Cw.: contém spoilers e conteúdo sexual.
Eu não me considero uma pessoa pudica, nem de longe. Um dos meus momentos favoritos do ano, aliás, é desenhar kinks ao longo de outubros e o fiz por 2023, 2024 e 2025. Fui sendo cercada pela ideia de ler A casa dos budas ditosos como um livro de putaria tem uns bons meses e não sei precisar bem onde começou, mas sei que houve dois principais gatilhos. 1) Esse vídeo da Goka, baiana maravilhosa, que tem um grande poder de contar histórias com um sotaque delicioso que instiga vontades demais. E aqui, ela sugere a uma pessoa que lê por demais romances hot a ler A casa dos budas e peguei o conselho pra mim também, tal indicação com boca cheia; e 2) Fernandinha Torres anunciando estar vindo pra Recife trazendo a peça A casa dos budas ditosos e rebuluçou minhas entranhas de vontade de faltar no trabalho, tomar um blablacar pra capital, vê-la sendo maravilhosa e voltar do jeito que desse. Não deu.
Mas joguei o arquivo no kindle, no mais próximo que eu pude fazer e me rendi ao livro. Que, aliás, começa com um prefácio maravilhoso da Fernanda e que, no resto da minha leitura, tomou todo a voz dela mesmo. Especialmente porque a personagem, baiana, mora no Rio. A voz é dela. E melhora vendo, por fim - ainda que não pessoalmente, pra minha tristeza, a peça:
Mas então, o livro conta a história de uma mulher já em idade avançada que descobre uma doença que só fala qual é no final, como se pouco importasse e que resolve entregar ao autor, o João Ubaldo Ribeiro, suas memórias de uma vida regada a muitas aventuras sexuais e muitas provocações.
O livro surgiu de uma encomenda de uma editora pra coleção Plenos Pecados e atribuiu ao João Ubaldo Ribeiro a escrita para o pecado da Luxúria.
Comecei aqui falando que não me considero pudica, já me justificando, porque lendo esse livro que vai de zoofilia (que foi apenas pincelado na peça, aliás) a incesto, coisas que considero inaceitáveis de pensar, me colocou como pudica. O que acho ser o propósito do autor, nas provocações, invocar os tabus que assolam a mente de cada leitor. O choque, o horror, a negação, o "agora ela foi longe demais". E aí me veio aquela sensação de ser enrolada pela narradora. Imagina, baiana morando no rio, provavelmente desbocada como só esses dois estados sabem ser, estaria rindo do choque do leitor de longe, essa gente careta.
Achei algumas partes maravilhosas:
A Luxúria pertence a Deus, não ao demônio. "Satanás odeia a luxúria, não é invenção dele, assim como a bondade", diz ela.
Aqui, ainda no prefácio de Fernanda, citando a personagem que, apesar de toda a vida dada ao pecado da carne, é católica e crente em Deus.
Quando adentra ao texto, de fato, percebemos que a personagem é uma mulher muito erudita, muito embasada, muito cheia de referências e ela fala em politeísmo católico, sobre a transformação de deuses em santos e sinto que muitos católicos, crentes de serem monoteístas, começariam a se remexer desconfortavelmente daqui.
Ela tem uma forma de colocar a putaria em palavras bonitas que me deixou admirada. Algumas muitas vezes precisei mesmo repetir trechos, mas falando em voz alta, o que como falei, na minha mente vinha mesmo em voz de Fernanda Torres. Mas ó, só:
E aí, com uma lua descomunal iluminando a barra da baía de todos os Santos, eu encarnei todas as deusas do amor, todas as diabas desabridas que povoam o universo, a Luxúria com suas traiçoeiras sombras coleantes e seus estandartes imorais, seu chamado à devassidão, à dissipação e à entrega a todos os gozos de todos os matizes até chegar à morte lasciva, eu era a Luxúria integral, baixada ali para reinar como um espírito imisericordioso e invencível, naquele morro assombrado e suas redondezas petrificadas. Eu fiz tudo com ele, tudo a ponto de achar que ele desfaleceria. E nem perguntou nada, quando eu sentei em cima do pau dele e ele viu que eu já estava longe de ser virgem. Não perguntou, nem eu disse nada. (...)
Ou essa parte, que acho ser um ótimo convite ao livro:
Claro, minha vida não foi comum, mas eu basicamente sou igual a qualquer uma, nem pior, nem melhor. Sempre tive dinheiro e fui inteligente, o que certamente facilita as coisas. Mas sou igual a qualquer uma. E pessoas leem romances, biografias, confissões e memórias porque querem saber se as outras pessoas são como elas. Não somente por isso, mas por muito por isso. Querem saber se aquilo de vergonha que sentem é também sentido pelos outros, querem olhar mesmo pelo buraco da fechadura e, quanto mais olham, mas precisam olhar, nunca estarão saciadas. (...) Vai ter muita gente que vai ler isso e vai discordar (...). Largue este texto, então, não perca seu tempo. Não largou? Não largou, claro. Chegou até aqui. Não é para largar. A intenção do buraco da fechadura é a primeira. A segunda é provocar tesão, quero que quem me ler fique com vontade de fazer sacanagem, pelo menos se masturbando. (...) Penso principalmente nas mulheres, gostaria que as mulheres, ao tempo que se tornassem mais ousadas, se tornassem também mais abertas, mais compreensivas, deixassem de ser tão mulheres, por assim dizer. (...) Quero que as mulheres fiquei excitadas, se identifiquem comigo, queiram me comer e comer todo mundo que nunca se permitiram saber que queriam comer, quero criar um clima de luxúria e sofreguidão (...) um momento em que a sacanagem toma conta de tudo, e ela se sente fêmea, devassa, puta, ela faria tudo, tudo, ela quer foder, ela quer fazer tudo!
É, de fato, um livro que não passa simples pela vida quando lido. Decididamente foi interessante de ler e entrar no meu arcabouço de livros sobre luxúria.
Avaliação: ✩✩✩✩




