eu não imagine que a situação da minha vó possa mudar a qualquer momento, já que acamada, ainda que razoavelmente bem. O que não esperava era uma outra amputação tão cedo. Fui inocente, confesso. Ou talvez não inocente, mas ignorante sobre a extensão da doença. Até que fiquei sabendo e percebi que lá se iam muitos dos planos que tinha cogitado pra esse ano, pra mim.
Dessa vez eu fiz tudo certinho ou tão certinho quanto eu pude pagar. Dessa vez, tive regalias e escolhas: escolhemos o dia de ir, programamos o que levar pra uma longa estadia, preparamos a nossa mente pro que vinha pela frente. Mas não, nada prepara. E olha que me disseram que dessa vez ia ser menos traumático. Tão fácil falar.
Numa última tentativa de não passar por uma longa internação e amputação, recorremos a uma enfermeira particular que nos mandou a real e recomendou uma vascular. Corremos pra vascular já com peso no coração, porque a enfermeira citada cuida do meu pai desde 2019, quando surgiram as primeiras feridas diabéticas. Na vascular, entendemos que a coisa toda, a coisa inteira, era mais que "só feridas que não cicatrizam", era o entupimento de veias numa perna inteira, resultado de uma doença vascular em último estado resultando no que chamam de isquemia crítica. E que, a essa altura, não iria mesmo cicatrizar, já que, com as veias entupidas, o sangue não tinha como circular. Chegamos na médica tristes pensando na perda de um dedo, saímos arrasados porque a realidade era a possibilidade da perda de uma perna.
Apesar de ser um caminho doloroso (e caro), a última médica fez o que eu considerei a melhor coisa no processo: ela nos deu o mapa do caminho das pedras.
E no dia 17, tal qual O peregrino, saímos na nossa Jornada. Fomos pra UPA no dia e horário indicados, depois HRA e, por último, HMV (hospitais locais) - exatamente como a médica vascular disse.
Apesar do caminho previsto, o que nunca dá pra se preparar são as histórias que afetam no caminho, o que a gente tem que escutar, que ver, que sentir, que vivenciar.
- Como topar com um vizinho com um passado como também vizinho de leito. Jovem e com uma diabetes super resistente;
- ou com um jovem paraplégico, como possível passado similar, tendo levado 4 tiros, ter sido abandonado pela mãe que fez com que gerasse uma escara de uns 10cm na lombar e tendo que implorar pra que alguém da família o aceitasse em casa. Nunca vi uma alta tão triste;
- como descobrir que uma inflamação no corpo pode levar a pessoa a ter um comportamento violento e insano, aprendido com um senhor que chegou em estado de total agitação e revolta;
- tipos diferentes de profissionais envolvidos. Afinal, parece que quanto menos bem assistido o local da saúde é, menos enfermagem por amor é registrado;
- ter o pior dos dejà-vus ao chegar num novo hospital e perceber que teríamos mais uma experiência de ficar em leito num corredor caótico;
- entender que nesses ambientes, enquanto pessoa que acompanha, é primordial fazer contatos, se aliar a outras pessoas na mesma situação, trocar conhecimentos de horários, locais, bizus, medicamentos, cuidar dos pacientes vizinhos. A experiência de hospital é viver o hospital. Juro que faz doer menos;
- E nessas alianças, além das histórias vistas no local, ouvir as outras milhões de histórias dos acompanhantes ali, trocar figurinhas de raiva, ódio, fé e amor que surgem nessa condição de aprisionamento;
- e aprender a chorar de forma discreta;
- e dormir com a lâmpada acesa em um local que nunca dorme, nunca sossega. Estado de alerta é constante;
- e desapegar do nojo. Da comida do local, dos ferimentos, das pessoas, do ambiente, das trocas de fralda, do xixi, do vômito, dos puns, dos bafos;
- Mesmo quando uma senhora que você nunca viu faz xixi no seus pés ou lhe dá uma cuspida;
- Mesmo quando você é convidada a dar um banho em outra senhora que se apegou a você sem nenhum motivo aparente;
- Se acostumar com a nudez de corpos diversos, de corpos doentes;
- Em ver gente saindo feliz da vida depois de amputar uma segunda perna e entender que viver sem dor é o mesmo que libertação;
- aprender a ouvir, ser empática e saber consolar;
- acostumar o cérebro a entrar num modo de organização onde todas as informações passadas serão organizadas e repassadas e repetidas e contestadas diversas e diversas vezes pra equipes diferentes, profissionais diferentes;
- é saber lidar com a frustração de quando uma coisa não sai como imaginamos - como não ter alta num dia esperado;
- é descobrir novas sensações, novos gostos e tentar processar essa confusão em meio ao caos.
Nessa de descobrir novas sensações, o que sinto é que passei por mais um salto de maturidade. Desses de quando você é bebê. Pelo visto, depois de nascer, eles nunca param de acontecer.
Eu não sei como terminar esse texto. Comecei há quase 10 dias e sinto que ainda não processei tudo que eu tenho que processar. Mesmo voltando pra casa, a rotina hospitalar foi transferida aqui pra dentro, com o diferencial que agora não tem terceiros pra lidar com as coisas, é tudo conosco, comigo. As comidas no horário certo, as medicações, os curativos, o estresse de lidar com doente teimoso, com a volta da rotina de trabalho, rotina de casa.
Sigo meio anestesiada, tentando não sentir nada em intensidade pra não sofrer com o peso da vida. Problema que acabo anestesiando também coisas boas, que não as sinto em intensidade.
Espero voltar em breve a escrever sobre outras coisas que aconteceram quando conseguir reorganizar meus pensamentos e sentimentos.
Me encontro novamente em um inverno onde sinto frio o tempo inteiro. Dois casacos e uma manta não me aquecem. Meus pés e mãos vivem gelados.
Novamente tô achando que é um frio que vem de dentro.
Envelhecendo nessa festa que cresce insanamente e vai consumindo tudo em volta, São João, pra mim, passou a ter cheiro de banheiro público, lama empoçada, gente bêbada.
Ontem, no hospital, enquanto falava com ela pelo telefone e chorava, senti forte o cheiro de fogueira e pólvora. Aqui fica pertinho da zona rural. Bateu nostalgia misturada com solidão.
Acho que nunca serei feliz em junho novamente.
Eu tenho muitos e muitos problemas pra comer e por isso, criei um blog pra me ajudar nisso. E me desenhei pra ilustrar o novo projeto.
Como ela não tá usando o quarto dela (desde que minha vó adoeceu, habitamos todos um andar só em torno dela), desci com a Alexa dela pra cozinha e instiguei: ô, mulher, por que a senhora não larga um pouco a rádio e escuta algo que a senhora verdadeiramente gosta, hein?
Tal como eu, ela é apegada a rotina, a coisas fixas. Mudança significa dor, mesmo que venha com ganhos posteriores. E, sendo assim, ela foi relutante, disse gostar das músicas que tocavam na rádio. Até as que não gostava, aprendia a gostar.
Insisti: Por que ouvir de vez em quando algo que gosta se a senhora pode escutar sempre? Por que se acostumar com algo que não gosta quando pode se permitir? E ela se permitiu.
E aí tem sido fantástico, a essa altura, descobrir o gosto musical da minha mãe. Ela gosta de um sambinha aos domingos de manhã, então assim geralmente acordo com Alcione ou Beth Carvalho. Pra quando tá arrumando a casa, gosta de algo pra cantar junto, então rola Priscilla Senna, Nelson Gonçalves, Roberto Carlos, Marília Mendonça. Ou quando quer só parar pra dizer "eu acho essa tão linda", rola Scorpions ("qual é aquela do assovio?"), Guns n' Roses ("essa também"), Joe Dolan, Trepidant’s.
Dia desses, cheguei do trabalho e ela me falou o quanto foi bom lembrar da juventude e como são lindas as músicas dos Beatles. Exclamou o quão incrível é não ter uma música ruim. Coincidentemente eu também tinha passado a tarde escutando Beatles, o álbum Abbey Road e trocamos maravilhamentos sobre.
As vezes, andando pela casa, ela para pra dizer "eu amo tanto essa" e eu amo esses momentos.
Em algum momento do passado eu tinha feito uma playlist chamada "Tardes em casa" imaginando algumas coisas que ela gostaria de ouvir e lembrando de coisas que ouvia quando era criança, nas épocas de fitas K7 e CDs. Tentando separar o que era dela do que era do meu pai.
Agora, com o streaming tenho a chance de afinar essa playlist com ela e isso é muito linguagem de amor que levarei pra memória futura.
Tento não entrar no vórtex de vídeos curtos e jogos cheios de anúncio. Tento lembrar que preciso consumir os serviços que pago. Quero fechar os olhos e descansar, mas meu corpo se recusa e me lembra das coisas que tenho pra fazer, que quero fazer, que prometi fazer. Queria não ter prometido nada a ninguém. Queria não criar expectativas em ninguém, mas entendo que não existe a possibilidade de viver sem se envolver.
Além dos 9 livros, vi uns 15 filmes. A ansiedade fica na frestra da porta sussurrando: vai, lê enquanto dá. Assiste enquanto dá. Tudo isso vai mudar em breve.
Tô medicada, mas os períodos de hospital me assustaram e traumatizaram mais do que consigo mensurar.
Nesse processo, já consegui ler 3 livros. Sendo justa, dois deles foram muito curtinhos: Vidas Secas, de Graciliano Ramos e A metamorfose, de Franz Kafka. Ambos excelentes e poderosos.
Em Vidas secas, uma família nordestina migra abatida pela seca do sertão. O impacto da fome, da sede, de vítimas da pobreza e corrupção, da grosseria adquirida pela dureza, da insensibilidade e desconfiança, mas acima de tudo, a honestidade, me impacta porque é daí que vem os meus antepassados e é um impacto que segue batendo mesmo quando não passamos mais em profundidade por tais aspectos. Mas o atraso? Ele tá lá. Vejo na minha vó, nas primas dela, no meu pai e suas histórias.
Minha vó, em avanço de demência, me faz pensar que, se tivesse tido uma vida mais confortável e sem privações, teria conseguido combater, não sei, a mente que se deteriora. E privações, não falo só as financeiras, mas humanas também. Não soube dar amor a alguns e, aos que deu, foi abandonada.
E aí vem A metamorfose falar sobre um personagem, o Samsa, que virou um inseto. Assim, sem mais, nem porquê. De forma similar, minha vó sofreu um AVC e, a pouco mais de um ano, vimos o processo dela de 'insetificação' de uma pessoa. Ela não sabe mais se comunicar, que não existe mais em convívio social, abandonada pelo filho, irmã, netos. Que, quando deixou de ser 'útil', passou a ser 'algo' a ser visto com pena e repugnância.
Em lapsos de autoconsciência, ela me diz que tô cheirosa e sempre respondo que ela que tá. Ela ri e diz "eu não". Mais de uma vez ela fala sobre se achar suja. Mas não, nunca tá, sempre tá cheirosinha e hidratada. É sobre isso que se trata as tais 'situações kafkianas'?
Apenas janeiro e eu já sendo socada em memórias e reflexões. Acho que o ano começou bem, apesar de pesares.
First study of the year, testing TB Choi's cartooning technique. I thought it was weird, but did I want perfection in the first test? Calm down! haha
(still struggling with the migration from Photoshop to Clip Studio Paint).
Segundo ano de Kinktober (que geralmente posto lá pelo mastodon porque é onde aceita nudez sem restringir), decidir focar em duas personagens. Um casal sáfico gordo e fogoso. Não terminei todo o desafio. O ano foi ficando cada vez mais apertado de tempo o que fez até ter uma mudança de estilo no meio do caminho.
CW: contém nudez e atos sexuais. Entre por sua conta em risco.
Vendo o Uil falar sobre tudo ser performance em uma postagem pessoal no mastodon, colocou lenha na minha cabeça sobre como a publicidade é um grande show disto. Sempre foi. Que absorve designers, jornalistas, produtores de evento, entre outras e outras profissões, e fazem de tudo um grande espetáculo. Geram lixo, comem lixo. É um sistema de retroalimentação de porcaria que embala todo mundo, ergue alguns e derruba o resto.
Cuidar de um corpo vivo (além do nosso, claro) que nem sabe dizer onde dói é complicado demais. É brigar contra o anti desenvolvimento. A pele fica mais fina, os músculos mais enrijecidos.
São feridinhas, alergias, inflamações e dores que surgem sem motivo aparente, porque apesar de parado, continua em movimento.
É difícil, muito difícil.
Tests&tests with markers. I'm trying with Touch markers before Copic, because PRICES, you know
Continuing more paintings with marker to try to understand these little things. And of course, being helped by beautiful bodies as inspiration.
É engraçado porque eu sempre vou jogando as coisas que tenho que fazer pra frente e pra frente e quando o momento chega eu ainda tenho o descaramento de ficar surpresa. Mas assim, em algum momento eu sabia que as férias começariam, mas hoje acordei atrasada, no caos, cheguei com 1h30 de atraso e meu chefe: "opa, pensei que tinha se confundindo e entrado de férias um dia antes".
E a ficha caiu. O tempo de resolver tudo chegou.
Férias pra outras pessoas, geralmente significa descansar e viajar. Pra mim, significa resolver problemas acumulados.
Viciada em pesquisar bullet journal, acho tudo incrível e lindo e quando tô flutuando, puxo meu pé de volta, me chacoalho e me repreendo: não há tempo! O não ter tempo pra fazer uma coisa contínua é o meu fantasma que não dá trégua mesmo em férias e preciso sempre evocar meu mantra.
Seja justo consigo mesma. Seja justo consigo mesma. Seja justo consigo mesma.
E na tentativa de ser, fiz uma lista que imaginei ser realista e se conseguir cumpri-la, as férias terão sido um sucesso. Mesmo sem viagens. (◕︵◕)
Achei curioso que o lugar tava lotado (escritório de cartão de saúde que dá desconto em consultas) e todo mundo que era perguntado sobre a forma de pagamento, a resposta era sempre "pix" ou "débito". E quando crédito, se perguntado "quer parcelar?" a resposta era "deus me livre!". Seria algo bom se fosse um indicativo de autocontrole financeiro da população, mas a mim só me parecia uma camada acima de uma pobreza como a minha, a tal pobreza premium. Ou nem tanto, talvez a premium esteja num plano de saúde de verdade.
Enfim.
Ela foi pra consulta, paguei integralmente no pix; fomos pra farmácia, compramos a medicação, paguei no pix; fomos tomar um café, novamente paguei no pix. Uber no pix, pra cima e pra baixo. Uma saidinha numa manhã e, pof, 500 reais. No pix.
E nada demais, nada de luxo, tudo básico (ou que deveria ser). É foda o quanto dinheiro nos dá o senso de dignidade.
O que me faz ficar profundamente irritada com quem compara o tratamento privado de saúde com o SUS. Sim, ter o SUS é maravilhoso, desde que você não tenha urgência em depender do SUS. Se você não precisa dormir no chão sujo de um hospital ou implorar chorando pra que um parente seu tenha um atendimento básico de urgência, faça o favor de não comparar os dois sistemas na minha frente.
E aí é 'senta que lá vem história':
Quando meu pai foi encaminhado pra UPA, ele tinha uma parte do dedo sem circulação. Ele foi sob a recomendação de "precisa ver um vascular". Chegou lá, ficou interno. Porque precisava ver um vascular.
Por erro médico, deixaram o dedo dele sem curativo. No dia seguinte tinha ponto de necrose. Por erro da equipe, demoraram 5 dias pra transferí-lo. Mesmo com curativos diários, a necrose cobriu toda a parte inferior do dedo. Quando transferiram, esperou mais uns 3 dias pra "ver o vascular".
Ver o vascular, no fim das contas, significou amputar o dedo. Sem conversa, sem avaliação. Nunca nem vi o médico, no máximo, a equipe de enfermagem.
Já amputado, 3 enfermeiros conversaram comigo pra dizer "ó, não tá legal. Se continuar assim, o próximo passo é a ponta do pé, o pé, a perna...". Não à toa o hospital era conhecido como "açougue". E não é dos piores do Recife, pelos relatos. E os relatos... eu ouvi tanta coisa.
Ele teve alta e corremos pra uma enfermeira particular. Ela foi taxativa em dizer: ele não precisaria ter amputado. E tratando em 10 sessões, ela reverteu o caso dele. "Só" perdeu um dedo. E aí seguiu no SUS, como término de tratamento.
Pra gente que é pobre-pobre, SUS é uma benção e uma maldição. Ruim com, pior sem.
É preciso tá aqui na casta baixa pra ter uma panorâmica disso.














